João Pedro de Lara Resende
postado em 20/09/2026 06:00 / atualizado em 20/09/2026 06:00
Daniel Agustinho garantiu a vaga na 3ª etapa - (crédito: Arquivo Pessoal)
O Programa de Avaliação Seriada (PAS), da Universidade de Brasília (UnB), celebra 30 anos da primeira prova, aplicada em 1996. Três anos depois, em 3 de março de 1999, cinco estudantes do Colégio Objetivo, em Brasília, receberam a notícia de que haviam sido aprovados na UnB. Não pelo vestibular tradicional, mas por uma modalidade de ingresso que nenhuma outra universidade federal do país oferecia até então. Tinham entre 17 e 18 anos e não sabiam ao certo o que viria depois.
O Correio reencontrou e ouviu três integrantes daquele grupo (os outros dois foram localizados, mas não participaram). Hoje, seguem caminhos distintos: um pesquisador da Petrobras, em Petrópolis; outro é auditor fiscal do governo federal, em Brasília; e o terceiro trabalha com genômica em Bethesda, nos arredores de Washington, nos Estados Unidos. A mesma porta, três destinos.
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Quando entrou na UnB, em 1999, Manoel Augusto Soares Jr. não sabia exatamente o que esperar. “A experiência foi incrível e, ao mesmo tempo, desafiadora. Foram várias mudanças, especialmente em relação ao amadurecimento e às responsabilidades. Lembro que foi muito, muito legal”, conta.
Ele havia feito um teste vocacional no terceiro ano, que indicou aptidão para as ciências agrárias. “Gostava muito de assuntos ligados ao campo.” Passou no PAS para agronomia e, no mesmo ano, também no vestibular tradicional para medicina veterinária. Escolheu o segundo. “Um sonho realizado; a UnB sempre foi muito respeitada”, lembra. Mesmo tendo entrado pelo vestibular, atribui ao PAS parte do caminho: “A aprovação me garantiu tranquilidade para fazer o vestibular tradicional, e isso fez diferença na prova.”
Formou-se em julho de 2004. Dois meses antes, tinha feito o concurso para Auditor Fiscal Federal Agropecuário do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), ao lado de um professor que não passou. Não estudou para a prova: estava terminando o estágio e a monografia. Passou.
A aprovação dependeu de uma decisão que ele mesmo não sabia explicar: um semestre antes, havia adiado voluntariamente a formatura. “Uma vontade íntima aparentemente sem sentido”, diz. Naquele semestre extra, cursou uma optativa de controle de produtos biológicos e, meses depois, três questões do concurso caíram exatamente sobre esse conteúdo. Ele acertou as três, cada uma valendo três pontos. “Se tivesse errado apenas uma das questões, eu não teria sido aprovado. No meu caso, posso dizer que, literalmente, atrasei meu curso para passar no concurso”, resume.
Começou a carreira no norte do Tocantins e, anos depois, voltou a Brasília por remoção interna. Hoje, trabalha no Serviço de Inspeção Federal, tem 45 anos, é casado e pai de quatro filhos: Pedro, 9; Paulo, 8; Helena, 7; e Marco Antônio, 4. Conheceu a esposa num evento na UnB, já depois de formado.
Sobre o PAS, não fala por nostalgia: “O programa ajudou no amadurecimento durante o segundo grau, incentivando a fazer o ensino médio com mais seriedade.” Deixa, também, um conselho a quem vai prestá-lo agora: “Não tenho dúvidas de que vale a pena, mas a preparação e a dedicação devem começar cedo.”
Ele resume os ganhos concretos do programa: “Há uma série de vantagens: cobrança gradual do conteúdo, garantia mínima de vagas (na minha época, 50%) e estímulo ao amadurecimento do aluno. Por fim, mesmo que você não seja aprovado, já terá tido pelo menos três boas oportunidades reais de aprendizado, que o ajudarão a passar no vestibular tradicional ou no Enem.”
Quando voltou à UnB para as fotos desta reportagem, os sentimentos vieram juntos. “Voltar despertou nostalgia, pelas boas lembranças e experiências da época da faculdade; e gratidão, afinal, tudo que consegui e conquistei na vida adulta começou ali”, diz. No contexto do PAS, completa: “O PAS foi um dos bilhetes de entrada.
Do trote ao hidrogênio
Aos 18 anos, André Reinaldo Novgorodcev foi aprovado no curso de engenharia mecânica da UnB. Na escola, muito focada em aprovações, a importância do PAS era sempre reforçada, lembra o atual pesquisador da Petrobras.
Conta que, antes de o semestre começar, os veteranos organizaram o trote: um deles tinha na mão o exemplar do Correio com a entrevista que André havia dado, meses antes, junto com os outros quatro pioneiros. Na reportagem, um deles dissera que não estudara tanto assim, e os veteranos decidiram cobrar. “Toda vez que jogavam farinha ou tinta nos calouros, jogavam duas vezes em mim”, recorda.
André guardou o exemplar impresso: “Não é todo dia que tem uma reportagem sua no jornal. É algo relevante; merece ser lembrado.”
A vocação pelo curso começou cedo. “Desde criancinha, sempre gostei de Lego, sempre fui curioso para saber como as coisas funcionam. Depois fui me dando bem com física e matemática, e a engenharia era o caminho natural.” Na faculdade, uma bolsa de iniciação científica em turbinas hidrocinéticas o levou ao campo em que trabalha até hoje: geração de energia.
Ainda na UnB, conquistou uma bolsa de mestrado sanduíche (um período do curso realizado no exterior) com estadia prevista de quatro meses em Lyon, na França. A aprovação atrasou, e a viagem só saiu no último semestre do curso. Um mês depois de chegar, veio o telegrama. “Liguei para casa numa sexta-feira, e minha mãe me disse que tinha chegado um telegrama da Petrobras e que eu tinha que apresentar os documentos na terça-feira”, relembra. Não concluiu o mestrado à época. Voltou ao Brasil, passou pela formação técnica da estatal e escolheu, na banca final, a gerência de pesquisa e desenvolvimento em energias renováveis do Centro de Pesquisas da companhia (CENPES).
Terminou o mestrado na PUC- -Rio, sobre hidrogênio em turbinas a gás, e iniciou, em 2019, o douto- rado em Delft, nos Países Baixos, sobre armazenamento de energia. Hoje, André representa a Petrobras, maior produtora e consumidora de hidrogênio do Brasil, nas comitivas brasileiras do International Partnership for Hydrogen and Fuel Cells in the Economy (IPHE).
Morou no Rio de Janeiro. Anos depois, André se estabeleceu em Petrópolis, na serra fluminense, com a esposa e dois filhos, de 12 e 16 anos. As famílias dele e de sua esposa continuam na capital federal. “Eu amo essa cidade; costumo ir uma vez por ano”, diz. O laço com a UnB também está retomando: o Cenpes acaba de firmar uma parceria com a engenharia mecatrônica da universidade.
Sobre sua trajetória pessoal e profissional, repete o que disse em entrevista anos atrás ao Correio: “Não tenho do que me arrepender. Cada mudança vem com muito aprendizado, e minha família sempre está comigo.” Sobre o PAS de hoje, recomenda: “Levem esse processo a sério, pois a concorrência é menor do que a do vestibular tradicional.
De Brasília a Bethesda
Daniel Paiva foi aprovado em biologia, mas a vaga só veio na última fase do programa, depois de um terceiro ano de muita ansiedade. “Foi uma alegria e um alívio muito grandes. Eu tinha ido bem no primeiro e no segundo ano do PAS, mas só na última fase garanti mesmo a minha vaga”, lembra.
Na entrevista que deu ao Correio em 1999, aos 17 anos, disse que queria se especializar em engenharia genética: “achava o conceito fas cinante, embora não tivesse muita ideia do que se tratava”, conta hoje.
o doutorado em patologia molecular na UnB. Em nova matéria ao jornal, naquele ano de 2011, expressou a vontade de deixar o país “enquanto ainda fosse possível”
Duas promessas
Em 2012, fez doutorado sanduíche em Viena, na Áustria, com bolsa da Capes. Ali conheceu a bioinformática: a aplicação da biologia e da computação à análise de dados genéticos em larga escala. Depois, vieram um breve pós-doutorado em Nova Iork e outros seis anos na Washington University em St. Louis
Em 2022, o Baylor College of Medicine (BCM), em Houston, o chamou para um trabalho 100% focado em bioinformática. Daniel pesquisa dados genéticos de vírus, fungos e outros micro-organismos causadores de doenças, com foco em vírus respiratórios, como o VSR e o SARS-CoV-2, realizando vigilância genômica em pacientes e no esgoto. Atua na instituição de forma remota, morando em Bethesda, nos arredores de Washington, a mais de dois mil quilômetros do emprego, para o qual viaja uma ou duas vezes por ano. Tem 45 anos, é casado e pai de um filho.
Ao falar sobre ser um brasiliense vivendo no exterior, Daniel cita a saudade de casa, da cultura, da música, da culinária e, sobretudo, da família. E complementa: “O período da covid-19, em particular, foi muito intenso. Como tantos, eu perdi pessoas da minha família e não pude voltar imediatamente para me despedir.”
Ele diz que permanecer no exterior pareceu a opção mais lógica. “Eu não tinha nenhuma perspectiva real de emprego no Brasil, num momento em que a ciência brasileira sofria cortes sucessivos. Então, ficar fora do país me pareceu o caminho mais óbvio”, explica.
Compreende o PAS como uma porta de entrada para sua trajetória profissional, contudo, faz uma ressalva quanto ao programa que o levou à UnB: “Tenho um certo desconforto em transformar isso numa narrativa de mérito individual. Passei no PAS e daí muita coisa aconteceu, mas se eu tivesse nascido em outro CEP, provavelmente não estaria dando essa entrevista. O que me marca hoje é menos o começo da minha trajetória e mais quantas trajetórias parecidas com a minha não aconteceram por falta da mesma porta.
Para ele, o gargalo brasileiro está antes da porta da universidade. “O sistema seleciona muito bem entre os que chegam ao vestibular, mas quem chega ainda é, em larga medida, quem teve acesso a uma boa escola antes. As cotas ajudaram a corrigir parte disso, mas não substituem o investimento pesado que precisa ocorrer no ensino público fundamental e médio”, avalia.
Embora expresse tal preocupação, Daniel reconhece os benefícios do sistema de ensino superior brasileiro em comparação com o estadunidense. “O Brasil acertou em muita coisa que os Estados Unidos ainda não conseguiram resolver. O acesso ao ensino superior público e gratuito é uma conquista social enorme, especialmente quando comparado à realidade americana, onde um estudante sai da faculdade com dívidas que podem passar de 100 mil dólares e levar décadas para serem quitadas”, diz.
Para quem pensa em seguir caminho parecido, Daniel avisa: “Ciência boa se faz em muitos lugares, inclusive no Brasil. Ir para fora amplia horizontes, mas não te torna automaticamente um pesquisador melhor. O que te torna um melhor pesquisador é o trabalho, e isso você leva para onde for.” E acrescenta o preço que quase ninguém conta: “Você perde coisas que só percebe depois, como a distância da família, o aniversário do sobrinho por videochamada e a sensação de estar em casa. Se for, vá sabendo dos dois lados. E não ache que voltar é fracasso, porque não é.”
Apesar da experiência compartilhada na juventude, o contato entre os três não é mais constante. André mantém conversa regular apenas com Manoel, que segue na capital federal. Daniel, dos Estados Unidos, diz que ainda fala com os colegas “de vez em quando” pelas redes sociais. “Mudar de país faz você perder um pouco do contato com muita gente”, avalia.
Alternativa
Três histórias. Uma porta aberta há 30 anos. André, Manoel e Daniel fizeram parte dos primeiros 991 aprovados pelo Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS/UnB) em 1999. De lá para cá, a modalidade se expandiu. A mudança mais estrutural ocorreu em 2017: a UnB passou a destinar metade de todas as vagas de graduação aos aprovados pelo PAS, que deixou de ser uma via secundária para se tornar o principal mecanismo de ingresso da instituição, posição mantida até hoje. Em 2026, a Resolução 130/2026 determinou que, a partir de 2029, a oferta de vagas do programa será concentrada no primeiro semestre letivo.
“O PAS tirou o peso de ter uma só prova, de ter o futuro definido num só momento. Você podia ir mal durante um ano letivo e se recuperar no ano seguinte. A maioria dos colégios te preparava pra uma prova, não pra aprender. Isso matava a curiosidade dos estudantes”, explica Daniel. E conclui: “O PAS me deu a chance de continuar curioso na idade em que o vestibular normalmente ensina a gente a parar.”
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá