Eu, Estudante

Profissionais que inspiram

Conheça a professora que buscou lixo nas ruas e transformou a educação com robótica

Debora Garofalo ensinou robótica com sucata numa escola cercada por favelas em São Paulo; método virou política pública e alcança cerca de 3,7 milhões de estudantes.

 
A ligação  inesperada chegou de madrugada.  Do outro lado, um representante da Comissão Internacional do Global Teacher Influencer of the Year Prize — o Nobel da Educação. O pedido era simples: embarque para Dubai, com passagem comprada. Débora Garofalo embarcou sem saber o que esperar.  
Na cúpula internacional, descobriu que havia sido eleita a professora mais influente do mundo, mesmo sem inscrição no prêmio. “Fui pega de surpresa. Não estava nos meus planos ir para Dubai, não tinha sido convidada para a cúpula internacional este ano. A única coisa que me disseram para tentar me convencer foi que eu seria reconhecida e que meu voo decolava às 13h,  no aeroporto de Guarulhos. Só me dei conta da dimensão quando estava lá, num jantar para mais de mil pessoas, e fui anunciada como a professora mais influente do mundo”, contou Débora, em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense durante o Arco Day 2026, fórum de educação realizado em São Paulo. 
A sua principal contribuição para o ensino público foi a democratização ao acesso à tecnologia nas escolas públicas brasileiras, provando que inovação não depende de recursos — depende de criatividade. A história começou em 2013, em uma escola municipal na zona sul de São Paulo. Cercada por quatro favelas, com alto índice de violência, sem saneamento básico e com alunos em situação de trabalho infantil, a ideia era mudar essa realidade com a inserção da robótica no currículo. Sem verba para kits especializados, Débora foi às ruas, reuniu garrafas, tampinhas, papelão, palitos de churrasco, seringas e mangueiras. Os materiais viraram matéria- -prima para ensinar programação, circuitos elétricos e pensamento computacional a crianças de 6 a 14 anos. Assim nasceu o projeto Robótica com Sucata. 
Os resultados foram significativos e, em quatro anos, a evasão escolar caiu 93%. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola saltou de 4,2 para 5,2 e mais de uma tonelada de lixo foi retirada das ruas do bairro. A realidade das criancas mudou para melhor, elevou a autoestima dos alunos e reduziu o trabalho infantil. 
Em 2019, representando a mulher latino-americana, Débora chegou à final do Global Teacher Influencer of the Year Prize — ficando entre os 10 melhores professores do mundo. O que era um sonho virou política pública no estado de São Paulo, o projeto Robótica com Sucata está presente em 5.400 escolas e alcança cerca de três milhões de estudantes. 

Inteligência artificial 

Sete anos depois, o sucesso com sucata não encerrou a inquietação da educadora. O desafio agora é levar a inteligência artificial às periferias. Para Débora, o problema começa na infraestrutura: o Censo Escolar 2025 mostra que 94,5% das escolas têm acesso à internet, mas cerca de 70% contam com conectividade adequada para o uso pedagógico, segundo a Estratégia Nacional das Escolas Conectadas (Enec), do Ministério da Educação (MEC). “A IA é as duas coisas ao mesmo tempo: um item de desigualdade social e uma ferramenta que ainda não está sendo usada para a criticidade. Como a gente gera igualdade assim?”, questiona. 
A resposta de Débora passa pelo conceito de inteligência artificial desplugada — trabalhar os fundamentos sem depender do equipamento — e pela pedagogia do prompt, que ensina o estudante a formular perguntas críticas em vez de copiar respostas prontas para o chatbot. É a mesma lógica da sucata: começar pelo que se tem, não pelo que falta. 
A consagração internacional reforçou uma convicção construída em sala de aula. “O prêmio traz essa marca: mesmo em situação de extrema escassez, como a do Brasil, a gente pode inovar, e nosso trabalho pode ser merecedor de prêmios internacionais. Não é nesse lugar que a gente não pode inovar — muito pelo contrário.” 
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá