João Pedro Resende de Carvalho
postado em 10/05/2026 06:00 / atualizado em 10/05/2026 06:00
Maria Madalena, com as filhas Márcia e Andréia, abriu a empresa em 1995 - (crédito: Carlos Vieira CB/DA Press)
No domingo mais esperado de maio, filhos arrumam flores, mensagens e almoços especiais. Em quatro famílias do Distrito Federal, o hábito é outro: mãe e filho se encontram, como em qualquer dia, no trabalho. Não por falta de afeto. Mas porque o afeto entrou na empresa — e a empresa entrou no almoço de domingo, no grupo de WhatsApp, na conversa de corredor. Mais do que modelos de negócio, essas sociedades são formas de transmissão. É o jeito de tratar o cliente como se estivesse em casa, a disciplina de quem começou sozinha e não desistiu, a filosofia de que todo trabalho merece ser bem feito. Coisas que se aprendem convivendo — não estudando.
Para Ênio Pinto, gerente de Relacionamento com o Cliente do Sebrae, o segredo está na complementaridade. Ao contrário das amizades — que se formam por semelhança —, na família as pessoas costumam ser opostas: criados sob os mesmos valores, filhos desenvolvem aptidões distintas das dos pais. “O outro lado da laranja”, como ele define. O conselho prático: delimitar o escopo de cada um, registrar metas e avaliar resultados em conjunto. Um contrato de gaveta.
Leia também:
- Mãe e filha dividem clínica que nasceu sem investidor e já atendeu 15 mil pacientes
- Avós, filhas e netos dividem gestão de escola que acolhe crianças desde 1974
- Mãe e filhos transformam pet shop em rede de 11 lojas no DF
Mais da metade das micro e pequenas empresas brasileiras — 54% — têm familiares como sócios ou colaboradores, segundo a Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios do Sebrae (2024). Entre os negócios liderados por mulheres, o índice sobe para 59%. Nos setores de alimentação e beleza, lideram o ranking, com 69% e 62%, respectivamente. Esta reportagem ouviu quatro famílias do Distrito Federal — uma clínica de estética em Brasília, uma casa de biscoitos mineiros na Asa Norte, uma escola de educação infantil que atravessou três gerações e a maior rede de pet shops do DF. Cada uma chegou aonde está sem manual, sem planilha — o cartório veio depois.
Sabor de mãe
Fundada por Dona Maria Madalena Teixeira em 1995, a marca surgiu após a família vir de Minas Gerais para Brasília, em busca de tratamento médico para um dos filhos. O negócio começou com a matriarca e as filhas produzindo quitutes artesanais no próprio apartamento e vendendo sob encomenda.
Na 210 Norte, uma loja vende biscoito mineiro há 30 anos. A receita não nasceu ali. Veio de uma cozinha de fazenda em João Pinheiro, Minas Gerais — 335 quilômetros antes. Lá, uma criança observava as tias sovando. Aprendia o ponto da massa, o tempo do forno, o jeito de fazer quitutes. “Até o modo de fazer elas me ensinaram”, diz Dona Maria Madalena Teixeira, 78 anos. Vendia rosca e pão de queijo no supermercado da cidade. Já tinha clientela quando a vida mudou de rumo.
A família veio para Brasília em etapas. Primeiro chegou Márcia, nos anos 1990, para trabalhar como secretária parlamentar na Câmara dos Deputados. Depois, dona Maria e os filhos mais novos. O motivo não era o negócio: era a saúde do filho Rodrigo, que precisava de tratamento. O médico falou: “Dona Maria, vá com ele para Brasília”, lembra Márcia. A mãe veio. “Com a cara e a coragem”, resume a filha.
Mal arrumou a casa e já foi fazer biscoito. Márcia e o irmão Cláudio levavam as sacolas, de carro, até a porta do Anexo IV da Câmara. Ela subia com os pacotes no elevador, Vendia aos colegas de corredor. O negócio crescia dentro do Congresso, silenciosamente. “Meu Deus, eu estou em Brasília, vendendo meu biscoitinho”, repetia dona Maria, ao encher as formas no apartamento da Asa Norte. A demanda cresceu rápido. Alugaram um subsolo na 412 Norte, mas a produção não tinha alvará. Os vizinhos denunciaram. A família leu o sinal: era hora de abrir uma loja de verdade.
Em junho de 1996, a Casa de Biscoitos Mineiros abriu as portas na 210 Norte. No primeiro dia, a fila se formou sozinha — sem inauguração, sem propaganda. Andreia Regina, outra filha, chegou mais tarde, com dois filhos pequenos. Márcia ficou com o administrativo; Dona Maria, com a cozinha; Andreia, com o atendimento. A abertura da segunda loja, na Asa Sul, foi o momento mais tenso: a reforma terminou antes de o empréstimo do banco sair. Dona Maria entrou em pânico. “Você é doida, minha filha. A gente não tem dinheiro para pagar o povo.” O dinheiro chegou dois dias depois. Inauguraram. Novamente: “Foi com a cara e a coragem”, ri Márcia agora.
Hoje, são seis lojas e quatro cafés. Dona Maria entra na cozinha quase todos os dias. Fiscaliza pessoalmente o polvilho e o queijo — não delega. As receitas são dela, herdadas das tias do interior de Minas Gerais. “Aprendi com minha mãe. Tudo receita de família”, diz. Nenhuma foi escrita. Nenhuma será perdida. Agnaldo Júnior, o caçula, é responsável pela operação há 12 anos. Catarina, filha de Márcia, também é sócia, em Águas Claras. Os bisnetos gêmeos já participam da campanha dos 30 anos da marca, em junho.
“A mamãe ensinou a gente a tratar o funcionário como parceiro, e o cliente, como se estivesse em casa”, diz Andreia. Dona Maria, na cozinha, continua ensinando do mesmo jeito — sem saber que está ensinando. Pergunte às filhas o que aprenderam com ela. Márcia responderá antes da pergunta acabar. “A nossa faculdade foi a loja”
Estagiário sob a supervisão de Ana Sá*