Carreira longeva

Restaurante Roma: garçons pioneiros preservam história na W3 Sul

Inaugurado antes da própria capital, tradicional estabelecimento do DF tem sua memória e excelência mantidas por profissionais com até 40 anos de casa

Marília Milhomen
postado em 30/08/2026 06:00 / atualizado em 30/08/2026 06:00
Antonio Sipaúba (Calvo), Manuel Leite (mais cabelo Branco) e Jose Rodrigues (mais Alto).  -  (crédito: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)
Antonio Sipaúba (Calvo), Manuel Leite (mais cabelo Branco) e Jose Rodrigues (mais Alto). - (crédito: Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press)

Para quem viu Brasília nascer, a W3 Sul foi o primeiro cenário do desenvolvimento comercial da nova capital. O tempo passou, e o espelho da modernidade trouxe o silêncio onde antes ecoavam risos e brindes, fechando portas e mudando destinos. Em meio a essa melancolia do tempo, o Restaurante Roma resiste às gerações. Inaugurado em 15 de abril de 1960, seis dias antes da própria capital, o Roma guarda o sabor e o aconchego da comida temperada de histórias.

Nos anos dourados de 1960, os clientes faziam filas na porta, e mais de 200 pizzas saíam do forno a cada noite. Sob as luzes daquela época, grandes personalidades como Tônia Carrero, Fernando Henrique Cardoso e Waldick Soriano passaram pelas mesas do local. E cuidando desse legado, como eternos guardiões do Roma, seguem firmes Antônio Sipaúba, Manoel Leite da Silva e José Rodrigues de Moraes, mantendo viva a tradição do bem-servir.  

A prata da casa

Antonio Sipalba
Antonio Sipaúba (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Do convite de um amigo, ao sonho da nova capital. Antônio Sipaúba, 70 anos, viu sua vida mudar em poucos dias. “Eu estava em casa, no interior do Ceará, e um amigo me perguntou se eu não queria vir trabalhar aqui. Como eu já tinha 18 anos, só juntei minhas coisas e estou aqui até hoje.” A viagem foi longa, e ele chegou às quatro horas da manhã, em Taguatinga. O trabalho não esperou o dia amanhecer e, às seis, as mangas já estavam arregaçadas. Seu primeiro emprego foi no Hotel Nacional. Entre o concreto fresco e a utopia de JK, Sipaúba começou por baixo. “Iniciei como ajudante de limpeza. Após três meses, me realocaram para a cozinha, e o próprio dono do restaurante me promoveu a garçom, e eu trabalhei lá até agosto de 1978, quando ocorreu o incêndio no hotel.” 

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Conhecido pela seriedade no serviço, foi indicado para trabalhar no Brasília Palace Hotel, mas a sua vontade era conhecer ares diferentes, e saiu de porta em porta até encontrar uma nova oportunidade numa churrascaria. “Fiquei lá por dois anos, mas saí com minha dignidade e cabeça erguida”, lembra. O acolhimento e o sentimento de pertencimento o levaram ao Restaurante Roma. “Aqui eu encontrei uma família. Fui muito bem recebido, e estou há 40 anos, ou seja, mais da metade da minha idade. Todos os clientes daqui são especiais, e eu posso usar os meus dois temperos: amor e carinho.”  
Pai de quatro filhos, dois homens e duas mulheres, Sipaúba construiu a vida ao redor das mesas que serve e das muitas histórias que passaram pelo restaurante. Quando perguntado sobre aposentadoria ou cansaço, ele sorri com a sabedoria de quem domina o tempo. O gás já não é 100%, mas aprendeu a poupar as energias com maestria, e não pensa em parar. “Quem vai pensar nisso é Deus.” 
O que mantém Sipaúba jovem e ainda com forças para carrear bandejas é a sua capacidade de abraçar as mudanças. Ele viu a Brasília dos anos 1970, cruzou a capital dos anos 1970/1980, e hoje divide o salão com os jovens da nova era. Para ele, mais do que reviver o passado é acolher o presente. “Eu convivo em perfeita harmonia com as diversas gerações. Celebro o esforço dos mais novos que chegam para somar”, lembrou. No Restaurante Roma, Sipaúba define-se como uma verdadeira “prata da casa”: um patrimônio vivo, uma receita de humanidade que o tempo não apaga, mas consagra. 

O legado de quem aprendeu a ficar 

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Manoel Leite da Silva (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Antes de conhecer Brasília, Manoel Leite da Silva,73 anos, soube o que é a necessidade. Paraibano, chegou à capital ainda jovem, disposto a trabalhar e construir uma vida. O primeiro emprego, porém, não foi exatamente como imaginava. Dormia na própria obra, passava a semana longe de casa e enfrentava uma rotina pesada na construção civil. 
Depois de nove meses, decidiu voltar para a Paraíba. Mas a realidade o fez retornar. Sem dinheiro para a viagem, contou com a ajuda do pai e de um tio. Prometeu que devolveria o valor assim que recebesse o primeiro salário. Cumpriu a promessa em apenas dois meses.
Em Brasília, a oportunidade apareceu novamente, mas desta vez, em um restaurante. O universo novo da gastronomia chamou a atenção, mas ele decidiu tentar, e não foi o que pensava. Depois de ser dispensado de um emprego, saiu em busca de uma nova oportunidade. Entrou em botecos, padarias e pequenos estabelecimentos. Encontrou cinco possibilidades, mas escolheu aquela que lhe parecia oferecer mais estabilidade, o Restaurante Roma. “Fiz a entrevista em um dia, e o dono pediu que eu voltasse no outro. 
Cheguei mais cedo, e ele não lembrava de ter me contratado, mas me deixou ficar” disse. Hoje, ao olhar para trás, Manoel não conta apenas a história de uma carreira. Narra a história de uma família construída enquanto ele trabalhava. Casado e pai de duas filhas, enfrentou jornadas que começavam pela manhã e, em determinados períodos, avançavam madrugada adentro. Fins de semana, feriados e noites também faziam parte da rotina. “Elas sempre souberam da minha rotina e se adaptaram a isso. Alguns dias da semana, quando querem me ver, elas almoçam aqui e é sempre especial.” 
As filhas cresceram enquanto ele trabalhava. “Aos oito anos, minha filha falou que sempre fazia sozinha as coisas que as colegas faziam com os pais. Quando eu chegava em casa, ela já estava dormindo, e eu saía antes dela acordar. Foi assim a vida toda.” 
O atendimento aos clientes é a parte da vida de Manoel, e o tempo construiu vínculos. “Tem clientes que entram no estabelecimento procurando ser atendido por um determinado garçom. Alguns clientes antigos, a gente já sabe que gostam de conversar, e quando chegam calados, sabemos que algo aconteceu” afirmou. Décadas depois de chegar a Brasília sem saber exatamente o que encontraria, o guardião construiu ali uma parte importante de sua vida. Criou duas filhas, tornou-se avô, enfrentou jornadas difíceis, deixou de acompanhar momentos que gostaria de ter vivido e, ainda assim, continuou. Hoje, a rotina de Manoel é diferente. Os horários mudaram, e a jornada se tornou mais equilibrada. Depois de tantos anos, ele consegue reconhecer as transformações. “Gosto muito de trabalhar aqui, a empresa é muito boa e tenho orgulho de atender cada cliente.” 

A seca, o Exército e a família no trabalho 

O cearense José Rodrigues Moraes construiu uma clientela fiel, formada por gente que frequenta o restaurante há muitos anos e por jovens
O cearense José Rodrigues Moraes construiu uma clientela fiel, formada por gente que frequenta o restaurante há muitos anos e por jovens (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Com o olhar sempre atento e postura firme, José Rodrigues de Moraes, 69 anos, mostra o que a vida lhe ensinou. Ainda no Ceará, ele vivia da roça, plantando mandioca e algodão. Gostava daquela vida, até que uma seca severa, em 1968, alterou seus planos. Um amigo que havia se mudado para Brasília o convidou para tentar a vida na capital. Sem documentos e sem grandes certezas sobre o futuro, ele aceitou. Foi assim que chegou a Brasília e, pouco depois, sem a dispensa militar, foi incorporado às fileiras do Exército Brasileiro, onde permaneceu por três anos. Ali, descobriu que disciplina, responsabilidade e dedicação poderiam abrir novos caminhos. “Um subtenente gostou muito da minha postura e do meu desempenho, fiquei trabalhando com ele por três anos. Até que, um dia, quis experimentar outra vida e pedir para sair.” 
Depois do Exército, vieram outros trabalhos. Atuou na segurança de ministros, mas percebeu que aquela rotina de mudanças constantes não combinava com ele. “Um grande amigo me perguntou se eu queria trabalhar em um restaurante aos finais de semana. Aceitei a proposta e estou aqui até hoje”, disse. 
O que começou como uma experiência acabou se transformando em uma história de décadas. Moraes queria ser cumim, que é o ajudante do garçom, e conseguiu a vaga. Pouco tempo depois, aprendeu a servir mesas, preparar o salão e aprendeu cada detalhe da rotina do restaurante. Recebeu uma oportunidade para permanecer e decidiu ficar. 
Ao longo dos anos, muita coisa mudou. O restaurante, a cidade, os clientes e, principalmente, as relações de trabalho. Mas, para Moraes, essa relação não é apenas profissional. “Nós que somos mais antigos conhecemos o temperamento uns dos outros. Sabemos quando alguém não está bem, quando precisa de espaço e quando uma brincadeira pode aliviar um dia difícil. Somos uma família.” José aprendeu, sobretudo, a respeitar espaços e silêncios. A convivência é construída no dia a dia, no reconhecimento de um rosto, na lembrança de um pedido e até mesmo na percepção silenciosa de como cada cliente gosta de ser tratado. “Não tem isso em lugar nenhum em Brasília. Só aqui, e isso é muito especial pra gente”, disse. Moraes construiu uma clientela fiel, formada por pessoas que frequentam o restaurante há muitos anos e também por novas gerações que chegam por indicação. Para todos, existe uma mesma receita: paciência. 
Hoje, Moraes olha para trás sem esconder que gostaria de voltar aos 50. “Não necessariamente para mudar tudo, mas para viver aquela época com a maturidade que só o tempo é capaz de oferecer.” 
Entre lembranças, existe, também, uma história familiar que carrega uma ponta de arrependimento. O filho se casou, mas ele não pôde estar presente porque estava trabalhando. Hoje, os dois mantêm contato e são amigos, embora a relação tenha mudado com o passar dos anos. “Temos que ser felizes com o que temos. Temos que ser gratos pelo que temos.” José aprendeu o sentido da vida. 

Quando gerações se encontram 

Ao lado dos trabalhadores mais antigos estão jovens que ainda estão começando a construir suas próprias histórias. A convivência entre as gerações provoca reflexões sobre diferentes formas de enxergar o trabalho e a vida. Para os mais antigos, permanecer significava resistir, criar raízes e garantir o sustento da família. Para os mais jovens, o trabalho também precisa dividir espaço com qualidade de vida, novos sonhos e outras possibilidades. 
Os mais velhos carregam consigo a lembrança de quando trabalhar significava, muitas vezes, abrir mão de momentos importantes. Os mais jovens chegam com outra perspectiva, buscando equilibrar profissão, vida pessoal e futuro. Mas, entre uma geração e outra, existe algo que permanece: a vontade de construir uma vida melhor.(MM) 

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