Atlanta — A Inglaterra reaprendeu a chegar. O problema é que esqueceu como vencer. Desde 2018, a seleção tornou-se presença constante nas fases decisivas das grandes competições, mas coleciona eliminações, vice-campeonatos e frustrações. A semifinal contra a Argentina, hoje, no Mercedes-Benz Stadium, oferece mais uma oportunidade para interromper um jejum que dura desde a Copa do Mundo de 1966.
Lá se vão 60 anos. É o segundo maior jejum de títulos entre as seleções campeãs do mundo, atrás apenas do Uruguai, que não levanta a taça desde o Maracanazo de 1950 e caiu ainda na fase de grupos desta edição. Desde então, a Inglaterra viu o futebol mudar, transformou a Premier League no campeonato mais rico do planeta e revelou algumas das melhores gerações da Europa. O topo, porém, continuou distante.
Em 2018, a Inglaterra caiu diante da Croácia na semifinal da Copa do Mundo. Depois vieram dois vices consecutivos nas Eurocopas de 2020 e 2024, para Itália e Espanha, além do terceiro lugar na Liga das Nações. O roteiro mudou. As eliminações precoces deram lugar às derrotas quando a taça parecia ao alcance das mãos. O problema deixou de ser chegar. Passou a ser concluir bem.
As derrotas provocaram uma mudança inédita. Depois de oito anos sob o comando de Gareth Southgate, responsável por devolver a Inglaterra ao protagonismo internacional, a federação decidiu romper uma tradição centenária e apostou em Thomas Tuchel. Entre as quatro seleções semifinalistas, é a única dirigida por um estrangeiro. O alemão também tenta quebrar outro tabu: jamais um técnico nascido fora do país conduziu uma seleção ao título mundial.
Thomas Tuchel se deu ao luxo de deixar Phil Foden e Cole Palmer fora da convocação. Poucas seleções do mundo abririam mão de dois talentos desse nível. A Inglaterra pode. Kane, Bellingham, Saka e Rice lideram uma geração que oferece material humano de sobra para encerrar um jejum de seis décadas. O desafio já não é revelar craques.
Os ingleses se reinventaram, abandonaram o estereótipo do futebol baseado apenas na força física, nos cruzamentos e nas bolas longas e passaram a formar jogadores técnicos, criativos e versáteis. O problema deixou de ser formar craques e passou a ser transformá-los em campeões.
São muitas as explicações para a sucessão de quases. Passam pelo peso de uma camisa que não levanta a Copa do Mundo desde 1966, pela cobrança permanente da imprensa inglesa e pela dificuldade de transformar elencos talentosos em equipes vencedoras.
Há, sem dúvida, um componente psicológico. A expectativa criada em torno de cada geração e a pressão dos jogos decisivos costumam cobrar um preço alto. Também pesa a dificuldade de manter a identidade de jogo quando a taça entra em campo.
Thomas Tuchel discorda. O treinador rejeita a ideia de que a Inglaterra sofra um bloqueio psicológico. "Como podem falar em mentalidade? Isso é pura mentalidade. Não é um problema mental. É sobre a qualidade do nosso jogo. Precisamos jogar melhor", desabafou após a classificação sobre a Noruega.
Foi justamente para romper esse ciclo que a Federação Inglesa decidiu trocar Gareth Southgate por Thomas Tuchel. O antigo treinador devolveu protagonismo à seleção, mas deixou a impressão de que havia levado a geração ao limite. O alemão chegou para acrescentar o que faltou nas últimas decisões: coragem para assumir riscos e frieza nos momentos decisivos.
A campanha nesta Copa sugere que a transformação está em curso, mas ainda longe de ser definitiva. A Inglaterra virou contra a República Democrática do Congo, resistiu com um jogador a menos diante do México e buscou outra reação contra a Noruega. A semifinal contra a Argentina vale mais do que uma vaga na decisão. É a oportunidade de provar que esta geração sabe fazer aquilo que as anteriores não conseguiram: transformar o quase em conquista.