Cotas

Conheça a história de Flávia Medeiros, reconduzida ao cargo no Itamaraty após acordo com a AGU

Nascida em Belo Horizonte, Flávia Medeiros cresceu em Unaí, no noroeste de Minas e quase perdeu seu sonho ao ser exonerada do cargo de oficial de chancelaria do Itamaraty. Acordo com a União garantiu a recondução da servidora

João Pedro de Lara Resende
postado em 05/07/2026 06:00 / atualizado em 05/07/2026 06:00
 Aprovada no Concurso de Oficial de Chancelaria do Itamaraty que virou caso nacional 
 -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Aprovada no Concurso de Oficial de Chancelaria do Itamaraty que virou caso nacional - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Na manhã de terça-feira, 23 de junho, ao passar pela catraca do Itamaraty, Flávia Henriques Goes de Medeiros foi reconhecida. Os seguranças a saudaram e disseram que a sua história os havia inspirado. Na divisão, os colegas a receberam de braços abertos — e com flores. “Não poderia ter imaginado uma forma melhor de retornar”, diz a oficial de chancelaria, de 29 anos.

Era a segunda posse no mesmo cargo em menos de três meses. A cerimônia repetiu a primeira: ela e um servidor, em uma sala simples, diante do livro de assinaturas. Mudou só o peso do crachá que durante 24 dias ficou guardado no armário, à espera. “Voltei a usar o mesmo crachá. Mas agora ele tem um significado diferente.” Mesmo exonerada, nunca o devolveu. “Eu tinha muita esperança de que voltaria”, confessa. 
Ao cruzar a porta, sentiu alívio, sem a sombra da exoneração. E convicção. “Tenho certeza de que esse é o meu lugar.” Foi o fim de uma novela que começou numa banca de três minutos. 

De onde veio o sonho 

Nascida em Belo Horizonte, Flávia cresceu em Unaí, no noroeste de Minas, a duas horas de Brasília — onde, anos depois, realizaria e quase perderia o sonho. Caçula de três irmãos, teve infância de rua e quintal, num lar pequeno e amoroso. Os pais se separaram quando ela tinha 5 anos, mas seguiram amigos até a morte do pai, Eduardo Henriques de Medeiros, professor de biologia e militante na redemocratização. Dele, acredita ter herdado o lado político que a levaria às relações internacionais. A mãe, Nádia Cristina Goes de Medeiros, é educadora infantil voltada para a inclusão. 
O mundo lá fora entrou pela música. “Comecei a aprender inglês em casa, aos 12 anos, ouvindo música no YouTube. Foi meu primeiro contato com assuntos internacionais.” Aos 15, a mãe, com dois empregos, juntou dinheiro e lhe deu um curso de idiomas. Aos 17, Flávia escolheu relações internacionais e descobriu a diplomacia. “Eu sempre soube que era o concurso mais difícil do Brasil. Foi isso que me motivou: se as pessoas conseguem, eu também consigo.” 
Formou-se em relações internacionais no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), em 2018, e, em 2021, ingressou por cotas na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), reconhecida como parda. Entendia-se assim desde criança. A família é miscigenada — avó paterna afro-indígena, avô materno negro — e o tema racial chegava em casa nas piadas sobre o cabelo, nos olhares dentro de uma loja. Na adolescência, alisava o cabelo toda semana. “A gente não tinha representações positivas de cabelo afro e de feições em que a gente se reconhecesse bonita”, diz. 

Cinco anos por um lugar 

Flávia Medeiros em Nova Iorque durante o intercâmbio SUSI Leaders, em 2018.
Flávia Medeiros em Nova Iorque durante o intercâmbio SUSI Leaders, em 2018. (foto: Acervo pessoal/Fávia Medeiros)

A carreira consumiu os últimos cinco anos de Flávia, e ela é precisa quanto ao preço. “Trabalhava 40 horas semanais com carteira assinada porque precisava financiar meus estudos, e não tinha ninguém para pagar por eles.” Acordava antes do expediente, estudava à noite e nos fins de semana. Abriu mão da família, de amizades, de um relacionamento, de planos de casa ou carro. A mãe foi a base. “Tudo o que eu não conseguia fazer, com o meu tempo escasso, minha mãe fazia por mim.” 
No Espírito Santo, onde morou por quatro anos, ajudou a desenvolver a política de ação afirmativa da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes). Construía cotas. Anos depois, seria barrada por uma. 

A sala 

Flávia se reconhece como parda a vida inteira. Uma banca levou poucos minutos para dizer que não. Convocada à heteroidentificação, em 2024, passara por outras. O procedimento existe para coibir fraudes: uma comissão confirma ou não a autodeclaração de quem disputa as vagas de pretos e pardos. Avalia só a aparência — não pesam documentos, ancestralidade nem histórico. 
“Ao entrar pela porta, você já via as cinco pessoas sentadas”, descreve. Atrás da cadeira, havia um quadro com uma folha de papel pardo — “Pelo visto, era referência a uma tonalidade específica que eles estavam buscando”. A banca tratou pretos e pardos de modo distinto: aos primeiros, perguntava só o número; às pessoas pardas, fazia mais de uma. Quiseram saber onde ela morava e com qual integrante da banca se identificava fisicamente. Tudo durou menos de três minutos. “Senti-me sob uma avaliação mais minuciosa do que outros candidatos. 
O parecer recursal descreveu o corpo da candidata e concluiu: “Flávia Henriques Goes de Medeiros possui pele de tonalidade clara, cabelos lisos e traços fisionômicos finos; indefere-se a candidata, por não serem identificados traços fenotípicos inerentes à pessoa negra.” O critério, diz o documento, foi exclusivamente o fenótipo. A mesma pessoa que a UFOP reconhecera como parda — e que o próprio Itamaraty aprovaria, seis meses depois, em outra banca, para uma bolsa. “Nada havia mudado em mim, mas, pelo visto, tudo mudou.” Não aceitou o veredito. Contestou na Justiça e venceu. 

Sozinha em Brasília 

Colação de grau de Flávia em Relações Internacionais
Colação de grau de Flávia em Relações Internacionais (foto: Acervo pessoal/Fávia Medeiros)

Para assumir, largou tudo em Vitória, onde morava com a mãe — a casa, os amigos e o trabalho. “Eu nunca tinha saído de casa. Tudo o que deixei para trás era segurança.” Veio sozinha para uma cidade onde não conhecia ninguém. 
Tomou posse em 2 de abril, mas não como sonhara. “Assinei só eu e a pessoa do RH do Ministério. Vim sozinha. Não pude trazer minha família.” Ainda assim, foi feliz: conheceu a divisão, a chefia, o Ministério por dentro. O que doeu foi a comparação: os colegas tiveram cerimônia e levaram as famílias; ela, não. “Fui a única que não teve cerimônia. Queria muito que minha família tivesse visto isso de perto.” 
Empossada, foi eleita secretária executiva adjunta do comitê étnico-racial do próprio Itamaraty. Nunca chegou a assumir. Logo depois, a União recorreu, e um desembargador do Tribunal Regional  Federal da 1ª Região (TRF1) entendeu que ela não poderia ficar no cargo antes do fim do processo. A posse foi suspensa, e a exoneração saiu na semana em que o comitê seria nomeado — afastada pelo mesmo órgão que a elegera para discutir raça e que, na banca, a classificara como não cotista. “É uma incongruência muito grande.”
No dia do ato no Diário Oficial, 22 de maio, nem foi trabalhar. “Eu tinha construído um sonho e estava sendo tirada de tudo. A sensação de estar suspensa no ar, sem chão embaixo.
Na cidade nova, o amparo veio dos colegas, não da instituição: eles se mobilizaram e ofereceram apoio. “O ministério nunca se posicionou institucionalmente.” Foram os meses mais difíceis. Preferiu poupar o avô, de 87 anos: não contou da exoneração, para não preocupá-lo. 

O retorno 

Em 15 de junho, a Advocacia- -Geral da União (AGU) reconheceu o erro e firmou um acordo para reconduzi-la, sem pagar pelos meses de afastamento. “O Estado não pode ter compromisso com o erro”, disse o advogado-geral, Jorge Messias, que falou em corrigir “uma rota que estava indo na direção equivocada”. O acordo ainda não foi homologado pela Justiça, mas previa a nomeação em até cinco dias após a assinatura — por isso reassumiu no dia 23. A mesma União que a afastara agora a reconduzia. 
Ela não usa as mesmas palavras do ministro. “É uma injustiça. A gente está excluindo pessoas de uma política pública. É um erro grave.” Voltou sem os retroativos para resolver rápido: precisava do salário de imediato, e não tinha como sustentar um processo longo. “Há vitórias que são meio amargas”, resume. 
O que mais lamenta não é o dinheiro, e sim o que não volta. “As vivências de um mês de trabalho. E a cerimônia de posse que eu não tive — isso é o mais intangível, mas muito valioso, que eu perdi.” 
Hoje, a rotina é tranquila: temas consulares, no apoio à política migratória. Tenta sair antes do pôr do sol, “porque gosto de ver a Esplanada ainda iluminada”. Nesta época dos ipês, o caminho de casa fica mais bonito. 
Continua a mesma, talvez mais realista. “Mas continuo sonhadora e preservando a minha autenticidade. Acho que foi justamente isso que fez com que tantas pessoas se identificassem comigo.” O que mudou foi a consciência do que representa. “Eu não represento só um acesso às cotas. Represento uma luta pública, de muitas pessoas que se identificam.” Não quer que a dor entre antes dela. “Quero que entrem as minhas qualidades, as características positivas do meu povo.” 
Sonha em levar a mãe e o avô para conhecerem o mundo, quando for trabalhar no exterior. “Não consigo visualizar a cena por completo, mas tenho certeza de que será um momento muito feliz para todos nós”, diz. Sobre o que diria a quem a avaliou na sala, responde como quem disse tudo: “Eu era quem eu era. Continuo com as mesmas características; continuo a ser a mesma pessoa. Não tenho nada a acrescentar. 
  • Flávia Medeiros recebe o diploma do curso de Relações Internacionais pela UniBH, em 2018.
    Flávia Medeiros recebe o diploma do curso de Relações Internacionais pela UniBH, em 2018. Acervo pessoal/Fávia Medeiros
  • Flavia Medeiros e sua mãe, Nádia Goes
    Flavia Medeiros e sua mãe, Nádia Goes Acervo pessoal/Fávia Medeiros
  •  Com os irmãos Robert e Juliana (in memoriam)
    Com os irmãos Robert e Juliana (in memoriam) Acervo pessoal/Fávia Medeiros
  • Flávia Medeiros e o padrasto, Agnaldo Eufrânio
    Flávia Medeiros e o padrasto, Agnaldo Eufrânio Acervo pessoal/Fávia Medeiros
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá   

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