Ensino superior

Catadores de recicláveis comemoram formatura na Universidade Católica de Brasília

Alunos da primeira turma do curso tecnólogo em gestão de cooperativas comemoram colação de grau. Projeto é iniciativa da Católica e do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo

Victor Rogério*
postado em 15/03/2026 06:00 / atualizado em 15/03/2026 06:00
Universitários comemoram formatura durante cerimônia na UCB na última terça-feira -  (crédito: Belchior Moreira)
Universitários comemoram formatura durante cerimônia na UCB na última terça-feira - (crédito: Belchior Moreira)

Em clima de festa e confraternização, o ginásio da Universidade Católica de Brasília (UCB) foi palco da cerimônia de colação de grau de estudantes de diversos cursos que se formaram neste semestre. Era por volta das 19h quando o espaço foi inundado por universitários vestindo becas e capelas, trajes comuns em formaturas. Com abraços e palavras de carinho, o evento, realizado na última terça-feira (10/3), reuniu de crianças a idosos, todos prestigiando a trajetória daqueles que dão mais um passo na vida profissional.

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Entre os formandos, está a primeira turma do curso tecnólogo em gestão de cooperativas, formada por trabalhadores de reciclagem. Dos 25 matriculados, 22 estudantes se formaram, dando andamento às suas trajetórias pessoais e profissionais. Totalmente gratuita, a graduação é fruto da parceria entre o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop-DF) e a UCB. O objetivo da iniciativa é promover a profissionalização de trabalhadores vinculados a cooperativas de reciclagem no DF. 

Rafael Campolino, coordenador do curso gestão de cooperativas
Rafael Campolino, coordenador do curso gestão de cooperativas (foto: Arquivo Pessoal)

“O curso contribui para que os trabalhadores saiam de um contexto amador para outro contexto totalmente profissional em que a gestão vai ser levada a sério dentro dessas cooperativas”, afirma Rafael Campolino, coordenador do curso. 

Cooperativismo 

A cooperativa é uma sociedade de natureza civil, formada por, no mínimo, 20 pessoas, gerida de forma participativa, com objetivos econômicos e sociais comuns. A adesão é livre, e os associados têm total responsabilidade pela gestão e fiscalização da cooperativa. O cooperado é sócio da cooperativa e presta serviços em conjunto com outros cooperados. Não há relação de subordinação entre os funcionários. 

Profissionalização 

Registro da formatura da primeira turma do curso tecnológico em gestão de cooperativas
Registro da formatura da primeira turma do curso tecnológico em gestão de cooperativas (foto: Belchior Moreira)

Na avaliação de Campolino, as cooperativas de reciclagem ganharam uma importância maior após a desativação do antigo lixão da Estrutural, em 2018. Segundo o professor, o fechamento do aterro fez com que recicladores perdessem seus empregos, o que ampliou o olhar do Governo do Distrito Federal (GDF) para a construção de cooperativas. Para o docente, porém, houve falta de formação adequada para que esses profissionais pudessem encarar o novo tipo de negócio. “Tivemos um grande apoio do GDF no sentido de construir cooperativas de reciclagem. As pessoas tiveram que lidar com uma nova relação de trabalho: o cooperativismo. Nele, nós não trabalhamos como empregados, mas como donos. Então, os cooperados passaram a precisar entender sobre gestão”, explica. 
A graduação tem dois anos de duração, com 1.600 horas e segue as últimas atualizações do catálogo de cursos tecnólogos do Ministério da Educação (MEC). As disciplinas são divididas em básicas, como introdução à educação superior; e específicas, como direito cooperativista, evolução do pensamento cooperativista, estratégia de gestão de cooperativas, língua portuguesa e interpretação de texto. Uma segunda turma do curso acabou de ser fechada para este ano, com 35 estudantes matriculados. 
Reitor Manuel Furriela: a universidade amplia o acesso
Reitor Manuel Furriela: a universidade amplia o acesso (foto: Reprodução /Católica de Brasília)
“A reputação da Universidade Católica de Brasília tem atraído projetos realizados em parceria com diferentes entidades e instituições, como é o caso do Sescoop e outras organizações que mantêm iniciativas conjuntas com a instituição. Ao oferecer cursos presenciais, a distância, modulares e semipresenciais, a Universidade amplia e facilita o acesso ao ensino superior para estudantes de diversos perfis”, afirma Manuel Nabais da Furriela, reitor da UCB. 

