Ensino

Rede pública do DF conta com 10.599 professores temporários

Saiba como é a situação de trabalho dos 10.599 profissionais com contrato provisório na rede pública de ensino do Distrito Federal

Victor Rogério*
postado em 01/03/2026 06:00 / atualizado em 01/03/2026 06:00
 Nas escolas públicas, há uma grande rotatividade dos docentes regidos pelo contrato temporário  -  (crédito:  Divulgação CEF 05 Gama)
Nas escolas públicas, há uma grande rotatividade dos docentes regidos pelo contrato temporário - (crédito: Divulgação CEF 05 Gama)

A rede pública de ensino do Distrito Federal tem 10.599 professores temporários, o que representa 41.4% do número total de docentes. No total, são 25.514 profissionais efetivos. Para especialistas, o alto número de temporários pode prejudicar o plano pedagógico dos estudantes. Mas como são as condições de trabalho das duas categorias? Plano de carreira e aumento salarial são as principais diferenças. 

Contrato 

O contrato temporário é uma modalidade de trabalho para substituir professores efetivos com problemas de saúde, afastados ou em casos de licença-maternidade. Por isso, há uma grande rotatividade desses profissionais, que não costumam passar longos períodos nas instituições de ensino. A cada dois anos, professores contratados de forma temporária precisam fazer provas para continuar exercendo a função. 
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O último processo seletivo para professor temporário no DF teve o edital publicado em agosto de 2025, com provas realizadas em 19 de outubro, e contou com 51.645 inscrições. O resultado dos aprovados ainda não foi divulgado. 

Temporário X efetivo 

A principal diferença entre as duas modalidades é que o professor efetivo pode receber um salário maior conforme se especializa e acumula tempo de carreira. 
Um professor efetivo começa recebendo R$ 6.749,10. Mas o valor pode aumentar progressivamente à medida que obtém titulações como especialização, mestrado ou doutorado.  
Além das titulações, o tempo de contribuição do servidor efetivo também influencia no saldo final da remuneração. Na prática, quanto mais anos de carreira, mais alto será seu salário. O tempo é dividido em: início (5 anos), meio (15 anos) e fim (25 anos).  
Por outro lado, o professor temporário recebe sempre o equivalente a um professor efetivo em início de carreira, em média, R$ 6,7 mil. Diferente do efetivo, o temporário não tem direito a aumento por tempo de serviço ou por qualificação acadêmica. O salário, portanto, permanece o mesmo até o fim do contrato. 

Direitos 

Tanto concursados como temporários recebem auxílio-alimentação, auxílio-transporte, auxílio-creche, auxílio-natalidade e o direito a gratificações, segundo a Secretaria de Educação. 
Mesmo com direitos iguais nos pontos mencionados, as categorias têm outras diferenças pontuais. Ao contrário do efetivo, o temporário não possui abono, e apenas 15 dias de atestado médico a cada 60 dias. A licença- maternidade para professoras temporárias, antes de quatro meses, agora, passou a ser de seis meses, igualando o prazo para professoras efetivas, de acordo com a diretora do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) Ana Cláudia Gomes. 
Durante as férias de fim de ano, que começam em dezembro, o professor temporário é desligado e só é readmitido em fevereiro, no início do próximo período letivo. Entre esses meses, ele não recebe salário integral. Ganha apenas 13º, um terço das férias e uma indenização calculada com base na carga horária trabalhada durante o ano. Segundo o Sinpro-DF, esse espaço de tempo que o profissional permanece sem vínculo empregatício não é computado para a aposentadoria. “Se acontecer algum acidente durante esse período, o professor estará totalmente desamparado”, observa Ana Cláudia. 

Precariedade 

Ana Bonina, do Sinpro-DF, diz que a rotatividade  é grande
Ana Bonina, do Sinpro-DF, diz que a rotatividade é grande (foto: Arquivo Pessoal)

Segundo Ana, a incerteza da permanência do professor temporário prioriza a consolidação de projetos pedagógicos a longo prazo, acompanhar trajetórias individuais com estudantes e fortalecer o vínculo entre professor, alunos e famílias.” A rotatividade do professor de contrato temporário é muito grande. Ele pode passar um, três ou seis meses trabalhando em escolas diferentes. Isso atrapalha a qualidade da educação pública, porque não gera vínculo permanente com a escola para dar continuidade no planejamento pedagógico. Essa rotatividade atrapalha a continuidade do trabalho que ele precisa desenvolver”, critica a diretora 
Para o cientista político Rodrigo Dias, a categoria sofre precarização. “Precisamos com urgência de mais concursos públicos para professor efetivo. Professores temporários deviam ser a exceção à regra. Eles recebem salários baixos em relação a quase todas as carreiras de nível superior e ainda ficam três meses sem receber”, pontua. 

