Documentos internos do Ministério da Educação (MEC) apontam alterações nos parâmetros de correção da redação do Enem 2025. As mudanças teriam impactado a nota de candidatos, que relataram perdas significativas na pontuação em comparação com anos anteriores. A informação foi publicada com exclusividade pelo portal g1.
Entre os casos relatados está o do estudante de medicina e professor Vinícius Oliveira. Acostumado a alcançar mais de 900 pontos na redação entre 2022 e 2024, em uma escala que vai até mil, ele se surpreendeu ao receber 760 pontos na edição de 2025. "Na hora achei que fosse erro no sistema. Não fazia sentido depois de tantos anos mantendo a mesma média", contou.
De acordo com a apuração do portal de notícias, uma das alterações identificadas diz respeito ao uso de elementos coesivos, como expressões que conectam ideias, entre elas "além disso" e "dessa forma". Em 2024, havia uma exigência mínima de ocorrência dessas expressões no texto. Já em 2025, a contagem numérica deixou de ser aplicada, e os corretores passaram a classificar o uso como "regular", "constante" ou "expressivo".
Na prática, candidatos que antes cumpririam o critério objetivo passaram a depender de uma avaliação mais subjetiva. Em um dos exemplos citados, a classificação como uso "constante" resultou na perda de 40 pontos. Pelas regras do ano anterior, o mesmo texto seria penalizado.
Outra mudança apontada envolve o uso de repertório sociocultural, como citações de livros ou filmes. Tradicionalmente, esse aspecto era avaliado dentro de apenas uma das cinco competências da redação. No entanto, conforme documentos obtidos pelo g1, uma orientação enviada por e-mail a professores após a aplicação da prova indicou que citações consideradas decoradas ou fora de contexto poderiam impactar duas competências, ampliando a perda de pontos.
Uma professora que participou da correção afirmou, sob anonimato, que ajustes são comuns a cada edição, mas que neste ano o efeito foi mais intenso. Segundo ela, houve situações em que um critério passou a influenciar outro, o que não era prática consolidada.
As mudanças teriam ocorrido justamente no ano em que o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a aceitar, pela primeira vez, notas das três últimas edições do Enem. Assim, candidatos que fizeram apenas a prova de 2025 disputaram vagas com estudantes que realizaram o exame em 2023 e 2024, quando os parâmetros de correção eram diferentes.
Para Vinícius, a situação gerou desigualdade. “Muitos alunos se prepararam o ano inteiro e tinham condições de aprovação, mas podem ter sido prejudicados por alterações que não foram comunicadas previamente”, afirmou.
Em nota ao g1, o Inep declarou que não houve mudança nos critérios oficiais de correção, que seguem os mesmos parâmetros todos os anos. O órgão afirmou ainda que, após a divulgação do tema da redação, orienta a aplicação dos critérios de acordo com as especificidades do texto proposto. Segundo o instituto, cada redação é avaliada de forma independente por pelo menos dois corretores, o que garantiria imparcialidade e padronização.