Conquista 

O que antes parecia distante da realidade de muitos trabalhadores da reciclagem, agora se concretiza em forma de diploma. 
Cláudia Maria Alves de Morais, 57 anos, é natural do Piauí e é uma das formandas em gestão de cooperativas. Veio para Brasília em 1994, em busca de novas oportunidades e, desde então, trabalhou como catadora de latinhas e serviços gerais. Também comercializou revistas para ajudar no sustento dos três filhos. Atualmente, é presidente da cooperativa Recicle a Vida, filiada à Sescoop, em Ceilândia.  
Em entrevista, ela explicou que a ideia de participar de uma cooperativa surgiu por volta de 2005, por sugestão de seu então chefe, que se sensibilizou diante da quantidade de catadores e carroceiros nas ruas. Ela também criticou o preconceito contra a categoria. “Naquele tempo, o catador era muito excluído da sociedade. Era visto como uma pessoa marginalizada, que usava drogas. As pessoas deveriam enxergar a catação como uma profissão honrosa”, argumenta. 
Agora, formada, Cláudia pretende aplicar o aprendizado na prática e repassar seu conhecimento aos demais colegas. “É um momento de felicidade. Vamos levar todo nosso conhecimento aos outros, para que o movimento dos catadores cresça cada vez mais. Catação é um vício. A gente não larga nunca. Nunca”, finaliza. 

Ela voltou à escola após a maternidade e hoje usa o exemplo para as filhas 

Eliane Ribeiro conquistou o diploma em gestão de cooperativa
Eliane Ribeiro conquistou o diploma em gestão de cooperativa (foto: Carlos Vieira CB/DA Press)

Quando Eliane Ribeiro da Silva, 32 anos, engravidou da primeira filha aos 17 anos, os estudos ficaram pelo caminho. Nascida na Bahia e moradora de Brasília desde a adolescência, ela precisou priorizar o trabalho para sustentar a família. 
Durante anos, a rotina esteve ligada à cooperativa de reciclagem onde começou a trabalhar ainda jovem. O retorno à escola aconteceu apenas quando surgiu a oportunidade de participar de um estágio voltado a trabalhadores do setor, que exigia que os participantes estivessem matriculados na escola. “Se não fosse esse estágio, eu não teria terminado o ensino médio”, reconhece. 
A experiência despertou uma mudança profunda. Eliane voltou a estudar, concluiu a educação básica e passou a atuar na área administrativa e financeira da cooperativa. Mais tarde, foi indicada para trabalhar na central que reúne diversas cooperativas de reciclagem no Distrito Federal. 
Foi nesse contexto que surgiu a chance de ingressar na graduação em gestão de cooperativas, oferecida gratuitamente aos trabalhadores da reciclagem. A decisão, segundo ela, mudou sua forma de enxergar o próprio futuro. 
“O conhecimento me libertou e me tirou de várias situações, como violência, fome. A educação me devolveu a dignidade”, resume. 
Hoje, Eliane trabalha como técnica em projetos ligados ao cooperativismo e afirma que a formação também ampliou sua renda e suas perspectivas profissionais. 
Mas o impacto mais importante, diz, acontece dentro de casa. Mãe de duas meninas, ela vê no diploma um exemplo para as filhas. “Eu mostrei para elas que é possível trabalhar, estudar e conquistar uma graduação. Não importa a sua origem, você é capaz. 
No futuro, pretende continuar estudando e realizar um antigo sonho: concluir a graduação em história e se tornar professora. “Quero que as pessoas continuem se libertando por meio da educação e conhecendo a real história do nosso país”, conclui.

Reconhecido

Curso detecnológo éreconhecido peloMinistério daEducação comouma modalidadede graduação denível superiorcom foco práticono mercadode trabalho. Agraduação é decurta duração, dedois a três anos

*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 

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