Daniel Dahis achou que receberia uma notícia ruim. Estava no Brasil quando recebeu um e-mail sobre sua candidatura a um prêmio de divulgação científica nos Estados Unidos. Disse à esposa que talvez os organizadores quisessem comunicar a rejeição pessoalmente. Ao entrar na videochamada, encontrou o anúncio num slide. “Eu entro na ligação, tá o PowerPoint aberto: ‘você venceu’”. Dias depois, ainda custa a acreditar: “parecia ser um prêmio impossível de ganhar”, contou ao Correio.
Dahis é o primeiro brasileiro a vencer o Eric and Wendy Schmidt Awards for Excellence in Science Communications, concedido pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM), em parceria com a Schmidt Sciences. Ganhou na categoria Cientista Pesquisador: Início de Carreira, e receberá US$ 40 mil. A cerimônia será em 20 de novembro, em Washington. Em 2026, foram reconhecidos 24 profissionais em oito categorias.
O prêmio não reconhece uma descoberta específica, mas sua capacidade de levar pesquisas para fora dos laboratórios. Entre os trabalhos de sua candidatura, está um vídeo feito com o Ministério da Saúde para esclarecer uma alegação sobre vacinas e acidente vascular cerebral (AVC), também premiado pelo mediaGOV BR neste ano. Doutor em engenharia biomédica, Dahis passou por Harvard e por empresas de biotecnologia antes de começar a falar de ciência nas redes.
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O título de “influenciador científico” nasceu em 2024, quando participantes da Brasil Conference, evento realizado em Boston, o incentivaram a compartilhar seu trabalho nas redes. Decidiu experimentar, com uma condição: “O meu conteúdo vai ser em português”, porquê, segundo ele, via poucos cientistas brasileiros falando diretamente ao público. A meta era conquistar 10 mil seguidores em um ano, hoje, já são cerca de 750 mil, atraídos por vídeos que explicam descobertas e desmentem boatos sobre saúde.
Mas o crescimento nas redes trouxe um outro lado da divulgação científica. Entre os temas que mais mobilizam seu público estão as vacinas, tanto pelo interesse nas informações quanto pela hostilidade que provocam.
“Às vezes tenho que fazer conteúdos desmentindo ideias que nasceram em 1998, por exemplo, de que vacinas causam autismo. [...] Mas ainda assim a gente tá em 2026 e sempre que eu falo desse tópico gera hate (ataques), geram pessoas às vezes me xingando”, relata o pesquisador.
"Sempre fui um cientista"
O interesse pela ciência surgiu ainda na infância, diante de programas de televisão sobre casos clínicos. Daniel recorda que já era interessado por "assuntos peculiares", e que apesar de estimulado pelos pais, ainda era um "cientista sem treinamento". Até poucos meses antes do vestibular, ele pretendia ser médico. Mudou de ideia: queria desenvolver tecnologias para tratar pacientes.
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em programas de iniciação científica, estudou engenharia eletrônica e de computação e pesquisou métodos de imagem de câncer de mama e testes auditivos em bebês.
Após um mestrado em engenharia biomédica em Israel, Daniel conheceu uma professora ligada a Harvard numa palestra e perguntou como poderia fazer doutorado com ela. A primeira tentativa não avançou. Meses depois, nos Estados Unidos, procurou-a novamente e apresentou cinco ideias de pesquisa. Conseguiu a coorientação.
A escolha de fazer conteúdos em português ajuda a explicar por que a vitória o surpreendeu. Embora more nos Estados Unidos, fala principalmente com brasileiros. Ao se inscrever em um prêmio estadunidense, duvidou que uma produção em português tivesse chance. “Para mim, poder representar o Brasil nesse prêmio pela primeira vez é uma honra absurda”.
O cientista vê no ambiente digital um desafio para quem tenta disputar a atenção do público com informações verificadas. “A gente não tem uma matéria [nas universidades] de como falar para o público leigo, não tem, não existe isso”, conta Dahis. “A população, no fundo, precisa de tradutores de ciência”.
Às vezes, a resposta aparece longe das métricas de audiência. Dahis relata que uma menina de 13 anos levou à escola um estudo que ele havia compartilhado nas redes. A professora gostou e passou a segui-lo. Sua antiga professora de biologia também o encontrou no Instagram, orgulhosa. "A rede social, por mais que a gente saiba dos malefícios que ela pode gerar, ela também pode gerar esses esses encontros que só aquecem o coração e me dão mais motivação para continuar", conta.
Aos estudantes, Dahis recomenda insistir nas oportunidades. Recorda que sua aproximação com Harvard começou quando decidiu falar com uma professora após um seminário e não desistiu diante da primeira dificuldade. “Isso mudou para sempre a minha vida”. Agora, ao lembrar do prêmio que julgava inalcançável, repete o conselho: “O não você já tem. [Mas o sim], Isso pode te levar a lugares inimagináveis ou a prêmios inimagináveis também”.
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