Formação Profissional

Conquista do diploma: estudantes brasilienses conseguem conciliar trabalho e o estudo noturno

Estudantes do Distrito Federal enfrentam transporte público superlotado, cansaço e insegurança urbana para conquistar o diploma

Gabriela Braz
postado em 12/07/2026 06:00 / atualizado em 12/07/2026 06:00
Universitários enfrentam desafios de mobilidade, segurança e cansaço para conquistar diploma -  (crédito: João Pedro de Lara Resende)
Universitários enfrentam desafios de mobilidade, segurança e cansaço para conquistar diploma - (crédito: João Pedro de Lara Resende)
 
O período noturno chama a atenção dos estudantes que desejam conciliar trabalho com os estudos. No entanto, existem desafios que os jovens encontram desde sair de casa até chegar à universidade. Mesmo com controvérsias, docente e alunos afirmam ser possível alinhar as duas tarefas com um cronograma realista e foco nos objetivos.  
Metade da juventude brasileira concilia simultaneamente estudos, trabalho e atividades de cuidado, enquanto cerca de 90% dos jovens entre 15 e 29 anos acumulam pelo menos duas dessas responsabilidades. Os dados são do estudo Juventudes e a política de cuidados: anotações sobre a condição juvenil, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), elaborado com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Anual de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
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Segundo dados do Censo do Ensino Superior 2024, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), 54,2% estudam à noite. Lidar com atividades ao longo do dia e estudar no período noturno exige lidar com a exaustão física e mental, além  da falta de tempo para a vida pessoal e a dificuldade de manter o foco após um longo expediente. Lecionando desde 2012 o professor de comunicação social no Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb) Daniel Amaral, afirma que o formato da aula deve ser diferente, pois os alunos chegam sobrecarregados das atividades diárias. “Aulas menos expositivas e mais práticas, trazendo o conteúdo de uma forma que seja menos massante”, explica. A  absorção do conteúdo não é necessariamente afetada, uma vez que muitos educadores procuram ser menos teóricos e mais práticos nas atividades do noturno. Porém, ele comenta que a grande dificuldade para esses estudantes é levantar cedo e voltar para casa muito tarde, dependendo de ônibus ou até mesmo vans escolares. 
Pra o professor Daniel Amaral as aulas no período noturno devem ser mais dinâmicas.
Pra o professor Daniel Amaral as aulas no período noturno devem ser mais dinâmicas. (foto: Pedro Pinheiro)
Para o docente, o perfil dos estudantes que estudam à noite normalmente é de pessoas que trabalham durante o dia para pagar a universidade. Outro perfil apontado é de jovens que, se não tivessem a opção noturna, não poderiam estudar ou recorreriam ao ensino a distância, por  não conseguirem conciliar a universidade com outras atividades. O aluno mostra-se esforçado para receber o diploma, equilibra estudo, trabalho, lazer e ainda tem a necessidade de sentir o que está aprendendo. O docente defende que esse jovem é o protagonista. Sem perda de tempo nas atividades acadêmicas, ele tem que sair da faculdade e perceber que sua dedicação terá retorno.  
Segundo Amaral, o estudante enxerga a faculdade como uma mudança de vida. “Muitos que estudam de manhã têm o suporte financeiro, mas os que estudam à noite muitas vezes se sustentam enxergam  o estudo como uma forma de ascensão social”, comenta. “É comum ver alunos do período matutino matando aula, mas isso não acontece com os alunos do noturno”, finaliza.  
'Por ser muito longe, eu perco um tempo que poderia estar aproveitando de outra maneira' diz a estudante de administração Nicole Damando
"Por ser muito longe, eu perco um tempo que poderia estar aproveitando de outra maneira" diz a estudante de administração Nicole Damando (foto: Arquivo Pessoal)
Nicole Damando, estuda administração e trabalha no período da manhã. Sua rotina começacedo, quando embarca no ônibusdo Riacho Fundo para o Lago Sul.No total, são quase duas horasde ida e volta. Após cumprir ohorário do estágio, a jovem voltapara casa, chegando aproximadamente às 15h e sem ao menosconseguir descansar e terminaras tarefas da faculdade, ela se prepara para a universidade que ficalocalizada na W3 Sul. São duasidas ao centro de Brasília. “Por sermuito longe, eu perco um tempoque poderia estar aproveitandode outra maneira”
O cansaço é pertinente na rotina dos que trabalham e estudam à noite. Há pessoas que aprendem melhor no período noturno, porém, também têm aqueles que se sentem exaustos demais por conta das atividades exercidas antes da aula. “O vaivém me deixa mentalmente esgotada para prestar atenção na aula. Além do mais, a preocupação em ir direto para casa por conta do horário do ônibus também deixa mais desatenta durante a faculdade”, Nicole desabafa.  
Trabalhar durante o dia e estudar à noite é desafiador para o estudante Davi Oliveira
Trabalhar durante o dia e estudar à noite é desafiador para o estudante Davi Oliveira (foto: Arquivo Pessoal)
Para Davi Oliveira, estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas(ADS), trabalhar o dia inteiro e estudar de noite é desafiador. Empregado no regime celetista, ele trabalha das 8h às 18h e de segunda a sexta. Após o expediente, rapidamente se desloca até a universidade. “Chego em casa, tomo banho, janto e vou dormir por volta de meia-noite”, explica. Em sua semana, é difícil encontrar momentos de lazer e descanso.  
Outro ponto que o graduando menciona é a dificuldade em encontrar tempo para realizar trabalhos e atividades da faculdade. “Normalmente, estudo para as provas nos finais de semana e se for muito urgente na semana faço depois que chegar da faculdade e mato uma noite de sono”, relata. Ele diz que, a redução da jornada de trabalho,seria ideal para conseguir descansar e equilibrar os estudos durante a semana.  

Estudo e segurança 

Além dos desafios dentro de sala, os graduandos se preocupam com a segurança. Nos arredores das universidades em Brasília, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP/DF) as ocorrências mais comuns são arrombamento de veículos e furto de objetos deixados no interior dos carros, como mochilas e notebooks. Também há registros de roubos e assaltos a transeuntes em áreas isoladas e nos arredores dos instituições. A mobilidade urbana também preocupa os jovens, já que os horários dos transportes públicos podem afetar o horário de saída dos universitários. “Tem aula que acaba às 22h e vários alunos que moram longe e em regiões perigosas precisam sair cedo para conseguir pegar o ônibus. A gente como professor se envolve com essas situações. Sempre recomendo a eles andar em grupos e por lugares iluminados e cheios”,ressalta o docente do IESB. 
Além da rotina que não para, alunos que estudam no período noturno precisam estar atentos aos riscos do local em que estudam. “É perigoso, ás vezes saem notícias de crimes recentes que ocorreram em volta da faculdade, acabo ficando preocupado”, conta. Portanto, em prol da sua segurança, Davi costuma sempre ir acompanhado para aparada de ônibus e evita utilizar fones de ouvido quando está andando na rua.  

Realidade acadêmica 

Além de revelar a rotina intensa dessa parcela jovem da população, a pesquisa da Fiocruz destaca os impactos dessa sobrecarga. Segundo o documento, conciliar estudo, trabalho e cuidados pode provocar esgotamento físico e mental, reduzir o tempo destinado ao descanso, ao lazer e à convivência social e, em muitos casos, obrigar os jovens a abandonar uma dessas atividades.
Essa conciliação é ainda mais exigida para os alunos do período noturno. Uma das maiores dificuldades é lidar com as distrações que o cansaço proporciona. À primeira vista, estudar após a rotina de trabalho pode não parecer cansativo, mas ao final do dia e,principalmente, da semana, o cansaço pode apresentar sinais. Especialistas afirmam que em rotinas de dupla jornada, o descanso não é uma recompensa, mas um combustível biológico essencial. Focar nos objetivos, reservar os momentos adequados de lazer e fazer o uso inteligente do tempo livre é crucial para os acadêmicos. 
Conciliar uma jornada de trabalho ou estágio com a graduação exige planejamento rígido e autodisciplina para muitos jovens brasilienses que almejam um futuro melhor. 
*Estagiário sob supervisão de Marília Milhomen  

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