OPORTUNIDADE

O caminho de dois jovens da escola pública até Stanford e a USP

Gabriel Martini e Giselle Corujas estão entre os 46 jovens selecionados pelo Líderes Estudar 2026, após trajetórias marcadas por desafios, educação e oportunidades que mudaram o rumo de suas vidas

Amanda S. Feitoza
postado em 26/08/2026 16:46
Giselle Corujas em Stanford -  (crédito: Cedido ao Correio)
Giselle Corujas em Stanford - (crédito: Cedido ao Correio)

Antes de sonharem com Stanford, com a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco ou com uma carreira capaz de transformar o país, Giselle Corujas e Gabriel Martini precisaram descobrir que esses lugares também poderiam pertencer a eles. Os dois cresceram em famílias humildes e são os primeiros a cursar o ensino superior e, a vida toda, estudaram em escolas públicas.

Em momentos diferentes da vida, encontraram no Ismart — instituto que identifica jovens de baixa renda e alto desempenho acadêmico e oferece apoio educacional — uma porta para oportunidades que, até então, pareciam distantes. Anos depois, chegaram ao mesmo destino: estão entre os 46 aprovados na turma de 2026 do Líderes Estudar, da Fundação Estudar.

O processo seletivo é disputado por milhares de candidatos e aprovou apenas 0,3% dos inscritos. Mais do que boas notas, a seleção considera trajetória, conquistas e potencial de liderança. Para Gabriel e Giselle, porém, a história começou muito antes da candidatura.

Da falta de aulas ao sonho de Stanford

Nascida e criada no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, Giselle Corujas cresceu vendo a mãe, feirante, trabalhar para sustentar a família. A mãe havia estudado somente até a 8ª série do ensino fundamental, mas fez questão de incentivar as filhas a estudar.

Na escola pública, Giselle enfrentava uma realidade que ia além da falta de recursos. Quando professores faltavam ou eram afastados, a substituição podia demorar e deixava períodos inteiros sem aulas. Ao mesmo tempo, encontrou professores que fizeram diferença em sua trajetória. Foi a professora de matemática Andreia Tulon, quando Giselle estava na 8ª série, quem a incentivou a participar do processo seletivo do Ismart e a preparou com exercícios.

A aprovação abriu uma nova etapa: uma bolsa integral para estudar na Móbile, escola particular de São Paulo. O ambiente, porém, também trouxe um choque de realidade. Na época, havia apenas dois bolsistas por ano no ensino médio. "É impossível não sentir um certo estranhamento ao estar num lugar tão diferente do que eu estava acostumada, cercada de pessoas com um poder aquisitivo muito maior do que qualquer um que eu tinha conhecido até então", conta.

O sentimento de não pertencimento precisou ser enfrentado aos poucos. Giselle teve apoio da escola, da família e de professores, mas também precisou construir internamente a certeza de que aquela oportunidade era dela. "Isso veio junto com a apropriação de contar minha própria história com orgulho", afirma.

A experiência também a levou a questionar os estereótipos sobre a periferia. No segundo ano do ensino médio, produziu o minidocumentário O outro lado do estereótipo, no qual entrevistou artistas do Capão Redondo e de regiões próximas para mostrar uma periferia marcada não apenas pela escassez, mas também pela criatividade e pela produção cultural.

A mudança de escola ainda trouxe outro desafio: o inglês. Giselle havia tido contato limitado com o idioma na rede pública e precisou praticamente começar do zero. Passou a estudar fora do horário escolar, teve aulas exclusivamente em inglês e enfrentava cerca de quatro horas de transporte público todos os dias.

Mesmo com o esforço, ficou de recuperação na disciplina no primeiro e no segundo ano do ensino médio. A dificuldade, porém, não encerrou o caminho. Anos depois, já formada em Direito pela PUC-SP e atuando como advogada, Giselle chegou a trabalhar em casos em inglês. Agora, aos 26 anos, prepara-se para deixar o Brasil e iniciar um LL.M. em International Economic Law, Business and Policy na Stanford University. Nome difícil? Giselle irá fazer uma pós-graduação voltada para o estudo avançado das regras, princípios e instituições que regem a economia global, com conclusão prevista para junho de 2027.

Ela foi aceita em oito universidades norte-americanas e escolheu aquela que sempre esteve no topo de sua lista. "Não acho que eu precisasse saber, desde sempre, o que pretendia fazer em todos os passos da minha vida. Eu ainda não sei. Mas definitivamente preciso sonhar com o próximo passo, e, mais do que isso, me permitir sonhar com algo grande", diz.

Giselle Corujas em Stanford
Giselle Corujas em Stanford (foto: Cedido ao Correio)

De uma escola pública à USP

A história de Gabriel Martini começou de outra maneira, mas guarda uma semelhança importante: ele também precisou transformar talento em oportunidade. Aos 19 anos, Gabriel está no segundo ano de Direito na USP, na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Filho de pais que concluíram apenas o ensino médio, ele é a primeira pessoa da família a chegar à graduação.

Desde pequeno, estudou em escolas públicas. Era curioso, participativo e gostava de aprender, mas não tinha referências familiares que pudessem mostrar os caminhos para uma formação acadêmica de excelência. "Eu nunca tive tanto estímulo ao estudo, justamente porque meus pais não têm uma escolaridade tão alta. Eles nunca me estimularam tanto porque não foi algo que fez parte da realidade deles", conta.

A mudança começou no 7º ano, quando Gabriel foi indicado pela coordenadora da escola para participar do processo seletivo do Ismart após se destacar na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Ele lembra que sentiu medo, mas decidiu não deixar a oportunidade passar. "Sabia que era uma oportunidade que eu não poderia deixar passar e que, se eu deixasse passar, nunca mais apareceria algo tão grande, tão transformador quanto o Ismart na minha vida", afirma.

Durante os primeiros anos, participou do programa na modalidade online. O objetivo era reforçar conhecimentos e superar lacunas da formação escolar, especialmente em português e matemática. A experiência foi ainda mais importante durante a pandemia. Enquanto as aulas regulares foram afetadas, Gabriel manteve uma rotina intensa de estudos com o apoio do programa.

Em 2022, passou para a etapa presencial em uma escola parceira. A mudança significou também uma rotina completamente diferente. A escola ficava a cerca de uma hora e meia de sua casa. Gabriel, que morava na Zona Leste, precisava atravessar a cidade até a instituição, na Zona Sul, e acordava às 4h50 para pegar transporte público.

O esforço se estendeu ao longo do ensino médio. Ele estudava desde cedo, permanecia na escola até o fim da tarde e manteve uma rotina de preparação antes mesmo do terceiro ano, quando muitos estudantes intensificam os estudos para o vestibular.

A estratégia deu resultado. Gabriel foi aprovado em diferentes instituições e cursos, incluindo Direito na USP, Engenharia da Computação no Insper e Matemática no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Também obteve desempenho de destaque no Enem e gabaritou as 45 questões de matemática da prova.

A escolha pelo Direito acabou sendo também uma escolha de futuro. "Quando eu tive a oportunidade de escolher para onde eu ia, eu tive que fazer uma escolha não apenas de faculdade, mas também de rumo de carreira", explica.

Hoje, Gabriel tem um objetivo ambicioso: chegar ao Supremo Tribunal Federal. O interesse pelo Direito veio acompanhado, ao longo dos anos, de uma aproximação com política, tecnologia e matemática. Ele quer construir uma carreira no Judiciário e usar a inteligência artificial como uma das ferramentas para isso. "Eu quero estar no Direito não somente porque é uma área que eu acho interessante. Mas porque eu quero estar no Direito porque eu quero ajudar as pessoas da melhor forma possível, ajudá-las a alcançar seus direitos", afirma.

Gabriel Martini
Gabriel Martini (foto: Cedido ao Correio )

Quando a oportunidade muda o tamanho do sonho

As trajetórias de Gabriel e Giselle são diferentes. Um ainda está no início da graduação; a outra já construiu uma carreira jurídica e agora se prepara para estudar nos Estados Unidos. Um quer chegar ao STF; a outra pretende se especializar em arbitragem internacional.

Mas existe um ponto de encontro entre as duas histórias: a educação não apenas ajudou os dois a alcançar objetivos que já tinham. Ela ampliou aquilo que eles eram capazes de imaginar. Para Giselle, o Ismart foi o primeiro lugar que mostrou que existiam caminhos que ela desconhecia. "Na minha época, ninguém falava em vestibular na escola pública em que eu estudava. Eu sabia que as pessoas iam para a universidade, mas não fazia a menor ideia de qual era o caminho até lá", lembra.

Foi a partir dali que ela conheceu universidades, bolsas e profissões que não faziam parte de seu cotidiano. Em um evento do programa, aos 16 anos, conheceu o advogado e professor da USP Wagner Menezes. Foi a primeira vez que teve contato próximo com alguém que exercia a profissão que, anos depois, ela própria escolheria.

Gabriel também descreve uma mudança semelhante. Antes do programa, sabia que gostava de estudar, mas ainda não compreendia até onde esse interesse poderia levá-lo. "Eu não sabia do potencial da educação. Eu me esforçava, era uma criança academicamente bem desenvolvida, mas ainda assim eu não sabia tudo que a educação poderia me garantir, tudo que eu poderia alcançar com ela", afirma.

Agora, os dois chegam ao Líderes Estudar carregando não apenas seus currículos, mas as histórias que os trouxeram até ali. O programa selecionou 46 jovens entre milhares de candidatos, mas, para Gabriel e Giselle, a aprovação representa mais uma etapa de uma caminhada que começou muito antes.

Giselle, que está prestes a embarcar para uma nova fase nos Estados Unidos, resume sua trajetória como uma sucessão de sonhos que foram se transformando conforme novas portas apareciam.

Aos 14 anos, queria apenas estudar mais. Aos 18, entrar em uma grande faculdade de Direito. Aos 22, ser efetivada em um escritório de excelência. Aos 24, ser aprovada em um mestrado nos Estados Unidos. Aos 26, com Stanford pela frente, já tem outro objetivo: passar no Exame da Ordem de Nova York. "Os sonhos vão mudando à medida que encontramos novas portas pelo caminho. E talvez essa seja a parte mais bonita: eu não preciso conhecer o destino final para continuar caminhando. Preciso sonhar com a próxima parada e estar preparada para aproveitar, ao máximo, cada oportunidade que encontrar."

Gabriel também olha para trás e identifica na educação o principal fio condutor de sua história. Para ele, o conselho que daria ao menino que ainda não conhecia todas as possibilidades seria simples. "Não desista e foque na educação. A educação vai ser a ferramenta que vai mudar a sua vida", conclui. 

Entre a escola pública, as longas viagens de transporte, as dificuldades acadêmicas, a falta de referências e os ambientes em que precisaram aprender a reconhecer o próprio lugar, os dois construíram caminhos diferentes até chegarem a uma mesma conclusão: muitas vezes, o primeiro passo para mudar uma trajetória é descobrir que existe uma porta aberta.

  • Giselle Corujas em Stanford
    Giselle Corujas em Stanford Foto: Cedido ao Correio
  • Giselle Corujas em Stanford
    Giselle Corujas em Stanford Foto: Cedido ao Correio
  • Gabriel Martini
    Gabriel Martini Foto: Cedido ao Correio
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