JORNADA DE TRABALHO

Fim da 6x1 exige mais contratações em setores que não podem parar

Saúde, comércio e hotelaria terão de reorganizar turnos e ampliar equipes; automação pode aliviar parte da pressão, mas em operações contínuas o impacto sobre o custo da mão de obra é inevitável

Fernanda Strickland
postado em 13/09/2026 06:00 / atualizado em 13/09/2026 06:00
Laura Ferreira, supervisora de loja:
Laura Ferreira, supervisora de loja: "é sobre ter mais tempo de qualidade para viver bem" - (crédito: Arquivo Pessoal)

A aprovação do fim da escala 6x1, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, amplia a discussão sobre os efeitos de uma eventual redução da jornada de trabalho para empresas e trabalhadores. Enquanto empregados podem ganhar mais tempo de descanso e qualidade de vida, setores que não podem interromper suas atividades precisarão encontrar formas de manter o funcionamento sem reduzir o atendimento.

Saúde, comércio, hotéis, bares e restaurantes estão entre as áreas que devem enfrentar os maiores desafios de adaptação. São atividades que, em muitos casos, funcionam aos fins de semana, durante longos períodos do dia ou até 24 horas. Para especialistas, a mudança deverá passar por uma combinação de novas escalas, reorganização dos turnos, aumento de equipes, tecnologia e revisão de processos. 
Leia também:
A supervisora de loja Laura Ferreira vê a mudança, principalmente, pelo lado do trabalhador. Para ela, a atual rotina pode provocar desgaste físico e mental e limitar o tempo dedicado à vida pessoal. “Trabalhamos 8, 9 ou até 10 horas por dia e, quando percebemos, estamos deixando de viver momentos e etapas importantes da nossa própria vida”, afirma. 
Caroline Nogueira: atividades que dependem da presença de empregados terão mais impacto
Caroline Nogueira: atividades que dependem da presença de empregados terão mais impacto (foto: Arquivo Pessoal)
Laura defende que o fim da 6x1 representa mais do que uma alteração na quantidade de dias trabalhados. “O fim da escala 6x1, para mim, não é simplesmente sobre trabalhar menos, é sobre ter mais tempo de qualidade para viver bem.” 
A preocupação das empresas, porém, está em como garantir que a redução da jornada não resulte em interrupção dos serviços. Caroline Nogueira, diretora executiva da Premium Essential Kitchen, afirma que o impacto tende a ser maior justamente nas atividades que dependem da presença contínua dos trabalhadores. “É muito diferente reduzir a jornada de uma atividade administrativa e fazer isso em uma operação que precisa funcionar sete dias por semana, por muitas horas ao dia”, explica. 
Segundo Caroline, alimentação coletiva, saúde, hotelaria, varejo, logística, segurança e limpeza precisam manter postos cobertos durante todo o período de funcionamento. No segmento de alimentação, por exemplo, não seria possível simplesmente interromper o serviço porque determinada equipe atingiu sua jornada semanal. 

Atenção especial 

Advogado Luis Henrique diz que o custo da hora trabalhada, necessariamente, vai aumentar
Advogado Luis Henrique diz que o custo da hora trabalhada, necessariamente, vai aumentar (foto: Arquivo Pessoal)

Na saúde, a adaptação apresenta particularidades. Segundo o advogado Luis Henrique Borrozzino, sócio do M3BS Advogados e membro da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/SP, parte relevante da assistência hospitalar utiliza jornadas diferenciadas, especialmente a escala 12x36. Por isso, afirma, não seria adequado simplesmente substituir toda a operação por uma escala 5x2. A saúde também não se limita às atividades realizadas à beira do leito. Hospitais, clínicas, laboratórios e operadoras possuem estruturas administrativas e de apoio que também serão afetadas por uma eventual redução da jornada. 
Para manter uma unidade funcionando 24 horas, será necessário considerar tanto os empregados próprios quanto os terceirizados. Limpeza, segurança, alimentação e manutenção, por exemplo, também precisam acompanhar a operação. “Em muitos casos”, afirma Borrozzino, poderá ser necessário contratar mais profissionais, embora o primeiro passo deva ser a reorganização das escalas e a busca por ganhos de produtividade. 
O especialista alerta, ainda, para um possível efeito sobre a disponibilidade de mão de obra. A saúde já enfrenta escassez de profissionais qualificados em determinadas funções e regiões. Se hospitais e empresas precisarem ampliar suas equipes simultaneamente, a disputa pelos mesmos trabalhadores poderá aumentar, pressionando salários e dificultando contratações. 
Borrozzino também aponta que a automação pode ganhar espaço, principalmente nas atividades de apoio. Atendimento, autorizações, faturamento, logística e tarefas administrativas estão entre as áreas com maior possibilidade de utilização de tecnologia. Na assistência direta, entretanto, a substituição de trabalhadores é mais limitada. 

Reorganização de turnos 

Sebastião Abritta, do Sindivarejista/DF, defende mais debate sobre a mudança da escala
Sebastião Abritta, do Sindivarejista/DF, defende mais debate sobre a mudança da escala (foto: Ed Alves CB/DA Press)

No varejo, o desafio está especialmente relacionado às lojas que permanecem abertas durante toda a semana. De acordo com Ylana Miller, especialista em gestão de pessoas, a redução da jornada e a garantia de dois dias de descanso exigirão uma reorganização da cobertura. “O varejo é um dos segmentos mais expostos à transição trabalhista”, afirma.O presidente do Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista-DF), Sebastião Abritta, pontua que é necessário ter mais debates sobre o assunto. “Pensamos que não é o momento de votar no fim da escala antes de ter mais conversas sobre como vai funcionar. Estamos preocupados com o que pode acontecer com os empresários, visto o cenário do país”, afirma. 
Lojas físicas abertas aos fins de semana poderão precisar de mais funcionários, divisão de turnos mais estruturada e investimentos em autoatendimento. Outra possibilidade apontada por Ylana é uma integração maior com o comércio eletrônico, reduzindo parte da dependência do atendimento presencial.
Ylana Miller ressalta que o descanso de dois dias vai exigir uma reorganização da cobertura
Ylana Miller ressalta que o descanso de dois dias vai exigir uma reorganização da cobertura (foto: Arquivo Pessoal)
Caroline Nogueira também considera o comércio entre os setores mais afetados, porque não é possível simplesmente reduzir o horário de funcionamento na mesma proporção da jornada individual. Uma das alternativas seria investir em “engenharia de escala”, com equipes complementares, jornadas alternadas e turnos planejados de acordo com os períodos de maior demanda. 

Sem pausa 

Na hotelaria, a dificuldade está em serviços que não podem ser interrompidos. Governança e segurança, por exemplo, precisam garantir cobertura independentemente dos dias de descanso dos funcionários. Ylana aponta que a hotelaria combina essa necessidade de funcionamento contínuo com custos fixos elevados. Nesse cenário, serviços digitais podem ajudar a minimizar parte da pressão provocada pela necessidade de ampliar equipes. 
Para Caroline, a lógica é semelhante à observada em outros setores de operação contínua: se o trabalhador passa a ficar disponível por menos dias, a empresa precisará reorganizar as equipes e, em determinados contratos, aumentar o quadro para preservar a mesma cobertura. Bares e restaurantes também aparecem entre as atividades mais sensíveis à mudança. São estabelecimentos que frequentemente concentram movimento em horários específicos e precisam de equipes completas justamente nos períodos de maior demanda. 
A diretora destaca que as atividades de alimentação dependem fortemente da presença física dos profissionais. Em uma cozinha industrial, por exemplo, é necessário produzir, servir, higienizar e atender dentro de horários determinados. “A tecnologia pode tornar esses processos mais eficientes, mas não elimina completamente a necessidade de pessoas para garantir a operação”, afirma. 

Custo da hora 

 Frederico Zornig, CEO da Quantiz Pricing Solutions
Frederico Zornig, CEO da Quantiz Pricing Solutions (foto: Arquivo Pessoal)

Para Luis Henrique Borrozzino, se a jornada passar de 44 para 40 horas semanais com manutenção integral dos salários, o custo da hora trabalhada, necessariamente, aumentará. Isso, porém, não significa que o custo total da operação crescerá na mesma proporção. Produtividade, tecnologia e reorganização das escalas podem compensar parte do impacto. A dificuldade tende a ser maior nas atividades intensivas em mão de obra que precisam funcionar continuamente. 
Frederico Zornig, CEO da Quantiz Pricing Solutions, também avalia que a redução da jornada não significa, necessariamente, aumento de custos em todos os casos, mas reconhece que haverá pressão, principalmente, quando não houver ganho proporcional de produtividade. O impacto pode ainda se espalhar pela cadeia produtiva. Empresas que terceirizam limpeza, segurança, logística, manutenção ou atendimento podem receber reajustes de fornecedores que também terão de adaptar suas estruturas de custos. 
Flávio Sahib alerta que uma ampliação das equipes representa mais encargos trabalhistas
Flávio Sahib alerta que uma ampliação das equipes representa mais encargos trabalhistas (foto: Arquivo Pessoal)
Flávio Sahib, cofundador da ColaboRHa, chama atenção para as despesas que vão além dos salários. Uma eventual ampliação das equipes também pode representar mais encargos trabalhistas, benefícios, recrutamento, treinamento, uniformes, equipamentos de proteção, gestão de ponto e custos relacionados à adaptação dos novos profissionais. 
A tecnologia aparece como uma das alternativas para reduzir parte da pressão sobre as empresas. Segundo Sahib, a mudança pode acelerar investimentos em automação, especialmente quando a redução da jornada aumentar a necessidade de mão de obra para manter o funcionamento. No atendimento, por exemplo, ferramentas de inteligência artificial, chatbots e totens de autoatendimento podem reduzir a necessidade de determinadas funções. Na área administrativa, automação de processos também pode alterar a demanda por profissionais.  
Mas o efeito não necessariamente será apenas de substituição. Sahib ressalta que mais dias de descanso podem contribuir para reduzir absenteísmo e rotatividade, além de facilitar a atração e retenção de trabalhadores. 
Caroline segue a mesma linha e avalia que o cenário mais provável seja uma combinação entre tecnologia e contratação. “As empresas vão buscar cada vez mais eficiência e produtividade para absorver parte do impacto da redução da jornada, mas, em determinadas operações, isso não será suficiente, e também poderá haver necessidade de novas contratações.” 

Novas escalas  

A substituição da escala 6x1 não deverá resultar em um único modelo para todos os setores. Entre as possibilidades apontadas pelos especialistas, estão escalas 5x2, turnos alternados ou sobrepostos, equipes específicas para finais de semana, sistemas de compensação e, quando aplicável, a escala 12x36. 
Para Ylana, também podem ser consideradas escalas 6x2 e 4x3, desde que haja reforço ou sobreposição de equipes para garantir a continuidade da operação. Na avaliação de Borrozzino, a flexibilidade será fundamental. Uma escala adequada para um escritório pode não funcionar em um hospital, supermercado, empresa de segurança ou serviço de transporte. 
O desafio, portanto, será conciliar o ganho de descanso para os trabalhadores com a necessidade de manter serviços funcionando sete dias por semana ou 24 horas por dia. Para Laura Ferreira, a discussão parte, justamente, da necessidade de encontrar esse equilíbrio. Mais tempo livre, segundo ela, significa recuperar uma dimensão da vida que, muitas vezes, fica em segundo plano diante da rotina profissional. 
“Enquanto estamos trabalhando, a vida continua acontecendo”, afirma. “Precisamos de mais tempo para descansar não apenas o nosso corpo, mas também a nossa mente. Precisamos de tempo para viver, para cuidar de nós mesmos, para estar com quem amamos e para construir uma vida que não seja resumida apenas ao trabalho.” 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação