Carreira

Jovens negras enfrentam salários menores e barreiras na inclusão profissional formal

Estudo indica que barreiras sociais impedem a ascensão profissional de mulheres jovens pretas e pardas, mesmo com níveis mais altos de escolaridade

Gabriela Santos*
postado em 26/07/2026 06:00 / atualizado em 26/07/2026 06:00
Schayla Ferreira trocou a enfermagem pelas aulas com crianças -  (crédito: Arquivo Pessoal)
Schayla Ferreira trocou a enfermagem pelas aulas com crianças - (crédito: Arquivo Pessoal)
 
Embora o acesso de jovens negros à educação superior tenha aumentado, a inclusão profissional não seguiu o mesmo ritmo. Em relação às pessoas que frequentam a pós-graduação, os dados apresentados são divididos em três níveis: especialização de nível superior, mestrado e doutorado. Na especialização de nível superior, 39% dos estudantes são negros, 60% são brancos. Já no mestrado, a proporção de negros sobe para 41%, e os brancos representam 58%. Por fim, no doutorado, a participação de negros chega a 46%,enquanto os brancos somam 54%. Apesar da qualificação, no mercado de trabalho os jovens negros ainda apresentam ganhos salariais 37% menores do que os jovens brancos, recebendo, em média, R$ 1.727, e os jovens brancos ganham cerca de R$ 2.365. 
Quem expõe essa realidade é o estudo Juventudes Negras e Empregabilidade, promovido pela Fundação Itaú e pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial. A métrica busca avaliar a distribuição dos negros nas diversas profissões, por nível de escolaridade dos trabalhadores para diferentes amostras. O estudo, realizado em novembro de 2025, une quatro principais fontes oficiais. A análise parte do Índice ESG (Ambiental, Social e Governança) de Equidade Racial da Juventude Negra (IEERJN) de 2023, que mediu a distribuição de jovens negros em várias profissões e diferentes níveis de escolaridade. A Pesquisa Nacional por Amostra a Domicílios (PNAD) analisou, também, o perfil geral da Relação Anual de Informações Sociais(RAIS) e do Censo Demográfico da Educação Superior. 
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No Brasil, cerca de 6 em cada 10 jovens de 15 a 29 anos são negros, o recorte segue a definição do Estatuto da Juventude (Lei 12.852/13). O Índice IEERJN, considerado um termômetro de igualdade onde o zero representa o equilíbrio ideal, mostra que os jovens negros estão super representados apenas nas vagas que exigem pouca escolaridade, registrando um índice positividade +0,15 no ensino fundamental incompleto. Quando o jovem negro conclui o ensino fundamental, o índice praticamente equilibra, marcando -0,01. No entanto, o cenário despenca para a exclusão à medida que a escolaridade aumenta: o índice cai para -0,29 entre os formados no ensino superior e atinge o nível máximo de exclusão na pós-graduação, com -0,38. Esse paradoxo numérico é o que sustenta a tese do estudo Juventudes Negras e Empregabilidade. De acordo com o documento, a educação não é suficiente para garantir que esses jovens tenham uma boa progressão de carreira, pois há barreiras impostas no mercado de trabalho. 

Mercado 

Melissa Regina de Sousa, profissional de estética
Melissa Regina de Sousa, profissional de estética (foto: Arquivo Pessoal)

As mulheres negras ocupam uma posição especialmente vulnerável no mercado de trabalho. O estudo identificou que elas apresentam a menor taxa de inserção no trabalho formal. Nesse caso, encontra-se Melissa. Formada em enfermagem, a jovem escolheu atuar como esteticista. Para conseguir se manter e financiar sua pós-graduação, ela vive uma rotina híbrida: trabalha como celetista, mas também atua como autônoma. Ela relata que o diploma abriu portas de forma limitada por “não estar dentro de um padrão específico valorizado pelo mercado” e aponta o desgaste mental de “precisar ser duas vezes melhor” para ter sua capacidade intelectual respeitada. 
Lady Bárbara, professora de dança
Lady Bárbara, professora de dança (foto: Arquivo Pessoal)
A professora de dança Lady Bárbara é graduada em educação física e, apesar de sua trajetória não ter seguido o plano inicial, ela vê que as jovens negras ainda precisam ser vistas pelas leis trabalhistas.” Desejo que as profissionais possam ter acesso a um plano de saúde, férias remuneradas, uma base salarial maior, visto que a educação física é uma área de extrema importância pensando na qualidade de vida”, disse. Lady relatou não conseguir atuar em sua área de formação pelos estigmas impostos. “Particularmente, não aguentei a pressão, hoje trabalho com crianças por não ter me enquadrado ao corpo, à cor, às características consideradas aceitáveis para a área fitness. Sinto muita falta de atuar”, afirmou. 
O estudo expõe que no ensino superior completo, o indicador para as mulheres negras jovens apresenta os melhores resultados em comparação aos demais níveis de escolaridade, além de mostrar uma trajetória mais consistente de crescimento. O documento aponta que isso não significa, necessariamente, que essas mulheres estejam em situação mais favorável, pois ainda estão em menor presença nesse nível de escolaridade no mercado de trabalho. 
A arte educadora Schayla Ferreira Acacio abriu mão do diploma de enfermagem para buscar seu lugar no mercado de trabalho. Como estudante, percebia que “embora houvesse profissionais negras na área, era menos comum vê-las ocupando posições de chefia, coordenação ou direção. Essa falta de referências faz com que as jovens negras não consigam se enxergar nesses espaços”, disse. A futura trajetória na enfermagem foi interrompida antes da conclusão da graduação. 
graduação. A professora doutora Norma Diana Hamilton, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros da Universidade de Brasília (NEAB-UnB), cita a psicóloga e pesquisadora Cida Bento em O Pacto da Branquitude  para explicar que lideranças brancas tendem a reproduzir mecanismos de auto preservação, mantendo profissionais negros subrepresentados em cargos de prestígio, mesmo com igual qualificação. “Ela aponta que pessoas brancas em posições de liderança tendem, muitas vezes de forma inconsciente, a selecionar e promover outras pessoas brancas para cargos de maior prestígio e poder, enquanto profissionais negros permanecem sub-representados nesses espaços, mesmo apresentando qualificação. Isso é o que acontece no mercado de trabalho brasileiro”, disse. 
O estudo afirmou que outras dificuldades, como o ingresso e a permanência no ensino superior, a falta de recursos para a mobilidade urbana e o preconceito por serem alunos cotistas, bolsistas e moradores da periferia prejudicam o desenvolvimento profissional desses jovens, aumentando suas chances de ocupar postos de baixa qualificação no mercado de trabalho. A desigualdade racial em Brasília também é geográfica. Enquanto mais de 70% da juventude negra se concentra nas regiões administrativas, as áreas centrais de alta renda são majoritariamente brancas. Morar na periferia significa enfrentar longos tempos de deslocamento, menor acesso a redes de contatos, cursos de idiomas e estágios, além de sofrer com o estigma social do endereço residencial no momento da seleção. A professora da UnB aponta que essa realidade não é fruto do acaso, mas resultado de um processo histórico. Enquanto milhões de pessoas negras libertas foram abandonadas sem acesso à terra, educação ou políticas de integração econômica, o Brasil implementou políticas de incentivo à imigração europeia, oferecendo terras, subsídios e oportunidades de inserção produtiva aos imigrantes. 

Equidade 

No Senado, o Projeto de Lei (PL) n° 4116/2021 está em tramitação propondo a alteração da Lei do Estágio (Lei nº11.788/2008) para instituir cota de pelo menos 30% das vagas de estágio em órgãos da administração pública e empresas privadas para pessoas negras, indígenas e quilombolas. De autoria do senador Jader Barbalho (MDB/PA), o texto garante que a medida se aplique a estágios de ensino médio, superior e profissional. 
Para Guibson trindade, gerente executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, a mudança depende de uma combinação entre dedicação individual e o compromisso institucional. “É necessário ampliar o acesso à educação de qualidade, mas também implementar políticas de equidade dentro das organizações, com processos seletivos inclusivos, programas de desenvolvimento, metas para diversidade, transparência na progressão de carreira e ambientes livres de discriminação. Quando empresas, governos e sociedade assumem essa responsabilidade, criamos condições para que as mulheres negras sejam reconhecidas, valorizadas e tenham oportunidades reais de alcançar posições de liderança”, afirmou. 
*Estagiária sob a supervisão de Marília Milhomen 

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