*Por Ana Bispo Calisto
As redes sociais têm se consolidado como um espaço complementar de aprendizagem, no qual professores compartilham conteúdos educativos, esclarecem dúvidas e aproximam diferentes públicos do conhecimento. Com vídeos curtos, aulas completas, indicações de livros e contação de histórias, educadores utilizam as plataformas digitais para alcançar estudantes dentro e fora da sala de aula.
Em referência ao Dia dos Professores, celebrado hoje, 15 de outubro, a Influency.me, empresa de marketing de influência com uma base de mais de 12 milhões de criadores de conteúdo, realizou um levantamento para identificar os 10 educadores com maior engajamento no Instagram entre os perfis analisados.
O ranking reúne profissionais de diferentes áreas, como história, biologia, matemática, língua portuguesa e inglês, além de educadores que trabalham com literatura e educação antirracista. Entre eles estão Débora Aladim, Samuel Cunha, Vitor Soares, Teacher Paula Gabriela, Paulo Jubilut, Mairo Vergara, Professor Noslen, Ricardo Jaheem, Professor Ferretto e Gis com Giz Matemática.
Para além da divulgação de conteúdos, as experiências dos professores mostram como a internet pode ampliar o alcance do trabalho educativo. Eles também apontam desafios relacionados à simplificação de assuntos complexos, à qualidade das informações e à necessidade de transformar o interesse despertado nas redes em aprendizado.
Conteúdo curto como porta de entrada
Professor de História e criador do podcast História em meia hora, Vitor Soares começou a pensar em formas de compartilhar conhecimento na internet ainda na faculdade. A ideia ganhou forma em 2019, durante a preparação do projeto, e o podcast foi lançado em 2020.
Para ele, os vídeos curtos podem despertar a curiosidade do público, mas não substituem conteúdos mais aprofundados. “Em um vídeo de um minuto, você não consegue falar muita coisa. Então, você perde, sim, o contexto”, afirma.
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A estratégia é utilizar as publicações mais breves como uma porta de entrada para materiais mais extensos, como episódios de podcast e vídeos no YouTube. O objetivo é despertar o interesse de quem deseja conhecer um assunto e oferecer caminhos para aprofundá-lo.
Soares também observa que a forma de apresentar o conteúdo influencia a resposta do público. Recursos visuais, textos na tela e maneiras de introduzir um tema ajudam a captar a atenção, mas não existe uma fórmula única para alcançar bons resultados. Segundo ele, é importante acompanhar os dados de cada publicação e entender o comportamento da própria audiência.
O engajamento também influencia a escolha dos assuntos. Temas como Segunda Guerra Mundial e ideologias políticas costumam despertar mais interesse do que determinados períodos da história brasileira ou histórias da África e da Ásia. O desafio, explica o professor, é equilibrar a procura do público com a importância social dos temas, sem transformar o conteúdo em algo sensacionalista.
Embora os números contribuam para a sustentabilidade financeira do trabalho, Soares afirma que eles não devem ser o objetivo principal. Para ele, a internet funciona como um meio de divulgação, enquanto a produção do conhecimento histórico depende de pesquisa, fontes e métodos científicos.
Matemática acessível e ensino gratuito
A trajetória do Professor Ferretto também demonstra como a internet pode ampliar o alcance das aulas. Ele começou a lecionar em um curso pré-vestibular em 1998 e, depois de anos em sala de aula, ingressou na Polícia Federal. Em outubro de 2013, durante uma missão em Rondônia, enxergou no YouTube uma oportunidade de continuar ensinando.
O canal começou em um estúdio improvisado, montado em um quarto com câmera, tripé e mesa digitalizadora. Na época, tinha quatro inscritos. Atualmente, reúne cerca de 3,5 milhões de inscritos, segundo o professor. Em 2016, a pedido dos próprios estudantes, ele criou uma plataforma de ensino que começou com conteúdos de matemática e foi ampliada para a preparação para o Enem, vestibulares e provas escolares.
Para Ferretto, a publicação de aulas gratuitas é uma das principais contribuições das plataformas digitais. A internet permite que estudantes de diferentes regiões tenham acesso aos conteúdos, independentemente de estarem em uma capital ou no interior do país. “A matemática não nasce difícil; muitas vezes falta o jeito certo de aprender”, afirma. Segundo ele, a possibilidade de assistir às explicações no próprio ritmo, pausar e rever trechos ajuda os estudantes a estudar com mais autonomia e segurança.
O professor ressalta, no entanto, que os diferentes formatos têm funções distintas. Enquanto os vídeos curtos podem despertar o interesse por um assunto ou apresentar uma dica específica, as aulas completas permitem desenvolver a teoria e resolver questões passo a passo. “O conteúdo curto não precisa ensinar tudo: ele desperta o interesse e convida o aluno a se aprofundar”, explica.
Ferretto também alerta para o risco de confundir o consumo de conteúdo com a aprendizagem. “Assistir a um vídeo pode dar a falsa sensação de que o aluno aprendeu, mas matemática se aprende pegando o lápis e resolvendo questões”, diz.
Na avaliação do educador, a grande quantidade de informações disponíveis exige organização e foco por parte dos estudantes. O professor também defende que a busca por formatos atrativos não comprometa a precisão do conteúdo.
Literatura, representatividade e educação antirracista
Para o professor, escritor e contador de histórias Ricardo Jaheem, a presença nas redes sociais também é uma forma de ampliar a representatividade negra e aproximar crianças e jovens da literatura. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro, ele trabalha com literatura infantil e educação antirracista.
A criação de seu perfil educativo surgiu da vontade de apresentar outras referências de homens negros na educação e na literatura. Jaheem busca construir uma imagem positiva para crianças e pessoas negras, além de mostrar a literatura como uma possibilidade de reflexão e enfrentamento dos efeitos do racismo estrutural. “A ideia de criar meu Instagram para falar de educação e literatura vem muito da minha vontade de mostrar uma outra imagem de um homem preto, professor, para as crianças, para as pessoas pretas e para quem acessa as redes sociais”, afirma.
Na avaliação do educador, a identificação com personagens, autores e histórias é importante para aproximar o público infantil da leitura. Ele destaca que a presença de autores negros contribui para ampliar as representações encontradas nos livros e permite que mais crianças reconheçam suas próprias experiências na literatura. “Com autoria preta, com vozes pretas, a gente consegue trazer contextos e presenças com os quais as crianças conseguem se identificar e nos quais conseguem se ver”, diz.
As redes sociais ampliam o alcance desse trabalho para além das escolas onde realiza contações de histórias. Segundo Jaheem, seus conteúdos chegam a diferentes regiões do Brasil e também a outros países de língua portuguesa. Livros, aulas disponíveis na internet, vídeos no YouTube e publicações no Instagram formam diferentes caminhos para o público entrar em contato com seu trabalho.
Para ele, essa circulação também permite dar visibilidade a conhecimentos que vêm das periferias e das comunidades negras, construídos e transmitidos por diferentes gerações.
“Eu penso que todo o conhecimento, todo o aprendizado, parte desse território, parte da periferia, parte da favela, desse chão que tem múltiplas vozes”, afirma.
Nesse sentido, Jaheem entende que seu conteúdo não representa apenas sua trajetória individual, mas também a de pessoas que historicamente tiveram menos oportunidades de expressar suas experiências. “O conteúdo do Ricardo não representa só o Ricardo Jaheem. Ele representa a minha avó, que não pôde ter voz, minha bisavó, que foi escravizada, e uma série de outras pessoas”, diz.
O professor também destaca o papel da literatura na reflexão sobre a infância e no enfrentamento do racismo. “Quando a gente enfrenta o racismo através dessa literatura, a gente traz uma voz, um outro olhar sobre o mundo”, afirma.
10 educadores com maior engajamento no Instagram
- Débora Aladim (@dedaaladim)
- Samuel Cunha (@samuelkcunha)
- Vitor Soares (@profvitorsoares)
- Paula Gabriela (@teacherpaulagabriela)
- Paulo Jubilut (@paulojubilut)
- Mairo Vergara (@mairovergara)
- Professor Noslen (@professornoslen)
- Ricardo Jaheem (@ricardojaheem)
- Professor Ferretto (@professorferretto)
- Gis com Giz Matemática (@giscomgizmatematica)
Engajamento não é sinônimo de aprendizagem
De acordo com a Influency.me, o ranking foi elaborado a partir de uma metodologia própria, que considera fatores como número de seguidores, engajamento por seguidor, engajamento por alcance, percentual médio de visualização e média de visualizações. A proposta é observar não apenas o tamanho dos perfis, mas também a resposta do público e o consumo dos conteúdos.
Nathalia Cremoneze, sócia e diretora de operações da empresa, afirma que o engajamento ajuda a compreender como as publicações se conectam com a audiência. “Professores que produzem para as redes sociais não apenas distribuem informação, mas criam espaços de troca, esclarecimento e aproximação com estudantes e outros públicos interessados em aprender”, afirma.
As métricas, porém, não medem diretamente o que o público aprendeu. As experiências de Soares, Ferretto e Jaheem mostram que o alcance digital pode servir a diferentes objetivos: despertar o interesse por um tema, oferecer acesso gratuito a aulas, aproximar crianças da leitura ou ampliar a presença de vozes historicamente pouco representadas.
Os professores também ressaltam que a internet não elimina a importância do aprofundamento, da prática e da responsabilidade com o conhecimento. Seja ao estudar matemática, compreender um acontecimento histórico ou encontrar referências na literatura, o conteúdo publicado nas redes pode ser um ponto de partida para novas descobertas — desde que o contato inicial se transforme em reflexão e aprendizado.
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá