Carreira

Inteligência artificial ameaça carreira de tradutor?

Diante das perspectivas de perda de trabalho e de desvalorização salarial com o uso da IA, o tradutor ainda encontra espaço para se reinventar e agregar ao texto um diferencial insubstituível: o talento humano

EuEstudante
postado em 22/03/2026 06:00 / atualizado em 22/03/2026 06:00
Professor Thiago Pires, com o aluno Igor de Oliveira, diz que os profissionais precisam ser também curadores linguísticos  -  (crédito:  Ed Alves/CB/DA Press)
Professor Thiago Pires, com o aluno Igor de Oliveira, diz que os profissionais precisam ser também curadores linguísticos - (crédito: Ed Alves/CB/DA Press)

Ana Paula Corradini - Especial para o Correio

Quarenta segundos. Foi isso que demorou para o ChatGPT traduzir esta matéria que você está lendo para o inglês. Embora o resultado não tenha o tempero de um texto traduzido sem o auxílio da Inteligência Artificial, o artigo está claro e proporciona uma leitura agradável — e ficou pronto infinitamente mais rápido que uma tradução humana (e totalmente de graça).

Com a quantidade de conteúdo produzida todos os dias, e com uma audiência cada vez mais global em mente, faz sentido pensar que a profissão de tradutor deixará de existir no futuro? 
Uma pesquisa conduzida no ano passado pela União Europeia das Associações de Empresas de Tradução (EUATC, na sigla em inglês) revelou que a tendência é “o uso indiscriminado de tecnologia de idiomas, principalmente, inteligência artificial e tradução por máquina, para reduzir custos e minimizar a tradução humana.” De acordo com outra pesquisa, conduzida pela Sociedade de Autores no Reino Unido, 36% dos tradutores disseram já perder trabalho para IA e quase metade (43%) sentiu o impacto no bolso também. 
Leia também:
Ainda não há estudos pontuais no Brasil, mas linguistas que estão no mercado há mais de 10 anos também  sentem o peso da IA na carga de trabalho. “Entre 2021 e 2023, perdi cerca de 90% do volume de tradução, revisão copywriting,” diz o linguista freelancer Lucas Dasaieve, que trabalha para agências responsáveis pela localização de conteúdode Big Techs, como o Google. 
“Os valores pagos pelos trabalhos também diminuíram, e isso decepcionou muitos profissionais da área. A promessa inicial era de que a IA faria o trabalho pesado, deixando os humanos apenas para refinar os textos e mantendo a remuneração”, continua Lucas. “Na prática, o humano continua fazendo grande parte do esforço para manter a aparência de que a IA funciona.Trabalhamos mais para corrigir os erros da máquina, mas recebendo muito menos. Atualmente, a pós-edição de IA paga cerca de 50% a 70% menos que a tradução tradicional.” 
Outros colegas de profissão também sentem o impacto da IA no volume de trabalho.”Já perdi clientes que decidiram trabalhar com IA de tradução para revisão,” conta uma linguista que também trabalha com localização de conteúdo para o Google, mas prefere não se identificar. “Muitos colegas estão temerosos, e alguns falam sobre o fim da profissão de maneira bastante apocalíptica. 
Mucciolo confirma que a tradução de máquina tem reduzido a demanda por profissionais
Mucciolo confirma que a tradução de máquina tem reduzido a demanda por profissionais (foto: Arquivo Pessoal)
O linguista André de Souza Mucciolo também conta que, quando uma empresa para a qual ele prestava serviço começou a aplicar modelo de IA às traduções, não reduziu o pagamento da equipe, mas a coisa logo mudou de figura. “No início foi ótimo, porque o modelo em si acelerou um pouco o trabalho. Após alguns meses, migraram para um modelo de tradução por IA muito superior ao primeiro, e fiquei sem receber trabalhos. Eles acabaram cortando parte da equipe porque, como a tradução de máquina tinha acelerado bastante o processo, só alguns dos profissionais já eram suficientes para dar conta do volume todo”, ele lembra. 
No ambiente acadêmico, o clima também é de ansiedade. “Com o boom da IA que veio depois da pandemia, é claro que os alunos estão preocupados em ingressar no mercado, mas esse ‘medo” também faz com que eles se mobilizem e percebam que a realidade do tradutor é muito diferente hoje. É preciso correr atrás e aprender como os processos de IA funcionam e como podemos utilizá-la de forma mais inteligente na profissão,” explica Thiago Blanch Pires, professor de Línguas Estrangeiras Aplicadas ao Multilinguismo e à Sociedade da Informação (LEA-MSI) na Universidade de Brasília. 

Eles têm “o molho” 

Em meio a essa perspectiva nada animadora, há pelo menos outro consenso geral mais positivo: a IA pode ser rápida e barata, mas ainda não consegue substituir o “molho” que a tradução humana confere ao texto. “O maior diferencial de uma tradução de IA para uma tradução humana está na interpretação, subtextos e bagagem cultural do tradutor. Saber adaptar o texto para o público-alvo é sempre essencial, algo que, até o momento, a máquina não é capaz de realizar,” afirma Igor de Oliveira Silva, aluno de licenciatura em francês da UnB. 
Para André, falta à máquina, ainda, uma “certa intuição”: “Falta reconhecer com precisão se um texto é regulatório, jurídico, financeiro, interface de usuário, marketing… Quando há cruzamento entre domínios ou áreas de conhecimento, a IA não sente quando o texto está estranho para aquele gênero”, comenta. “Eu sinto que essa intuição é uma das linhas entre máquina e ser humano. A IA é processual, estatística. O cérebro humano funciona numa gama de níveis que a IA ainda nem cogita alcançar, embora os resultados dela pareçam — e sejam — impressionantes.” 

Reinvenção em vez de extinção 

Esse tropeço da IA em termos de linguagem e contexto específicos revela um potencial de reinvenção para a profissão de tradutor e linguista. “Hoje, esses profissionais precisam se educar e se enxergar não apenas como tradutores, mas como curadores linguísticos,” afirma o professor Thiago. “É fundamental desenvolver a competência tradutória, algo que pode parecer bem básico em relação a essas mudanças, mas que ao mesmo tempo é o fator humano que nos diferenciam dos modelos de linguagem que fazem a tradução automática: a bagagem, o contexto cultural, o senso crítico e discutir as implicações que a tradução tem na vida social.” 
Desaieve: Usar o conhecimento linguístico para melhorar o desempenho e a segurança da IA
Desaieve: Usar o conhecimento linguístico para melhorar o desempenho e a segurança da IA (foto: Arquivo Pessoal)
O linguista Lucas Dasaieve concorda: “Apesar dos avanços, a IA ainda depende muito do tipo e da estruturados dados de treinamento fornecidos. O grande diferencial dos tradutores humanos está na adaptabilidade do cérebro para perceber nuances, ler o ambiente e acessar um repertório amplo de memórias e emoções. 
A importância da supervisão humana na IA ficará mais evidente conforme o uso da IA se normalizar e expandir para novas áreas. Acredito que os profissionais que perceberem isso agora terão boas oportunidades de se recolocar no mercado. Quem tiver flexibilidade poderá usar o conhecimento linguístico tradicional para melhorar o desempenho e a segurança dos sistemas de IA” 
Para o professor Thiago, essa “reinvenção” da profissão também envolve um conhecimento mais aprofundado da tecnologia do setor: “Não se trata de enfocar um a única ferramenta de tradução porque amanhã já tem outra nova. É preciso ter letramento digital e testar engenharia de prompts com pós-edição, pesquisar tradutores automáticos para debater a a questão de autoria. Infelizmente, quem está no mercado não tem esse tempo para estudo e reflexão, mas é importante continuar se aprofundando” 
A IA como aliada – hoje e no futuro 
Como os profissionais já sabem, no dia a dia, a IA também ajuda automatizando tarefas, como pesquisa terminológica ou naqueles momentos de bloqueio criativo. O uso da tecnologia como aliada se torna crucial para a sobrevivência da profissão — mas até que ponto? 
Para a linguista entrevistada pelo Correio, a IA é um colega com quem você troca ideias. “Ela ajuda a refletir, faz propostas, abre uma porta aqui e ali. Posso me concentrar no trabalho realmente intelectual e interessante enquanto ela faz o ‘chato’, como comparar documentos, por exemplo. Eu poderia dizer que ela é uma boa copilota, mas sou eu quem está dirigindo o carro, e as pessoas dentro dele continuam sendo minha responsabilidade, não dela.” 
Lucas também ressalta a importância de se dominar a IA para aumentar a produtividade e agilizar processos, mas sem se tornar dependente da tecnologia: “A IA não deve substituir o pensamento crítico. Ela gera permutações baseadas em algoritmos, mas cada versão provoca uma percepção emocional que só você, enquanto ser humano, será capaz de sentir. Ela acelera a exploração de alternativas, mas a decisão final continua sendo humana para escolher o que funciona melhor. O tradutor precisa continuar sendo o ‘I’ da IA,” afirma. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação