postado em 26/07/2026 06:00 / atualizado em 26/07/2026 06:00
> - (crédito: Caio Gomez)
Vivemos em uma sociedade na qual a pirâmide etária se inverteu, a expectativa de vida nunca foi tão alta e o termo longevidade entrou no vocabulário popular. Não é apenas que a população brasileira está envelhecendo, assim como acontece em outras regiões do mundo. Estamos vivendo por mais tempo e com mais qualidade. Se os cuidados com a saúde e o bem-estar físico e mental ocupam o centro das discussões quando falamos em envelhecimento, por que não considerar o papel do trabalho nesta transformação profunda que vivemos?
A juventude ainda ocupa um papel de mais valor no imaginário coletivo atual quando pensamos nos padrões do que é desejável como sucesso e felicidade. As imagens de corpos jovens e narrativas que mostram o sucesso precoce dominam a maior parte das referências que temos, principalmente dos ídolos, figuras públicas e pessoas admiradas. Mas essa é uma tendência recente na história da humanidade.
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Após a Segunda Guerra Mundial, a juventude ganhou destaque como referência central de padrão de vida no ocidente, influenciando estética, consumo e valores considerados positivos (alegria, inovação, descontração, energia, vitalidade, entre outros). A partir de então, os termos e símbolos relacionados ao envelhecimento se tornaram por vezes pejorativos e indesejáveis, começamos a viver uma síndrome de Peter Pan pela primeira vez na história.
Nos séculos passados, a infância e a juventude tinham um papel secundário e até subalterno na vida em sociedade. O prestígio estava associado a valores como maturidade, experiência e sabedoria. Por vezes, os jovens moldavam seus hábitos e sua aparência para parecerem mais velhos e passar uma imagem de maior credibilidade e confiança, o que abria portas na vida profissional e pessoal. Nas últimas décadas, essa tendência se inverteu, mas será que a juventude como fase principal da vida irá reinar por muito mais tempo?
Os dados quantitativos e qualitativos apontam que, provavelmente, não. Os inconvenientes físicos e sociais associados ao envelhecimento (como doenças, redução da disposição e mobilidade) estão sendo retardados e amenizados com o avanço da medicina e da ciência, que nos oferecem conteúdos cada vez mais precisos e acessíveis sobre bons hábitos para viver melhor
Em um estudo lançado recentemente pelo Grupo Consumoteca, em parceria com a pesquisadora de gênero e moda Thais Farage, enfoca-se o poder de influência e consumo das mulheres entre 45 e 60 anos no Brasil, das classes A, B e C. Elas representam uma população de quase 23 milhões, 71% são independentes financeiramente e 96% estão trabalhando em algum objetivo profissional ou pessoal para os próximos anos. Na etapa qualitativa do estudo, um dos achados foi o de que esse grupo não quer rejuvenescer, mas viver o que consideram o auge da vida com autonomia e vitalidade.
Se a sociedade terá mais pessoas envelhecendo do que crianças nascendo, por que manter os estigmas que moldam as trajetórias profissionais pelas escolhas feitas no começo da carreira? Tudo indica que os profissionais do presente (e futuro) terão múltiplas trajetórias profissionais, não apenas por estarmos vivendo mais anos, mas também pelas rápidas mudanças dos meios de produção e mercado de trabalho atualmente.
Qual a melhor forma de lidarmos com esta realidade, então? Para as organizações empregadoras, há uma necessidade de combater o preconceito e estigma de contratar e manter profissionais seniores, principalmente em posições relevantes (de alta liderança). Para as instituições de ensino, é necessária uma reorganização da oferta de cursos a profissionais com mais idade, considerando o repertório acumulado dos reingressantes e áreas de interesse entre as demandas do mercado e dos estudantes. Para os profissionais, sejam eles ainda jovens, ou mais maduros, é necessário romper com o estigma de que o sucesso na carreira tem um prazo de validade ou um intervalo de poucos anos/décadas para acontecer da forma que desejamos.
É uma falácia acreditar que tomaremos decisões profissionais cedo na vida, construímos uma trajetória relevante entre os 20 e 30 e poucos anos e, a partir de então, colheremos os frutos ou não das nossas escolhas e resultados. Essa trajetória não é linear nem única; ela varia cada vez mais não apenas pelas mudanças demográficas, mas também econômicas, sociais e individuais.
Não se cobrar por um sucesso precoce ou que dure por tempo indeterminado, combater a ideia de que é “tarde demais” para mudar de carreira e não deixar que o peso de gerar resultados para atender expectativas externas limite a exploração dos seus talentos e interesses mais genuínos são os pontos de partida necessários para uma trajetória profissional satisfatória e longeva.