Liderança

Estudante da UnB, que ajudou a transformar uma praça no Paquetá, em Santos, quer mudar vidas no DF

Sofia Moral, 20 anos, estudante de jornalismo da UnB, passou julho em Santos (SP) ao lado de pessoas de nove países, aprendendo a transformar comunidades. E volta a Brasília com um plano para os territórios do DF

João Pedro de Lara Resende
postado em 16/08/2026 06:00 / atualizado em 16/08/2026 06:00
Sofia Petrini Moral:
Sofia Petrini Moral: "Eu procuro ouvir o que eles querem" - (crédito: Divulgação/ Wesley Lima - Sebrae DF)

Sofia Petrini Moral, 20 anos, estudante de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB), recebeu da mãe, em junho, o link para um programa de formação em liderança social — um mês de imersão em Santos, no litoral paulista. A mensagem veio cheia de exclamações: “Hora que você tiver 5 minutos, com atenção, veja isso!” Sofia respondeu quase três horas depois: “Que legal.” Assistiu aos vídeos. Inscreveu-se. Não conhecia ninguém ligado à iniciativa. “As pessoas de São Paulo iam por indicação. Gente de outros países tinha amigos que participaram antes. Eu fui às cegas.”

O programa Guerreiros Sem Armas (GSA) existe desde 1999, e é realizado pelo Instituto Elos, organização criada em Santos por um grupo de arquitetos no início dos anos 2000. A imersão dura 28 dias. Segundo o Instituto, a metodologia foi levada a mais de 50 países e alcançou mais de 500 mil pessoas em quase mil comunidades. A cada julho, participantes de diferentes nacionalidades convivem no mesmo espaço de formação e atuam em territórios da Baixada Santista. Nesta edição, o GSA reuniu gente de nove países e de sete estados brasileiros — 40 participantes ao todo. 
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Sofia se inscreveu e entrou direto na imersão de julho, sem passar pelas etapas preparatórias. Três anos à frente de um projeto social em Brasília lhe deram, na prática, o que elas ensinam: mobilizar gente, organizar ações, improvisar. Ficou no grupo que atuou no Paquetá, bairro da região central de Santos. Quinze dos 28 dias foram dedicados ao território. 
A praça central do bairro era um ponto de uso de drogas. O entulho de uma obra da prefeitura cobria o antigo parquinho — concreto, lixo, restos de material. Usuários queimavam coisas ali; a fumaça não cessava. O Canal 2, um dos canais do porto, corria poluído ao lado. A quadra esportiva fora trancada pelo posto policial vizinho: em vez de cuidar do espaço, a solução foi fechar o cadeado. A rampa de acessibilidade estava coberta de fezes. Não havia luz. 
Moradores contavam que ali, uma vez, houve um parquinho cheio de crianças. Sofia não teria acreditado. A dificuldade ia além do espaço físico. O Paquetá funciona como zona comercial — muita gente trabalha durante o dia e vai embora à noite. Os residentes dos cortiços, os que de fato moram no bairro, não se reconheciam como uma comunidade. “Todo mundo queria sair dali. Para eles, não fazia sentido melhorar um lugar provisório”, conta. 
Diante desse cenário, a abordagem do GSA propõe o caminho inverso: não chegar com projeto pronto. A metodologia se organiza em sete etapas, que começam pela observação e terminam na ação. O princípio é que a comunidade define o que quer. “Minha primeira impressão, quando cheguei, foi: ‘Aqui podia ter um grafite nessas paredes.’ E não era nada a ver. Não era isso que eles queriam nem precisavam”, relata Sofia. Três anos antes, ela teria feito exatamente isso — chegado com a ideia pronta e executado. “Imagina se eu não tivesse feito todo esse processo. Teria pintado um grafite, daqui a alguns anos a tinta ia descascar, e não teria marcado nada.” 

O mutirão 

Participantes do GSA percorrem o Paquetá, bairro da região central  de Santos, onde atuaram por 15 dias
Participantes do GSA percorrem o Paquetá, bairro da região central de Santos, onde atuaram por 15 dias (foto: Arquivo pessoal/Paulo Pereira)

O que os moradores do Paquetá queriam era recuperar a praça e plantar hortas. Foram eles que definiram as prioridades. O mu tirão — o “milagre” na linguagem da metodologia Elos — durou três dias, na última semana de julho, e reuniu cerca de 80 pessoas, entre participantes e moradores. Ergueram hortas verticais e em caixotes, restauraram o parquinho com estruturas de madeira e plantaram um jardim onde havia entulho. No dia seguinte, uma ventania com alerta meteorológico fez o grupo temer que tudo tivesse sido destruído. Foram checar. Estava intacto. 
Foi durante o mutirão que Sofia conheceu Bernardo Faustino, 13 anos — joga capoeira e futebol, e nunca tinha tido um pandeiro. Sofia havia levado o dela na mala e, entre um dia de trabalho e outro, sentou-se com o menino para ensinar o giro que faz o couro vibrar. Bernardo tentou quatro vezes. Na quinta, o som saiu. Disse que queria treinar em casa. “É caro. A gente não tem.” Sofia estendeu o instrumento. “Toma, é seu.” Abraçaram-se e choraram. Era a despedida — não se viram mais. 
Encontro de Projetos no Paquetá: moradores definiram,com os participantes do projeto,  quais sonhos coletivos seriam realizados no mutirão
Encontro de Projetos no Paquetá: moradores definiram,com os participantes do projeto, quais sonhos coletivos seriam realizados no mutirão (foto: Arquivo pessoal/Paulo Pereira)
O que permaneceu no Paquetá não foi a obra. Vizinhos que antes queriam ir embora criaram um grupo no WhatsApp para cobrar a prefeitura e cuidar do que foi construído. “A gente vai embora. Quem fica com aquilo são eles. Por isso, eles é que têm que decidir”, diz Sofia. “Senão a tinta descasca e não fica nada.” 
Nem tudo no Paquetá foi resolvido com metodologia. Como mulher atuando no território, Sofia precisou encontrar o equilíbrio entre a abertura que o processo exigia e os limites que a situação impunha. Houve contatos inadequados — pessoas que confundiram a proximidade do trabalho com interesse pessoal. “Faz parte. Você tem que se proteger sem deixar de se conectar genuinamente”, afirma. Conversou com os facilitadores, ajustou a postura e seguiu. 
Entre os 40 participantes, uma amizade cruzou fronteiras. Aysha Siddiqua, de Bangladesh, integrante do movimento estudantil que ajudou a derrubar o governo autoritário de Sheikh Hasina em 2024, tornou-se a pessoa mais próxima de Sofia na imersão. As duas se falam dia sim, dia não. Aysha vai cursar mestrado em Paris e quer que a amiga brasileira a visite. 

A mala de volta 

Encontro da Re-volução no Paquetá, última etapa da metodologia Elos: moradores e participantes avaliam os proximos passos para o território
Encontro da Re-volução no Paquetá, última etapa da metodologia Elos: moradores e participantes avaliam os proximos passos para o território (foto: Arquivo pessoal/Paulo Pereira)

Sofia voltou ao DF no início de agosto. A casa quieta. A rotina, larga demais. “Eu converso com as pessoas, e elas não viveram o que eu vivi. Quero falar sobre coisas que, às vezes, a galera não entende.” Faz uma pausa. “Sofia de antes, Sofia de depois — é brega, mas é transformador.” 
Na mala de volta, no lugar que o pandeiro ocupava, veio um manual com sete passos — olhar, afeto, sonho, cuidado, milagre, celebração, revolução. É o Jogo Oásis, ferramenta do Instituto Elos que condensa a metodologia em quatro finais de semana. Reconhecido como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil, foi aplicado em mais de 200 comunidades desde 2003 — quando foi jogado pela primeira vez no mesmo bairro do Paquetá, onde Sofia atuou 23 anos depois. 
Sofia e voluntários da Florescer durante ação na Organização W6, em São Sebastião: projeto reúne cerca de 600 membros
Sofia e voluntários da Florescer durante ação na Organização W6, em São Sebastião: projeto reúne cerca de 600 membros (foto: Arquivo pessoal/Isabela Maria)

A Florescer 

Sofia não chegou a Santos sem bagagem. Nascida em Piracicaba, no interior de São Paulo, veio criança para Brasília. Em 2023, aos 17 anos, no 3º ano do ensino médio, participou da Missão Solidária Marista, ação do Colégio Marista Asa Sul, de Brasília, realizada em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Voltou decidida a agir. Ao lado do namorado, Cauã Vilela, estudante de administração na UnB, criou a Florescer. Não tinha estatuto nem plano. Tinha vontade. 
A primeira ação foi pintar a sede da Casa de Paternidade, na Estrutural. Depois, vieram creches na região, um centro comunitário em Ceilândia e um abrigo em Ponte Alta Norte. Hoje, a Florescer atua no Projeto Farol, em São Sebastião, e na Casa de Paternidade, na Estrutural. Reúne cerca de 600 membros, promove o acesso ao lazer e à cultura para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e faz revitalização de praças. Completa três anos em 26 de agosto, ainda sem Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) — as doações entram via Pix em nome de Sofia. 
Em 2025, reencontrou, sem planejar, crianças que haviam participado de uma ação da Florescer em São Sebastião. Fazia um ano e meio desde o último encontro, mas elas vieram correndo: “Tia, eu lembro de você no Natal! Obrigada pelo caderno.” O caderno custava pouco. As crianças lembraram. 
O que muda, agora, é a forma de chegar. Sofia está organizando um encontro para apresentar o que aprendeu à equipe da Florescer e às líderes comunitárias com quem trabalha — as responsáveis pelas creches. Quer redefinir os próximos passos com elas, não para elas. “A gente se envolve com as crianças, mas e as famílias? E os moradores, os empreendedores? Eu procuro ouvir o que eles querem”, diz. “A Florescer vai passar por uma remodelação.” Os primeiros territórios em vista para o Jogo Oásis são São Sebastião, Estrutural e Ceilândia. Cauã, que ficou em Brasília durante a imersão, quer participar. 
Entre aulas todas as manhãs, fins de semana dedicados à Florescer e um projeto de pesquisa germinando na UnB, Sofia reconhece que acumula demais. Mas recusa a queixa. “Eu moro num lugar legal, minha família é boa. Tem gente que passa por muito pior, e está sorrindo e lutando. Eu me guio por essas pessoas.” Sobre a filha, a mãe resume: “Ela sempre teve um coração maior do que cabia nela.” 
* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá  

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