DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Brasileira é a primeira maestra da Sinfônica WS) na Alemanha

Sofia Sellani*
postado em 08/03/2026 06:00 / atualizado em 08/03/2026 06:00
Andréa Huguenin Botelho assume a orquestra depois de 138 anos regida apenas por profissionais homens -  (crédito: Roberta Sant’An)
Andréa Huguenin Botelho assume a orquestra depois de 138 anos regida apenas por profissionais homens - (crédito: Roberta Sant’An)
 
“Sou uma rebelde porque decidi ser feliz”, o lema, de Andréa Huguenin Botelho, 52,  hoje maestra, pianista, compositora e pesquisadora, reflete diversas conquistas ao longo da vida. Porém, de acordo com ela, a “rebeldia da mulher” significa querer ser feliz e se realizar profissionalmente. 
Andréa é carioca e mora na Alemanha há mais de 20 anos. Recentemente, alcançou novo sonho: o cargo de regente titular da Westpfälzischen Sinfonieorchester, Orquestra Sinfônica do Palatinado Ocidental do país europeu. A nomeação da brasileira para a regência da VSO tem um peso enorme, “pois, em 130 anos, essa orquestra nunca teve uma mulher como maestra, explicou a própria Andréa em vídeo gravado nas redes sociais. Ela afirmou, também, que as mulheres precisam provar o dobro para ocupar os espaços. “Eu não cheguei aqui ontem, eu não sou sozinha, eu sou consequência de décadas de estudo, de trabalho, de muitas barreiras quebradas, porque  nenhuma mulher cresce nessa carreira só fazendo o tradicional.” A maestra enfatiza que a excelência não tem gênero. “Por isso, essa conquista na VSO não é só minha, ela é nossa” 
Porém, apesar de tamanha “rebeldia”, a maestra conta que os desafios por ser mulher no meio não são poucos. Andréa Botelho se questionou diversas vezes, pensando: “Meu Deus, o que que tem ali que eu não possa fazer igual um homem faz”, e diz que, quando se é mulher, independentemente da área, o mínimo que ela precisa é ser muito boa no que faz, e, mesmo assim, isso não é garantia de que ela conquiste esse espaço. 
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Por Andréa ser um nome comum para homens na Europa, a maestra conta que, em muitas situações, as pessoas esperavam um maestro, e quando chegavam e notavam que ela era mulher, precisava lidar com muitos olhares de decepções. Além de diversas vezes ser “reduzida” por ser mãe. “As pessoas têm essa ideia de que se você é mãe, não pode ‘deixar’ o filho, 18 anos. Eu nunca deixei Duda. Nós temos uma relação maravilhosa.” 
Mesmo com as críticas, Botelho reforça que as conquistas, além de serem consequências de muito trabalho, também são uma forma de desafiar a sociedade. E a maestra conclui, dizendo: “Sejam rebeldes e ousem ser felizes. Ousem encontrar lugares e quando a dificuldade bater, pensem nelas (mulheres que conseguiram alcançar um sonho) e continue tentando”. 
o) e continue tentando”. “A posição de uma maestra é de responsabilidade”, disse ao Correio. “Agora, é a fase mais complexa, da organização do repertório, definição das diretrizes de como o trabalho vai ser ajustado e marcar o horário dos ensaios, e organizar todo o grupo para que as pessoas estejam preparadas para sentar e realizar boa música.” Com o primeiro concerto marcado para junho, as raízes brasileiras não são deixadas. “Vou colocar os alemães para tocarem Pixinguinha”, brincou a maestra. “Não poderia deixar a música brasileira de lado.” 
Fundadora da Brasil Orquestra Belin, centrada em tocar música brasileira, e assistente de regência na Orquestra de Mulheres em Berlim, onde, ao lado da colega Mary Ellen Kitchens, reúne mulheres da Alemanha, Áustria e Suíça, com o objetivo de ler e apresentar obras inauditas. Ligado ao arquivo Mulheres e Música de Frankfurt, na qual Andréa Botelho faz parte da diretoria. 

Sonho de criança 

Anna Luisa Beserra criou sistema que transforma água suja em potável no sertão nordestino
Anna Luisa Beserra criou sistema que transforma água suja em potável no sertão nordestino (foto: SDW For Al)

Desde criança, a baiana Anna Luisa Beserra, 28 anos, sonhava em ser cientista. Tímida e introvertida, foi a curiosidade que despertou nela a vontade de ajudar as pessoas por meio da ciência. Em 2013, ao ler o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, uma indignação não saía da cabeça. “Me senti extremamente frustrada por pensar em como no século 21 muitas pessoas continuam sem acesso a recursos básicos como a água potável”, afirmou. 
Assim, com 15 anos, teve uma ideia: inscrever-se no  Prêmio Jovem Cientista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A proposta era desafiadora: apresentar um dispositivo “simples” que pudesse ser desenvolvido sem laboratórios ou grandes recursos financeiros, mas que tivesse impacto suficiente para chegar às comunidades necessitadas sem acesso à água de qualidade. 
Assim nasceu o AquaLuz. A tecnologia, que armazena até 10 litros de água, utiliza a luz solar para eliminar bactérias e vírus na água que podem causar contaminações. O uso é simples: basta colocar a água no equipamento e deixá-lo por quatro horas exposto à luz do Sol. Após esse período, a água já está própria para o consumo. Sem uso de energia elétrica, a manutenção consiste na limpeza com  água e sabão. 
Com essa tecnologia, Anna Luiza ganhou destaque mundial e recebeu, em  , o prêmio Jovens Campeões da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU). O projeto já beneficiou 2.250 famílias do sertão nordestino. “Foi um divisor  de águas na minha vida. Eu ainda era muito jovem quando criei o Aqualuz, aos 15 anos. Esse reconhecimento mostrou que uma invenção nascida no sertão brasileiro podia dialogar com o mundo. Mais do que o troféu, foi a validação de que saneamento, água e tecnologia social são agendas centrais para o futuro do planeta. Alí reforçou minha responsabilidade de representar o Brasil e o Sul Global com soluções concretas e mensuráveis de impacto”, disse. 
A ideia de usar radiação ultravioleta na tecnologia veio quando encontrou a metodologia Desinfecção Solar da Água (SODIS). “Achei espetacular o fato de conseguir usar a luz do Sol para matar os microrganismos que causam doenças na água”, lembrou. Aos 17 anos, já na Universidade Federal da Bahia, foi incentivada a participar da disciplina  gestão e empreendedorismo. Ao se sentir incapaz de criar uma tecnologia que seria viável para a população, ela descobriu outro  modo de ajudar: o empreendedorismo. 
Atualmente, Anna Luisa é CEO da Startup de Impacto Social SDW, e se dedica ao saneamento básico rural. O objetivo é melhorar o tratamento de água em comunidades e regiões semiáridas, sem acesso a tecnologias tradicionais e água potável. Além do Aqualuz, a Startup possui oito produtos no portfólio e impactou mais de 46 mil vidas. Fora do Brasil, os dispositivos também estão em Porto Rico e Equador. “Muitas famílias que reportavam doenças por conta do consumo inadequado de água ou falta de saneamento, após a instalação das nossas tecnologias, relataram melhoras”, disse. 
Entre os desafios de estar em um ambiente de trabalho onde a maioria são homens, Anna Luisa destaca que a resiliência é fundamental. A cientista realça que, muitas vezes, acaba vista como “apenas uma menina”, sendo questionada do potencial. “Você é tão nova. Como pode inventar uma solução que vai mudar a vida das pessoas?”, relembra. Apesar de muitas vezes ser a única mulher em uma premiação, não se abala. “Acredite em você, porque uma hora as coisas vão dar certo. Pode demorar, como foi o meu caso, mas aos poucos a gente vai construindo aquele sonho que mentalizou, até se tornar realidade.”
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá 

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