Semifinal

Como Kylian Mbappé e Lamine Yamal ajudam a explicar a nova face da Europa

Astros da decisão entre França e Espanha, Kylian Mbappé e Lamine Yamal simbolizam um continente transformado pela imigração, pela diversidade e pelo encontro de culturas

Foto de perfil do autor(a) Marcos Paulo Lima — Enviado especial
Marcos Paulo Lima — Enviado especial
14/07/2026 05:00 - Atualizado em 14/07/2026 05:32
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Mbappé e Yamal -  (crédito: AFP)
Mbappé e Yamal - (crédito: AFP)

Dallas — Quando Mbappé e Lamine Yamal trocarem o primeiro olhar antes do apito inicial da semifinal de hoje, às 16h (de Brasília), no AT&T Stadium, a Copa do Mundo colocará em cartaz mais do que um duelo entre dois gênios. Testemunharemos como duas trajetórias ajudam a explicar a Europa do século 21.

O duelo entre França e Espanha poderia ser contado pelos sistemas táticos de Didier Deschamps e Luis de la Fuente. Explicado pela força do ataque francês contra a defesa quase intransponível da Espanha. Ou recorrendo aos números: a França busca a terceira final consecutiva; a Espanha tenta voltar à decisão 16 anos depois da conquista inédita na África do Sul, em 2010. Mbappé pode acumular a terceira final consecutiva aos 27 anos. Cafu alcançou a marca em 1994, 1998 e 2002.

Mas há uma história maior. Dois dos maiores protagonistas do futebol mundial atualmente vestem muito mais do que as camisas de França e Espanha. Kylian Mbappé e Lamine Yamal são os rostos de uma Europa moldada pela imigração, a diversidade e a mistura de culturas.

Nascidos em Paris e Esplugues de Llobregat, respectivamente, ambos cresceram em países cujas discussões incluem identidade nacional, pertencimento e integração. Ambos têm raízes familiares africanas e se tornaram os principais embaixadores esportivos de seleções de seleções que já não cabem nos antigos estereótipos europeus.

Mbappé, filho de um camaronês e de uma argelina de ascendência cabila, tornou-se o herdeiro da geração campeã em 1998 sob o lema "Black-Blanc-Beur", uma expressão criada para simbolizar um país multicultural reunido em torno de Zidane, Thuram, Desailly e companhia. Vinte e oito anos depois, o camisa 10 é a principal referência de uma equipe à caça da terceira final consecutiva de Copa do Mundo. Em quase 100 anos, apenas a Alemanha Ocidental (1982, 1986 e 1990) e o Brasil (1994, 1998 e 2002) conseguiram o feito. "Minhas origens fazem parte da minha história, mas sou francês e tenho orgulho de representar a França", declarou Mbappé, ao escolher representar os bicampeões.

Na Espanha desponta o garoto que hoje ocupa o papel desempenhado por Mbappé oito anos atrás. Lamine Yamal tem apenas 19 anos, é filho de pai marroquino, mãe da Guiné Equatorial e tornou-se o maior símbolo da nova Espanha multicultural. Ao lado de Nico Williams, representa uma geração que enxerga a seleção como reflexo de uma Espanha muito mais diversa do que aquela campeã mundial em 2010. "Tenho carinho pelas minhas origens, mas cresci na Espanha. É o país que me deu tudo e é uma honra representá-lo", costuma discursar um Lamine Yamal politicamente incorreto.

Há, também, uma passagem de bastão silenciosa. Na Rússia, em 2018, Mbappé era o adolescente destinado a dominar o futebol mundial. Encantou o planeta, conquistou a Copa aos 19 anos e virou referência. Oito anos mais tarde, é ele quem observa um novo fenômeno ocupar esse lugar. "Você pode ser jogador, pode ser uma estrela internacional, mas, acima de tudo, é um cidadão", desafia Mbappé, para quem o papel de um craque transcende as quatro linhas e invade até mesmo a seara da política e eleitoral.

Yamal chega à semifinal disposto a repetir o caminho do francês: conquistar uma Copa antes dos 20 anos. Na véspera da semifinal, Yamal comemorou 19 anos. Ontem, foi recebido com o tradicional corredor polonês no gramado do Cotton Bowl, estádio da Copa de 1994, antes do início do último ensaio para o confronto de hoje.

O duelo ganha ainda mais força porque Yamal levou vantagem nos capítulos mais recentes dessa rivalidade. A Espanha venceu os dois últimos confrontos entre as seleções: a semifinal da Eurocopa de 2024 e na fase final da Liga das Nações de 2025. Yamal foi personagem central dessas vitórias. Mbappé tenta mudar a história na competição mais relevante do futebol, mas o técnico dele admitiu na entrevista coletiva de ontem.

"A Espanha é favorita, e é pelo que que tem feito. A primeira partida, contra Cabo Verde, você deixa de fora, mas depois todo o resto a Espanha confirmou o favoritismo. Não quero botar pressão, mas sabem que as pessoas esperam muito da Espanha. Eles atacam e defendem muito bem", admitiu Didier Deschamps.

Luis de la Fuente aliviou o peso. "Ser favorita não significa nada para mim. Não é decisivo. Estamos enfrentando duas grandes equipes. Caparrós sempre me lembra que, quando alguém te elogia tanto, fica na dúvida se a pessoa vai mesmo aparecer para jogar", brincou.

França e Espanha disputarão uma vaga na final da Copa. Mas Dallas também será o palco de um retrato da Europa contemporânea: multicultural, diversa e conectada por diferentes origens. Mbappé e Yamal nasceram europeus, carregam raízes africanas e simbolizam uma Europa em que a identidade deixou de ser uma fronteira para se transformar em encontro.

Além do futebol: duas vozes da nova Europa

Kylian Mbappé — França

1. Raízes e identidade
Filho de pai camaronês e mãe argelina de ascendência cabila, tornou-se o principal símbolo de uma França multicultural. Defende que suas origens fazem parte da história, mas que sua identidade é francesa.

2. Combate ao racismo
Ao longo da carreira, posicionou-se contra as manifestações racistas, inclusive contra Vini Jr., e defendeu um futebol como espaço de respeito, inclusão e convivência.

3. O debate político francês
Em 2024, durante as eleições legislativas, entrou no debate público ao pedir participação dos jovens e alertar contra os extremos políticos. A fala teve forte repercussão em uma França marcada pela disputa entre diferentes visões de sociedade.

4. Ação social e juventude
Criou iniciativas voltadas ao apoio de crianças e jovens, reforçando a imagem de atleta envolvido com questões sociais além do campo.

Lamine Yamal — Espanha

1. A nova Espanha
Filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial, cresceu em Rocafonda e tornou-se o rosto de uma geração espanhola mais diversa e multicultural.

2. Pertencimento
Escolheu defender a Espanha, país onde nasceu e cresceu, sem renunciar raízes familiares. A trajetória representa a convivência entre diferentes origens.

3. Voz internacional
O gesto com a bandeira da Palestina durante uma celebração pública ganhou repercussão mundial e reforçou sua imagem como jovem jogador atento a temas que ultrapassam o futebol.

4. Representatividade
Ao lado de jogadores como Nico Williams, simboliza uma nova geração que ajuda a redefinir a identidade da seleção espanhola.