Educação

"Eu fiz o parto"Cristovam Buarque conta como nasceu o PAS da UnB

Aos 82 anos, o ex-reitor e ex-governador relembra como a avaliação seriada, sugerida por Lauro Morhy nos anos 1980, ficou uma década na gaveta. O programa completa 30 anos com 53.189 aprovados

João Pedro de Lara Resende
postado em 11/10/2026 06:00 / atualizado em 11/10/2026 06:00
"Confesso que o meu primeiro deslumbramento não veio disso: facilitar a entrada. Veio disso: fazer os meninos estudarem ao longo dos três anos, não só no final, no cursinho." - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Em julho de 1985, a Universidade de Brasília (UnB) deu posse ao primeiro reitor escolhido pela própria comunidade após 21 anos de ditadura. O economista pernambucano Cristovam Buarque, então com 41 anos, assumia uma instituição marcada pelo regime. O câmpus havia sido invadido por tropas mais de uma vez e, em 1965, a universidade fundada por Darcy Ribeiro perdeu 223 dos 305 professores, que pediram demissão em protesto contra a expulsão de colegas.

Foi nessa universidade em reconstrução que surgiu a ideia do Programa de Avaliação Seriada (PAS), que completa 30 anos e já soma mais de 53 mil aprovados. O governador que a tirou do papel, uma década depois, e não como reitor, recusa a paternidade. “Essa ideia não foi minha. E eu considero uma ideia grandiosa”, afirmou Cristovam, em visita à redação do Correio. 

O reencontro 

Cristovam entrou na UnB em 1979, como professor do Departamento de Economia. A reitoria estava nas mãos do capitão de mar e guerra José Carlos Azevedo, mas a abertura política começava a se fazer sentir no câmpus. “Eu tive o privilégio de chegar quando as invasões tinham terminado, quando as demissões de professores tinham acabado”, lembra. 
Uma das primeiras medidas, como reitor, foi trazer de volta os professores afastados durante o regime. Ele corrige quem considera a iniciativa apenas simbólica. “Simbolicamente, eu fiz o ato. Mas, na prática, o presidente Sarney e o ministro aceitaram formalizar a volta e incluí-los na folha de pagamento. Trouxemos todos de volta, quase 200 professores que haviam sido demitidos no início da ditadura e, mais adiante, em outros momentos de expurgo.”  
Leia também:
Boa parte deles havia sido escolhida por Darcy, e muitos se aposentaram pouco depois do retorno. Para Cristovam, a reparação pessoal pesou menos do que o significado para a instituição. “Foi o reencontro da universidade consigo mesma, com a sua origem.” 
A UnB que ele pretendia reerguer não seria organizada apenas por departamentos. Na mesma gestão, criou o Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM), com núcleos que reuniam pesquisadores de diferentes áreas em torno de problemas da realidade brasileira. “Ninguém pode pensar a fome como nutricionista”, exemplifica. “A fome é um tema que exige economistas, agrônomos, psicólogos, cientistas políticos.”  A ideia ficaria no papel por quase uma década. Não seria a única.

A gaveta

O professor Lauro Morhy cuidava do vestibular da UnB quando apresentou ao reitor uma proposta: em vez de uma prova única ao fim do ensino médio, uma avaliação ao término de cada série, com a nota acumulada definindo quem entra. É o modelo seguido pelo PAS até hoje. 
Cristovam diz que o encanto não veio da promessa de ampliar o acesso. “Confesso que o meu primeiro deslumbramento não veio disso: facilitar a entrada. Veio disso: fazer os meninos estudarem ao longo dos três anos, não só no final, no cursinho.” 
A universidade, segundo ele, não tinha como arcar sozinha com os custos. O reitor levou a proposta ao governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira, nomeado por Sarney em uma época em que a capital ainda não elegia seus governantes. “E o José Aparecido não se interessou”, relata. Cristovam afirma que o Ministério da Educação (MEC) também “sempre teve resistência” à avaliação seriada. O mandato na reitoria terminou em 1989, e a proposta foi para a gaveta. 
Nos cinco anos seguintes, Cristovam permaneceu como professor da UnB e ingressou no PT, partido pelo qual se elegeu governador do DF em 1994. 

Quatro reitores 

Em janeiro de 1995, Cristovam assumiu o Palácio do Buriti, e as duas ideias voltaram com ele. A primeira tinha ganhado nome na campanha. “Ninguém ia votar numa proposta chamada Renda Mínima Vinculada à Educação”, diz. Virou Bolsa-Escola, implantado no primeiro ano de governo e base do programa federal de mesmo nome, criado em 2001, e, mais tarde, do Bolsa Família. 
Para a segunda, decidiu iniciar o mandato com uma visita à UnB. Professor da casa tratava o reitor como chefe. “Meu primeiro gesto vai ser visitar o meu patrão, que é o reitor”, recorda. Na conversa com João Cláudio Todorov, reitor entre 1993 e 1997, Todorov propôs retomar a sugestão de Morhy, que, na época, se chamava “vestibular seriado”. “O Todorov aceitou na hora. Se não fosse a ideia do Lauro Morhy, se não fosse o Todorov, não teria acontecido.” 
O então secretário de Educação do DF, Antônio Ibañez, reitor entre 1989 e 1993, também aderiu. Cristovam gosta de lembrar a coincidência: quatro reitores estiveram envolvidos na trajetória da avaliação seriada. Dois já haviam deixado o cargo, um estava em exercício e o quarto, Morhy, comandaria a UnB entre 1997 e 200.
Na divisão de papéis que ele descreve, a ideia foi de Morhy, a decisão, de Todorov, e a articulação política, dele próprio. É a mesma versão que ele registrou em artigo publicado no Correio em 2020. Morhy morreu em 2016. 
No caminho, o vestibular seriado virou Programa de Avaliação Seriada. Cristovam não sabe quem fez a troca, mas aprova: para ele, a palavra “vestibular” pesa sobre o estudante. O novo nome acompanhava uma nova lógica. Em vez de concentrar o futuro do aluno em uma única maratona de provas, o PAS distribui a avaliação ao longo das três séries e transforma todo o ensino médio em preparação. A primeira prova foi aplicada em 1996. 

O parto 

Entrevista com Cristovam Buarque
Entrevista com Cristovam Buarque (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Em 1999, os primeiros 991 aprovados pelo PAS ingressaram na UnB. Cristovam tinha deixado o Buriti pouco antes, após perder a reeleição para Joaquim Roriz. Daquele momento, guarda pouca lembrança. “Devo ter sentido uma grande emoção, mas confesso que não me lembro”, admite. Não tem dúvida, porém, do lugar que o programa ocupa na própria trajetória. “Eu senti como um filho meu, embora a ideia fosse de outro. A ideia era do Lauro. Eu fiz o parto.” 
Um sinal de que o programa cumpria o que prometia veio do banco do passageiro. Fora do governo, Cristovam costumava dar carona no seu Fusca. Um dos passageiros, um adolescente, era filho da ex-deputada Maria Laura, amiga do ex-governador. Quis saber o que o rapaz achava do PAS. “Ele disse: ‘É, mas a gente tem que ralar muito’. Foi para isso que o PAS foi criado: para você ralar os três anos. 

Modelo não virou lei 

Outras instituições, como a Universidade de Pernambuco (UPE) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), criaram processos seriados próprios. Mas o modelo nunca se tornou política nacional, não por falta de empenho de Cristovam. Em 2003, ele chegou ao MEC como ministro no primeiro governo Lula e deixou o cargo cerca de um ano depois, quando foi demitido pelo presidente. “Como ministro, eu tentei, mas não consegui. Depois, como senador, apresentei um projeto de lei, que também não foi aprovado.” 
A objeção, segundo ele, sempre foi o custo de aplicar três provas em vez de uma. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi criado em 1998 para medir o desempenho dos concluintes do ensino médio e, a partir de 2009, tornou-se a principal forma de acesso às universidades federais, com uma única prova. Cristovam discorda da conta. “Eu creio que valeria a pena. Não vai custar tanto assim. 
Para o ex-ministro, a resistência é sintoma de um problema maior: a falta de prioridade dada à educação básica. “Nós mantemos a velha ideia de que a educação é uma questão de política social, e não de infraestrutura”, afirma. Também critica as universidades, que, segundo ele, “ainda viram as costas para a educação de base”. É nesse ponto que ele vê o valor do PAS. 
Mesmo sendo uma porta de entrada para o ensino superior, o programa faz a universidade olhar para os três anos que vêm antes dela. 
Do ministério, ele guarda um número. Dos cerca de 500 parlamentares que recebeu no gabinete, relata, apenas um pediu algo para a educação básica. Os demais traziam pedidos para o ensino superior ou para escolas técnicas federais. “O MEC é, na verdade, o Ministério do Ensino Superior.” 
Sobre ajustes no programa, não arrisca. “Eu nem conheço os detalhes de como o PAS é aplicado a ponto de dar sugestões. Só penso que ele deveria ser adotado em todo o Brasil.” Candidato a deputado federal pelo PSB nas eleições deste ano, Cristovam diz que essa bandeira pesou na volta à disputa. “Essa é uma das razões que me atraíram de volta à vida política.” 

O gargalo 

Trinta anos após a primeira prova, o PAS soma 53.189 aprovados e, desde 2017, responde por metade das vagas de graduação da UnB. Cristovam não previa tanto. “Confesso que não imaginava 53 mil. Na minha cabeça, seriam uns 30 mil”, diz. “Mas espero viver para ver chegar aos 100 mil.” 
Um dos primeiros aprovados, Daniel, personagem da série do Correio sobre os 30 anos do programa, resumiu o limite do modelo: “Se tivesse nascido em outro CEP, provavelmente não estaria dando essa entrevista”. Cristovam concorda. “Claro, essa é a grande verdade.” E dimensiona o funil. “No ano passado, nasceram 2 milhões e meio de brasileiros e brasileiras. Desses, eu calculo que, no máximo, 400 mil vão chegar aos 18 anos com uma boa educação de base, capazes de disputar uma vaga nas melhores universidades, nos melhores cursos.” 
A UnB foi a primeira universidade federal a adotar cotas raciais, no vestibular de 2004. No PAS, a reserva de vagas foi adotada 10 anos depois. Quando Cristovam era reitor, segundo ele, a pauta nem chegou à reitoria. Hoje, defende as cotas como forma de corrigir uma disputa desigual. “Se a bola é redonda para todos, a gente escolhe os melhores. Agora, se o rico jogasse com bola redonda e o pobre com bola quadrada, aí eu defenderia cota.” A meta, para ele, é outra. “A verdadeira pauta é que 100% terminem um bom ensino médio, com a máxima qualidade. Essa é a cota de que o Brasil precisa. 

Um dia sem o PAS 

Ao estudante de escola pública que vai prestar o PAS neste ano, o conselho é ir além da sala de aula. “Estude ao máximo. Não fique só no que o professor manda você estudar. Converse com alunos mais velhos que passaram no PAS e veja o que eles fizeram. Visite a UnB para ficar com mais vontade.” 
Cristovam diz que segue na luta para que, um dia, o programa que ajudou a nascer se torne desnecessário. “Que o PAS vire nacional e as escolas sejam boas e iguais, até o dia em que não se precise nem do PAS. Basta a nota da escola.” 
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação