Copa do Mundo

Por que Brasil adota seleções da América Latina e da África na Copa?

De Cabo Verde ao Equador, torcedores brasileiros transformam outras seleções em favoritas e mostram que futebol também carrega história, identidade e política

Se existe uma herança brasileira durante as Copas do Mundo além de torcer pela Seleção, é escolher uma segunda camisa para vestir. Essa prática significa adotar outras seleções como “times do coração” durante o mundial, criando uma torcida paralela que acompanha os jogos. 

Muitas vezes, essas escolhas recaem sobre países fora do olhar europeu, como seleções da África, Oriente Médio ou da América Latina. E nenhum caso simboliza melhor esse fenômeno do que Cabo Verde.

A pequena nação africana chegou à sua primeira Copa do Mundo sem o status de favorita. Mas bastaram dois jogos para conquistar milhões de torcedores do outro lado do Atlântico.

Depois de empatar com a Espanha na estreia e arrancar um empate diante do Uruguai, os Tubarões Azuis viraram assunto nas redes sociais brasileiras. 

Mas esse apoio recebido vai além dos resultados dentro de campo. Por trás dos memes, vídeos e campanhas de apoio existe uma identificação que mistura cultura, história e até geopolítica.

O grande símbolo da campanha cabo-verdiana atende pelo apelido de Vozinha. Aos 40 anos, o goleiro se tornou um dos personagens mais improváveis do torneio. Com defesas decisivas e uma trajetória distante das grandes ligas europeias, ele caiu nas graças dos brasileiros.

Sua história reúne elementos que costumam atrair a atenção do público. Um atleta veterano, vindo de um país pequeno, enfrentando seleções bilionárias e conseguindo competir de igual para igual.

Mas por que isso acontece quase sempre com países africanos, árabes ou latino-americanos?

O ex-chanceler e estudioso das relações internacionais Celso Amorim destaca, em artigo publicado no Phenomenal World, que o futebol frequentemente funciona como uma representação simbólica das relações entre países. Em uma competição global, seleções carregam histórias, memórias e até disputas de séculos, refletindo também a solidariedade política e cultural.

É por isso que muitos torcedores brasileiros acabam criando uma identificação natural com países que compartilham trajetórias marcadas pela colonização, pela desigualdade econômica ou pela luta por reconhecimento internacional.

Quando uma seleção africana desafia uma "potência" europeia, por exemplo, muitos enxergam ali uma narrativa de superação. 

O sentimento do “Sul Global”

Nos últimos anos, ganhou força entre pesquisas o conceito de ‘Sul Global’. A expressão reúne países da África, América Latina, Oriente Médio e partes da Ásia que compartilham experiências históricas semelhantes, como colonização, dependência econômica ou dificuldades de desenvolvimento. O sociólogo Boaventura de Sousa Santos desenvolveu a ideia das “epistemologias do Sul” para explicar como essas nações constroem solidariedades e resistências próprias.

Embora cada país tenha sua própria realidade, existe uma percepção de proximidade entre essas nações.O Brasil faz parte desse grupo. Por isso, não é raro ver brasileiros torcendo por Senegal, Egito, Irã, Cabo Verde ou Colômbia em competições internacionais.

Há uma sensação de familiaridade construída por experiências históricas parecidas e pela percepção de que esses países costumam ocupar posições semelhantes.

Porém, existe uma exceção. Se o apoio costuma surgir para vizinhos latino-americanos, a Argentina quase nunca entra nessa lista.

A rivalidade construída ao longo de décadas entre as duas maiores potências do futebol sul-americano fala mais alto que qualquer sentimento regional. Enquanto outras seleções latino-americanas podem receber apoio brasileiro, os argentinos continuam ocupando um espaço próprio.

O novo formato da Copa do Mundo também ajudou a impulsionar esse movimento. Com 48 seleções participantes, o torneio abriu espaço para países que raramente apareciam nos grandes holofotes do futebol mundial. Isso permite que mais histórias cheguem ao público e encontrem espaço nas redes sociais.

*Estagiária sob supervisão de Aline Gouveia 

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