Na era da IA

Entenda por que terceirizar o pensamento para a IA pode travar sua carreira

Para o escritor Charles Duhigg, mais de 40% do que fazemos no dia a dia é automático — e, no trabalho, quem terceiriza o pensamento para a máquina deixa de evoluir.

João Pedro Resende de Carvalho
postado em 07/06/2026 06:00 / atualizado em 07/06/2026 06:00
Charles Duhigg, autor de O Poder do Hábito: Oimportante é que nós escolhamos nossos hábitos, e não que nossos hábitos nos escolham  -  (crédito: Divulgação/Companhia das Letras)
Charles Duhigg, autor de O Poder do Hábito: Oimportante é que nós escolhamos nossos hábitos, e não que nossos hábitos nos escolham - (crédito: Divulgação/Companhia das Letras)

Mais de 40% do que fazemos no dia a dia não resulta de decisões conscientes: mas de hábito — respostas automática que o cérebro executa sem que percebamos. Na era da inteligência artificial, é esse piloto automático que pode travar uma carreira. Quem afirma é Charles Duhigg, jornalista americano vencedor do Prêmio Pulitzer e autor de O poder do hábito, livro que vendeu mais de um milhão de cópias só no Brasil. Na obra, Duhigg mostra que todo hábito segue um ciclo dividido em três partes: a deixa (o gatilho), a rotina (o comportamento) e a recompensa (o que se ganha com ele).

