Por João Pedro Resende de Carvalho*
Uma vez por mês, oito mulheres se sentam à mesa com tesoura e papel. Revistas velhas, retalhos, imagens avulsas. Nenhuma é artista de formação. Todas são antropólogas. E é exatamente isso que faz a diferença.
O Coletivo Iló abre hoje, às 19h, a exposição Colagem e Poéticas da Alteridade, na Galeria 3 do Museu Nacional da República. Entrada gratuita. Fica em cartaz até 21 de junho.
O grupo nasceu de um reencontro. Elas estudaram antropologia na Universidade de Brasília nos anos 1980 e 1990. Voltaram a se reunir em 2022 — desta vez, para criar. Não para publicar artigos. Não para dar aulas. Para pegar tesoura e ver o que aparece.
"O que nos une é o prazer de colar juntas e de invencionar poéticas visuais", diz Adriana Mariz, uma das integrantes. Inventar não dava conta.
Da mesa mensal, vieram perguntas que a antropologia já conhece bem. Como percebemos o outro? O que chamamos de normal? "Nossas colagens partem do estranhamento do que é naturalizado", explica Adriana. "A violência, o horror da guerra… Mas fazemos isso de forma poética." Daí o título. Poéticas da alteridade. O outro — e o que ele revela sobre nós.
As obras estão divididas em três seções. Nas Produções Individuais, o visitante entra no universo de cada artista: traços, temas, rastros de décadas de trabalho de campo. Nos Seres Híbridos, as fronteiras cedem. Humano e não-humano, natureza e cultura se misturam em composições que Adriana chama de "formas de estranhamento, seres imaginários em suas existências possíveis."
Já as Pessoas-Árvore chegam mais fundo. "É essa junção entre ancestralidades que nos habitam e as demais formas e seres viventes que nos circundam", descreve. "Essa floresta vívida, complexa e diversa que somos."
A exposição abre com uma instalação. Adriana não a descreve — diz apenas que é ali que está a síntese do coletivo. O convite é para ver.
Cada recorte carrega algo da vida e algo da pesquisa. "Não existe separação", diz Adriana. "É o nosso tear de experiências." A referência ao dadaísmo e ao surrealismo existe, mas ela faz questão de situar: a colagem é mais antiga do que esses movimentos, sobretudo no universo oriental. O Ocidente chegou depois.
Além das obras, a programação inclui quatro rodas de conversa abertas ao público, às sextas-feiras, às 16h, no museu — nos dias 8 e 22 de maio e 12 e 19 de junho. Também serão realizadas cinco oficinas de colagem para o público 60+, na casa de repouso Casa do Vovô, às sextas, das 9h às 10h. A exposição conta com audiodescrição por QR Code, intérprete de Libras, catálogo digital acessível e folders em braile. O projeto é financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.
"A vontade de criar, de colar, de ampliar a percepção sobre o outro", diz Adriana quando perguntada o que espera que o visitante leve. "A compreensão de que as maneiras de existir são tão ricas e diversas quanto são as diferentes culturas."
A tesoura continua na mesa. Agora é a vez de o público se sentar.
Serviço
Colagem e Poéticas da Alteridade — Coletivo Iló
Abertura: hoje, às 19h
Galeria 3 do Museu Nacional da República - Esplanada dos Ministérios, bloco B
Visitação: terça a domingo, das 9h às 18h30, até 21 de junho
Entrada gratuita
Artistas e curadoras: Adriana Mariz, Christine de Alencar Chaves, Lara Amorim, Lelia Lofego, Márcia Maria Gramkow, Nei Clara Lima, Patrícia de Mendonça Rodrigues e Rita de Almeida Castro.
Expografia e Curadoria: Thays Tyr
Produção:@incentivem
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
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