Eu, Estudante

VIOLÊNCIA ESCOLAR

Bullying é desafio permanente nas escolas

Mais da metade dos estudantes vivenciaram situações recorrentes de violência no ambiente educacional no DF. Especialistas orientam e Secretaria de Educação reforça ações de prevenção e combate na volta às aulas

Com o início de mais um ano letivo nas escolas do Distrito Federal, milhares de estudantes retornam às salas de aula levando expectativas, cadernos novos e, muitas vezes, experiências dolorosas de humilhação, exclusão e violência. O que muitos ainda insistem em chamar de "brincadeira" continua afetando de forma profunda o cotidiano escolar. Dados de uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF) em 2025 revelam que mais da metade dos alunos (50,8%) afirmou ter vivenciado situações de violência sistemática na escola ao menos uma vez por mês.

Por trás desse percentual estão histórias como a de Sollux Alves, hoje com 19 anos, que relembra uma adolescência marcada por agressões constantes, muitas delas vindas de pessoas próximas. "Alguns 'amigos' meus eram os que mais se sentiam confortáveis em fazer bullying comigo", conta. Segundo ele, os ataques eram frequentes e direcionados à aparência e ao modo de ser: "Zoavam minha orelha, que na época era grande, zoavam meu jeito, me chamavam de 'viadinho' e colocavam apelidos com nomes nada a ver".

A pesquisa mostra que a forma mais recorrente de agressão é justamente a violência verbal, como xingamentos e apelidos pejorativos, que atinge 32,2% das vítimas. Em seguida, aparecem a disseminação de rumores (25%) e a exclusão social (22,1%).

Para os estudantes, a aparência física é o principal motivador das agressões, citada por 25,3% das vítimas. Em seguida aparecem cor ou etnia (18,3%), o fato de ser mulher (17,4%) e a orientação sexual (17,1%). Esses dados dialogam diretamente com o relato de Sollux, que descreve o impacto emocional das agressões. "Eu me sentia indefeso. Eram meus amigos que cometiam o bullying, então eu ficava em um limbo: se eu reagisse, poderia ficar sozinho", desabafa.

Ainda na adolescência, ele desenvolveu transtornos emocionais. "Por conta do bullying e da falta de inteligência emocional, eu me afundei em uma depressão, desenvolvi transtorno de ansiedade e ansiedade social. Antes mesmo da pandemia, eu não saía mais de casa", completa o jovem.

Segundo a psicóloga Amanda Balbino, esse tipo de vivência deixa marcas profundas. "A exposição constante a situações vexatórias e humilhantes pode provocar ansiedade, tristeza profunda, síndrome do pânico, baixa autoestima, isolamento social, depressão e até práticas de automutilação nas vítimas", explica.

Violência que afasta

O levantamento do IPEDF evidencia também desigualdades estruturais. A maioria das vítimas é do sexo feminino (57,1%) e não branca (69,7%). Estudantes não heterossexuais representam 32,3% dos casos. Entre os agressores, predominam alunos do sexo masculino (54,1%), heterossexuais (74,6%) e cisgêneros (83,9%). Ainda assim, 27,5% dos estudantes admitiram ter praticado algum tipo de violência contra colegas no mês anterior à pesquisa.

Para Amanda Balbino, o fenômeno não se restringe às vítimas. "Quem pratica o bullying também apresenta dificuldades em estabelecer relações saudáveis e empáticas com seus pares", afirma a especialista. Em muitos casos, o comportamento é reflexo de outros contextos de violência vividos pelo agressor.

Na família de Sollux, o sofrimento foi acompanhado de perto. A mãe, Regiane Alves dos Santos, professora aposentada da rede pública, afirma que o tema sempre foi uma preocupação. "Sempre perguntava, conversava e pedia que me contasse caso algo o incomodasse na escola. Dói ver um filho ser motivo de chacota por qualquer motivo idiota", lamenta.

Segundo Regiane, a busca por apoio psicológico e o diálogo com a escola foram fundamentais. "Aprendi que se colocar no lugar do outro diminui muitas possibilidades de o bullying acontecer, principalmente no ambiente escolar", conclui.

Os impactos também aparecem nos indicadores educacionais. De acordo com a pesquisa, 54,6% das vítimas relataram isolamento social, 47,2% queda no desempenho escolar e 36,6% tentativa de evitar a escola. Além disso, 38,3% dos alunos afirmaram ter faltado pelo menos um dia de aula em razão das agressões sofridas.

A trajetória do professor Eric Farias, hoje com 26 anos, ilustra esse processo. Ele conta que sofreu perseguições desde a infância: "Na primeira escola em que estudei, eu sofria perseguição diária. Um menino me insultava constantemente com ofensas homofóbicas. Um grupo da minha sala costumava me pegar pelos pés e pelas mãos e me jogar em um buraco. Também havia empurrões e insultos frequentes".

A mudança só veio após a troca de turma. "Fui para uma sala em que todo mundo era amigo, tinha várias pessoas LGBTs e, principalmente, havia respeito. Foi a primeira vez que me senti seguro na escola", frisa Eric. Hoje, como educador, ele defende respostas rápidas. "É fundamental avisar os pais, tentar trocar de turma e procurar ajuda psicológica", defende.

Ações permanentes

Diante do cenário, a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE-DF) tem investido em ações permanentes de enfrentamento ao bullying. Entre elas, estão os canais institucionais de denúncia, como a Ouvidoria, que permite o registro de casos, inclusive de forma anônima, com garantia de acolhimento e encaminhamento.

No campo pedagógico, a pasta aposta na educação socioemocional, com iniciativas voltadas à empatia, à comunicação não violenta, ao respeito às diferenças e à gestão de conflitos, integradas ao currículo por meio de oficinas, projetos e metodologias ativas. Desde 2024, milhares de profissionais vêm sendo capacitados para identificar precocemente situações de violência, acolher vítimas e mediar conflitos. As formações incluem a aplicação do Protocolo para Situações de Violência em Ambiente Escolar, instituído em 2025. Um dos exemplos é o Projeto Vem Comigo, desenvolvido no CED 01 do Guará, que aposta no protagonismo estudantil como estratégia de transformação da cultura escolar. 

Para este ano, todas as unidades da rede pública passam a contar com um cartaz informativo que reúne procedimentos a serem adotados diante de conflitos, ameaças ou episódios de agressão no ambiente educacional. O objetivo do documento é assegurar que cada escola tenha segurança e clareza na condução dessas situações, trazendo diretrizes para gestores e profissionais, com orientações para atuação segura, organizada e articulada com a rede de proteção.

"A Secretaria de Educação entende que a superação desse problema exige o envolvimento de toda a comunidade escolar, das famílias e da sociedade, por meio de ações contínuas de prevenção, conscientização e promoção do respeito", reforça a chefe da Assessoria Especial de Cultura de Paz da SEEDF, Ana Beatriz Goldstein. (Veja mais em Quatro perguntas para)

Identidade institucional

Para o diretor-geral do Colégio Sigma, Marcelo Tavares, os dados mostram uma mudança importante na forma como o tema é encarado. "O bullying deixou de ser visto como 'brincadeira' e passou a ser reconhecido como um problema real", avalia o gestor da rede privada. Segundo ele, o fenômeno se caracteriza por práticas repetitivas e intencionais, voltadas a fragilizar a vítima. Atualmente, porém, as formas mais preocupantes são as menos visíveis, como o bullying psicológico e o virtual. "A luta contra o bullying precisa ser uma identidade institucional", defende. Entre as medidas essenciais, ele aponta capacitação contínua, regras claras e lideranças de referência para acolher denúncias.

Para o ex-aluno Sollux, hoje mais consciente do próprio processo, o caminho passa pela educação emocional desde cedo. "Se aprendêssemos mais sobre diferenças e inteligência emocional, muitas crianças seriam poupadas", finaliza.

Quatro perguntas para

Ana Beatriz Goldsteins, chefe da Assessoria Especial de Cultura de Paz da SEEDF 

De que forma a Secretaria enxerga o bullying nas escolas do DF?

O bullying é uma prática extremamente prejudicial para a sociedade, que causa danos profundos à vida dos estudantes, afetando a autoestima, a saúde emocional e o desenvolvimento escolar. A Secretaria de Educação não compactua com esse tipo de conduta e atua de forma permanente para combatê-la, entendendo que a superação desse problema exige o envolvimento de toda a comunidade escolar, das famílias e da sociedade, por meio de ações contínuas de prevenção, conscientização e promoção do respeito. 

Quais medidas concretas estão sendo adotadas para combater essa prática?

A pasta tem ampliado ações educativas, oferecendo capacitação contínua a profissionais da educação, estabelecendo protocolos de orientação e respostas rápidas, e conduzindo projetos que promovem respeito às diferenças, empatia e gestão de conflitos. Programas como o NaMoral (em parceria com o MPDFT) e iniciativas de cultura de paz nas escolas estão sendo implementados para fortalecer uma atuação preventiva e formativa. 

Com base nos dados do DF, como a senhora avalia esse tema? Houve algum avanço?

Os dados mais recentes do IPEDF mostram que a maioria das escolas está promovendo campanhas educativas e orientando famílias sobre o bullying, além de relatar uma grande incidência de casos enfrentados no cotidiano escolar. Ao mesmo tempo, esses números revelam um engajamento crescentemente estruturado da rede pública em enfrentar o problema com 87% das escolas realizando ações educativas e quase 90% orientando famílias. Isso demonstra que, embora o desafio seja persistente, há um avanço real no combate ao bullying e na promoção de ambientes mais seguros e acolhedores. 

Qual a importância de discutir este tema?

Discutir o bullying é fundamental porque ele impacta diretamente o bem-estar, a aprendizagem e o desenvolvimento emocional dos estudantes, podendo gerar medo, exclusão, baixa autoestima e até evasão escolar. Abordar o tema na escola contribui para a prevenção de situações de agressão, fortalece a conscientização sobre respeito e empatia e incentiva a denúncia e o apoio às vítimas, promovendo um ambiente mais seguro e acolhedor.

O que diz a lei

O bullying é definido como "intimidar sistematicamente, individualmente ou em grupo, mediante violência física ou psicológica, uma ou mais pessoas, de modo intencional e repetitivo, sem motivação evidente, por meio de atos de intimidação, de humilhação ou de discriminação, ou de ações verbais, morais, sexuais, sociais, psicológicas, físicas, materiais ou virtuais". Essa definição abarca uma variedade de comportamentos agressivos que causam danos à vítima, seja de forma física, emocional seja virtual. O cyberbullying, uma forma de intimidação virtual, também é abordado pela lei.

» A Lei 14.811/24, em vigor desde 15 de janeiro de 2024, criminaliza o bullying e o cyberbullying no Brasil. Para o bullying, a pena é de multa, exceto em casos mais graves, como lesão corporal. No cyberbullying, se realizado pela internet, redes sociais, aplicativos ou jogos on-line, a pena é de reclusão de dois a quatro anos, além de multa. As denúncias podem ser feitas ao Conselho Tutelar, Ministério Público ou à delegacia de polícia. Caso haja omissão de responsabilidade por parte dos Centros educacionais para com os alunos também podem ser denunciados.

Fonte: JusBrasil