Alternativa econômica 

O contrato temporário é visto como uma alternativa econômica para o governo, já que a categoria não acumula aumento salarial e tem licenças mais curtas que os efetivos. 
“Concursos e nomeações nem sempre acompanham, no mesmo ritmo, o crescimento e a complexificação da rede de ensino, o que leva ao uso mais intenso de contratos temporários para garantir que as aulas aconteçam. Mudanças demográficas, expansão de matrículas em determinadas etapas e a dificuldade nacional de atrair e reter docentes em algumas áreas acabam pressionando ainda mais esse tipo de contratação”, explica Renato Brito, doutor em Educação da Universidade Católica de Brasília (UCB). 
O pesquisador observa que escolas com menor número de temporários costumam obter resultados mais satisfatórios e defendeu a expansão de mais concursos públicos para professores efetivos 
“Estudos sobre redes estaduais indicam que contextos em que os temporários são minoria tendem a apresentar melhores condições para planejar e acompanhar políticas continuadas; em muitas redes de referência, a presença de temporários se concentra em situações pontuais de substituição. Por isso, a solução consiste em trabalhar com metas graduais: ampliar concursos e nomeações, fortalecer a carreira e, ao mesmo tempo, redesenhar o uso dos contratos temporários para funções de fato transitórias, evitando rupturas que prejudiquem o cotidiano das escolas e a aprendizagem dos estudantes”, argumenta. 

Opinião dos professores 

Ramon Portella, professor temporário de história
Ramon Portella, professor temporário de história (foto: Arquivo Pessoal)

Professores temporários no DF não têm plano de carreira e continuam ganhando o mesmo salário até o fim do contrato, independentemente do tempo de experiência. A cada dois anos, enfrentam a incerteza de passar no concurso para continuar lecionando. Ao Correio, os profissionais relataram instabilidade nas plataformas da Secretaria de Educação e denunciaram “tratamento desigual” contra temporários 
Ramon Portella, 23 anos, é professor temporário de história em uma escola do Gama. O docente observou que a divulgação das vagas pela Regional de Ensino em 2026 foi feita de forma “desorganizada”. “A Regional do Gama não publicou as vagas de forma antecipada. Nós soubemos das vagas disponíveis em cima da hora. Isso foi bem ruim, porque não tivemos como nos planejar e avaliar cada vaga”, afirma. 
O educador disse, também, que ouviu relatos de professores que afirmam ter sido tratados de forma “diferente” pelo fato de serem temporários. “Em algumas escolas, há um certo tratamento diferente com temporários por parte dos efetivos e da própria gestão, segundo professores” diz. 
Isabella Souza Cruz, 26, é professora de educação infantil no Plano Piloto. Em 2024, chegou a trabalhar em duas escolas diferentes em menos de 10 dias. Em entrevista, afirmou que enfrentou problemas no sistema da Regional de Ensino, o que fez com que recebesse um salário muito abaixo do piso. Por vezes, relatou ter recebido gratificações com valores errados. Assim como Ramon, ela também passou dificuldade no momento de escolher a vaga desejada no início deste ano. “Fui à Regional do Plano escolher a turma e só fui atendida às 23h, devido a uma falha no sistema Educa-DF. Quando, finalmente, chegou a minha vez, disseram que as vagas tinham acabado”, conta.Isabella ainda afirmou ter presenciado situações desagradáveis contra colegas temporários. Muitos amigos passam por isso. Vi efetivos jogando na cara: ‘passamos e você, não’”, diz. 

Remuneração

Confira a tabela com ossalários divididos emtempo de contribuição etitularidades:

Professor efetivo eminício de carreira (5 anos)

  • Especialização R$ 7.424,01
  • Mestrado R$ 8.098,92
  • Doutorado R$ 8.773,83

Professor efetivo nomeio da carreira (15 anos)

  • Especialização R$ 9.407,23
  • Mestrado R$ 10.262,43
  • Doutorado R$ 11.117,64

Professor efetivo emfinal de carreira (25 anos)

  • Especialização R$ 11.155,89
  • Mestrado R$ 12.170,06
  • Doutorado R$ 13.184,23
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 

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