A criatividade não é um dom de artista, é a capacidade de resolver problemas sem resposta pronta. Em palesta realizada no Arco Day 2026, o diretor de Ensino e Inovações Educacionais da Arco Educação e professor de matemáticao Ademar Celedônio, apresentou os números da prova de pensamento criativo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Aplicada pela primeira vez em 2022, a estudantes de 64 países, o programa mede a capacidade de gerar ideias diversas e originais. Em uma escala de 0 a 60 pontos, a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi de 33. O Brasil ficou na 23ª colocação, que mostrou que 54,3% dos estudantes estavam abaixo do nível 2, considerado o piso da proficiência básica. Liderando a prova do programa, está Cingapura, que somou 41 pontos.
Na metodologia aplicada no Pisa, a criativade do estudante é medida de acordo com a sua capacidade de apresentar soluções para o cotidiano. As questões divulgadas pedem soluções para problemas abertos como escrever um texto sobre a importância das abelhas ou sugerir formas de tornar uma biblioteca mais acessível a pessoas com deficiência. Sem resposta única, a prova valoriza a capacidade de gerar muitas ideias diferentes. Na área de exatas. No ranking geral do Pisa 2022, que avaliou 81 países e o Brasil ficou na 65ª posição. Em matemática, a prova mostrou que 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do nível 2.
A relação entre as duas provas mostra que para o desempenho criativo existir a aprendizagem em matérias de exatas é essencial. Segundo o relatório da OCDE, cerca de 30% do desempenho em pensamento criativo pode ser explicado pela aprendizagem em matemática. Para Celedônio, a disciplina é o território natural da resolução de problemas. "Criatividade é a capacidade de resolver problemas. E matemática tem tudo a ver com isso. Máquinas respondem. Humanos fazem as perguntas", resumiu. A escola, no argumento dele, existe para formar quem pergunta — não quem espera a resposta pronta.
A expressão "nativo digital", cunhada em 2001 pelo americano Marc Prensky, virou senso comum — mas ter nascido numa era dominada pelo digital, no argumento de Brandão, não traz a competência de uso embutida. Se a criatividade trava, a fuga costuma ser a tela. Mas o evento desmontou uma ilusão. "Vamos diferenciar nativo digital de competente digital", propôs Jones Brandão, gerente de Ensino e Inovações da Arco, em entrevista ao Correio.
A diferença aparece no cotidiano. Há adolescentes que não sabem anexar um arquivo ao e-mail nem usar um aplicativo para organizar o orçamento da mesada, exemplificou. "É esse espaço que a gente espera que as escolas ocupem", disse. Negar a tecnologia de forma irrestrita, para ele, tira do aluno a visão de um mundo mediado por ela — e tira da escola o papel de facilitadora das competências digitais.
A caixa de ferramentas e de brinquedos
Brandão fechou com o educador Rubem Alves, que dividia o ensino em duas caixas. Numa, as ferramentas: o saber, o conhecimento, a ciência, o que resolve problemas. Na outra, os brinquedos: a ludicidade, o prazer, a emoção no que se faz. "Ambas são igualmente importantes", disse.
Por muito tempo, lembrou, imperou — e em parte ainda impera — a ideia de levar o aluno à escola para desenvolver apenas o intelecto. "O indivíduo é integral, ele não é só de intelecto, ele é de emoção, ele é de social, ele é de cultura", afirmou. Num evento que passou dois dias falando de inteligência artificial, a palavra final foi sobre gente.
Série Arco Day 2026 - Esta reportagem integra a cobertura do Correio sobre o Arco Day, encontro da Arco Educação em São Paulo
*João Pedro viajou a convite do Grupo Arco Educação S.A
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá