NEURODIVERGÊNCIA

Projeto traz maior acolhimento às pessoas com superdotação

Marco legal aprovado no Congresso para combater a invisibilidade de pessoas com altas habilidades anima especialistas

Gabriela Santos*
postado em 10/08/2026 05:00
Em jovens com altas habilidades, maturidade emocional não acompanha o desempenho cognitivo -  (crédito: Arquivo pessoal)
Em jovens com altas habilidades, maturidade emocional não acompanha o desempenho cognitivo - (crédito: Arquivo pessoal)

A aprovação do projeto de lei (PL) 1.049/2026 pelo Senado Federal, que institui a Política Nacional para Altas Habilidades ou Superdotação, representa um marco no combate à invisibilidade que atinge neurodivergentes. A nova legislação busca fortalecer diretrizes de identificação, acompanhamento e Atendimento Educacional Especializado (AEE), prevendo a aceleração de estudos, o enriquecimento curricular e a criação de centros de referência.

No entanto, especialistas ressaltam que o maior desafio permanece na identificação precoce dos superdotados, evitando que passem anos enfrentando isolamento e sofrimento psíquico antes de compreenderem seu próprio funcionamento cognitivo.

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Thaís Barbisan reforça que o funcionamento cerebral de uma pessoa superdotada não representa apenas facilidade acadêmica ou uma "vantagem natural". Trata-se de uma condição de neurodesenvolvimento que pode vir acompanhada de vulnerabilidades como ansiedade, depressão, perfeccionismo, síndrome do impostor e um profundo sentimento de inadequação, especialmente quando o ambiente de estudos ou de trabalho não acolhe essas especificidades.

Segundo Thaís, a psicologia e a sociedade podem se estruturar para acolher não apenas o potencial intelectual desses estudantes, mas também as suas demandas sociais e emocionais. "Devemos criar espaços de educação e trabalho em que essas pessoas possam ser vistas em sua totalidade, com seus potenciais, suas fragilidades e sua singularidade. É esse olhar integral que favorece um desenvolvimento saudável e uma vida emocional mais equilibrada", sugere.

Gustavo Gattino é pesquisador e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e também é uma pessoa com superdotação. Ele relata que o diagnóstico ajudou a explicar não apenas seu pensamento acelerado e sua criatividade, mas também a intensa sensibilidade sensorial e a hiper-responsividade auditiva. Gattino ressalta que o cérebro superdotado opera em assincronia, o que significa que o desenvolvimento cognitivo não é acompanhado no mesmo ritmo pela maturidade emocional. "Sem a identificação e o suporte de profissionais, não há como, de fato, descobrir quais são as características e os meios para que a aprendizagem daquele indivíduo seja feita da melhor forma" explica.

Dentro do ambiente familiar e escolar, a ausência de informação gera desafios diários. Carla, mãe de Antônio, de 8 anos, relata as dificuldades enfrentadas até a obtenção do laudo de altas habilidades com foco em matemática e linguagem. Ela explica que a intensidade emocional do filho costuma ser julgada como birra ou falta de limites por pessoas que desconhecem a assincronia do desenvolvimento. Além disso, Carla aponta o despreparo das instituições de ensino particulares com as quais esteve em contato para lidar com o ritmo do aluno, que costuma terminar as atividades em poucos minutos e fica ocioso em sala de aula.

Apesar das estimativas internacionais indicarem que de 3% a 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação, os índices oficiais no Brasil continuam muito abaixo do esperado, identificando de 0,12% a 0,5% dos estudantes, segundo o Censo Escolar de 2025.

Ensino precoce

Diante desse cenário, a atuação da educação precoce, até os 11 meses de vida, surge como uma etapa fundamental para estruturar uma base socioemocional sólida. A coordenadora da Educação Precoce do Centro de a Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Juscelino Kubitschek (Caic JK/NB), Rejane Fernandes Goulart Paulino, destaca que os sinais de potencial acima da média na primeira infância devem ser acompanhados por equipe multiprofissional, e que o foco pedagógico nessa fase deve ser o fortalecimento da autonomia e o aprendizado da convivência.

Portanto, com a aprovação da nova legislação, o país dá um passo relevante para a consolidação de diretrizes públicas inclusivas. Sobretudo em agosto, quando é celebrado, hoje, o Dia Internacional da Superdotação. Contudo, Gattino alerta que a efetividade da lei dependerá da mobilização de estados e municípios para promover eventos, capacitar professores e realizar as adaptações curriculares mais adequadas para atender os superdotados. A construção de uma sociedade inclusiva exige que crianças e jovens neurodivergentes sejam compreendidos em sua totalidade.

  • Thaís Barbisan, neuropsicóloga
    Thaís Barbisan, neuropsicóloga Foto: arquivo pessoal
  • Antônio Spegiorin Drummond de 8 anos, estudante com laudo de altas habilidades em matematica e linguagem
    Antônio Spegiorin Drummond de 8 anos, estudante com laudo de altas habilidades em matematica e linguagem Foto: arquivo pessoal
  • Rejane Fernandes Goulart Paulino coordenadora da Educação Precoce do CAIC JK /NB
    Rejane Fernandes Goulart Paulino coordenadora da Educação Precoce do CAIC JK /NB Foto: arquivo pessoal
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