Trocar um hábito ruim por um bom exige manter a deixa e a recompensa e mudar apenas a rotina — e o primeiro passo é identificar cada uma dessas peças. A mudança serve tanto para o concurseiro, que adia a rotina de estudo todo dia e não é aprovado, quanto para o profissional que responde e-mail no automático e deixa escapar o detalhe que custa o cliente. O funcionário que ouve o colega pela metade, decide no impulso e repete o que sempre fez — sem perceber que parou de evoluir. 
Para o autor, que nesta semana veio ao Brasil, palestrar no maior evento educacional para gestores da América Latina, o Arco Day 2026, entender como agimos no automático é o primeiro passo de quem quer crescer profissionalmente — sobretudo agora, quando a IA avança sobre as tarefas técnicas que antes garantiam um emprego. O perigo não é o piloto automático em si, mas é quando não perceber que ele assumiu o controle das ações. “O piloto automático é bom, é útil, nos torna produtivos. O importante é que nós escolhamos nossos hábitos e não que nossos hábitos nos escolham”, disse ao Correio. Boa parte das pessoas atravessa a carreira sem fazer essa análise. 
O HÁBITO QUE TRAVA A CARREIRA 
Há um momento, porém, em que a rotina que sustentou uma carreira pode deixar de servir. “Nossos valores são o que somos. Nossos hábitos são expressões desses valores. Mas eles param de funcionar”, disse, diante de mais de dois mil gestores, na abertura do Arco Day 2026. O erro, para ele, é confundir os hábitos que construímos com os valores que os originaram. Ele lembrou a própria trajetória: por muito tempo, achava-se que um jornal era o objeto entregue na porta de casa. “Esse não é mais o jornal. O jornal é a atualização no seu telefone.” O valor de produzir informação de qualidade não mudou. O hábito de imprimir em papel, sim. O mesmo vale para qualquer profissão. Quando o mundo muda, os hábitos precisam mudar. Os valores, não. E poucas coisas mudaram o mundo do trabalho tão rápido quanto a IA. 
Perguntado sobre qual hábito é decisivo para se manter relevante na próxima década, Duhigg recorreu à história. “O que sempre tornou as pessoas bem-sucedidas foi pensar mais profundamente, quando pensar é difícil. Quando você sente pressão, ou que tudo está rápido demais, ter a capacidade de parar um segundo e dizer: deixa eu pensar com cuidado”, respondeu. 
A ameaça, na visão dele, não é a máquina substituir o trabalhador, mas o trabalhador entregar à máquina justamente aquilo que o faz pensar. “Escrever é o ato de nos forçar a pensar. E quando entregamos a escrita à IA, de repente paramos de pensar. A gente só diz ‘escreve um texto sobre X’, e volta um texto pronto — mas não estamos nos fazendo perguntas, não estamos melhorando.” A conclusão é uma defesa de uso consciente: “A IA pode fazer brainstorming comigo. Mas o que importa é eu não depender dela para pensar por mim.” 
O mesmo raciocínio vale para quem se prepara para o mercado de trabalho. Treinar só para a prova, como costuma ocorrer no Enem, pode criar um hábito que terá de ser desaprendido. “Em países onde os alunos são ensinados apenas para o teste, eles não desenvolvem pensamento crítico. Pode ser muito negativo”, afirmou. Para Duhigg, o objetivo é outro: ensinar a aprender. 
COMO LIDERAR SEM DAR A RESPOSTA 
Quem chefia equipes encontra em Duhigg um conselho prático — e ele o aplica primeiro em casa. Perguntado sobre o hábito mais difícil que mudou, falou dos filhos. “Quando eles vêm com um problema, meu instinto é dar conselho: ‘é isso que você deve fazer’. Mas essa não é a coisa certa. O certo é fazer mais perguntas.” A solução virou regra: pelo menos três perguntas antes de qualquer conselho. “Se eu chegar a cinco, melhor.” E há recompensa. “Quando consigo, minha esposa me elogia. Às vezes, permito-me um milkshake.” É o ciclo do hábito aplicado à própria vida — deixa, rotina, recompensa. 
O paralelo com a liderança é direto. “O funcionário chega e diz ‘não sei como começar’. E a gente quer mandar ‘senta e faz um roteiro’. Porém o que tentamos é ensiná-lo a resolver os próprios problemas, fazendo perguntas, deixando que erre. É aí que ele aprende.” Resolver o problema do outro é rápido. Ensiná-lo a resolver sozinho é o que forma gente competente. 
Essa habilidade de guiar o outro passa obrigatoriamente pela comunicação — na qual, sendo o segundo grande foco do autor, surge justamente como o ponto onde o trabalhador médio mais perde eficiência e conexão sem sequer perceber. Para Duhigg, existem três tipos de conversa: prática, emocional ou social. Muitas vezes, porém, as pessoas entram na mesma conversa com expectativas diferentes sem perceber.”Quando você está em uma conversa emocional e eu em uma conversa prática, somos dois navios que se cruzam no escuro” disse. O autor ctitou o exemplo de um cirurgião de Nova York que passou anos sem convencer pacientes com câncer de próstata a evitar uma cirurgia arriscada. Quando passou a fazer perguntas emocionais antes de qualquer conselho, 70% mudaram de decisão. O problema nunca foi a informação, mas o tipo de conversa. No trabalho, é o mesmo: o chefe que ouve a reclamação de um funcionário como problema prático, quando ela é emocional, não é ouvido de volta. 
A CONVERSA QUE FALTA NO ESCRITÓRIO  
 Em dinâmica durante evento, Carl Eugênia Nunes Brito, diretora pegagógica, compartilhou experiências choque de humanidade necessário
Em dinâmica durante evento, Carl Eugênia Nunes Brito, diretora pegagógica, compartilhou experiências choque de humanidade necessário (foto: João Pedro Resende de Carvalho)
Durante palestra, o autor pôs a tese à prova e projetou no telão: “Quando foi a última vez que você chorou na frente de outra pessoa?”. A dinâminca fez a pedagoga e diretora pedagógica do Coesi, de Aracaju,  Carla Eugênia Nunes Brito, 50 anos, repensar algumas rotinas. “Operamos no modo das decisões práticas e da liderança firme. Ser convidada a baixar a guarda gerou um choque de humanidade necessário. Por trás do crachá, eu e a colega ao lado compartilhávamos as mesmas dores. Uma pergunta genuína saltou a barreira da conversa formal”, disse.  
A reação se repete com frequência, segundo Duhigg cerca de 40% das pessoas descobrem ter algo em comum que jamais imaginariam. “Não estou dizendo que você deve chegar ao trabalho e perguntar aos colegas quando foi a última vez que choraram”, disse. “Mas existe alguma versão dessa pergunta para você. E quando a fizer, vai se sentir mais próximo das pessoas que importam.” Carla sabe qual será a dela “Em tempos de IA, a maior tecnologia que uma empresa ou escola pode oferecer é a sensibilidade humana. 
No fim das contas, em um mercado onde as máquinas fazem cada vez mais e assumem as tarefas automáticas, o verdadeiro diferencial não está no crachá ou no currículo técnico. O segredo do sucesso, na próxima década, parece ser muito mais simples e, ao mesmo tempo, desafiador: a capacidade de parar um segundo para pensar com calma quando tudo ao redor parece correr rápido demais. Prospera, no trabalho e na vida, quem consegue resgatar a clareza nos momentos difíceis e, acima de tudo, manter a sensibilidade para notar e se conectar de verdade com quem está ao lado. 
O Poder do Hábito, de Cahrles Duhingg:mais de 40% do que fazemos no trabalho é automático - e isso pode travar uma carreira
O Poder do Hábito, de Cahrles Duhingg:mais de 40% do que fazemos no trabalho é automático - e isso pode travar uma carreira (foto: Divulgação/Companhia das Letras )
» PARA LER 
O poder do hábito
  • Autor: de Charles Duhigg Nº de páginas: 408 
  • Editora: Objetiva
  • Preço: R$ 79,90 no site da Companhia das
  • Letras: companhiadasletras.com.br 

A IA pode fazerbrainstormingcomigo. Mas o queimporta é eu nãodepender dela parapensar por mim”Charles Duhigg

*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá João Pedro viajou a convite do Grupo Arco Educação S.A 

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