Gabriela Santos*
postado em 25/10/2026 06:00 / atualizado em 25/10/2026 06:00
. - (crédito: Arquivo Pessoal/Reprodução)
Uma geração que cresce cercada por profundas transformações tecnológicas, mas que ainda esbarra em barreiras históricas de desigualdade e insegurança. Esse é o retrato desenhado pelo estudo global Education Monitor 2026, realizado pelo Institut Public de Sondage d’Opinion Secteur (Ipsos) em 31 países, na plataforma on-line Global Advisor, entre 19 de junho e 3 de julho. A Ipsos entrevistou um total de 23.537 adultos entre 16 e 74 anos. A amostra do Brasil é composta por, aproximadamente, 1.000 indivíduos. Os dados revelam que, no Brasil, o otimismo em relação ao futuro convive lado a lado com o ceticismo sobre as oportunidades internas e a preparação do sistema educacional para um mercado de trabalho em rápida mutação.
Enquanto 39% dos brasileiros acreditam que jovens de origem mais pobre têm um futuro promissor, 54% discordam. Para o professor da rede pública Roberto Anunciação Antunes, o caminho para a mudança só existe possibilitando aos alunos das escolas públicas um verdadeiro aprendizado que seja uma catapulta ao conhecimento eficiente e que dê conta das transformações incessantes dos nossos dias.”
Leia mais:
- "Eu fiz o parto"Cristovam Buarque conta como nasceu o PAS da UnB
- Gloria Moura: professora emérita da UnB e defensora dos quilombos do Brasil
Enquanto a saúde mental lidera como a principal preocupação global em relação aos jovens (33%), no Brasil o cenário é ditado pelas condições materiais. Para 43% dos brasileiros, a pobreza e a desigualdade socioeconômica são os maiores obstáculos enfrentados pela juventude. O índice coloca o país no mesmo patamar de outras nações do Sul Global, como a Argentina (48%) e a África do Sul (43%). Essa disparidade reflete diretamente na percepção de mobilidade social.
Para a estudante Sarah da Silva de Holanda, 18 anos, da redepública de ensino, infelizmente, acrença de que jovens pobres nãotêm um futuro promissor é verdadeira, pois muitos deles precisam largar o sonho de entrar emuma faculdade, ou de investir nopróprio negócio. “Para mim, valea pena buscar o ensino superior,porém não posso negar que, quando faltam coisas básicas em casa,tenho vontade de não estudar paraentrar na faculdade, mas sim paratrabalhar imediatamente”, relata.
Apesar das dificuldades, o brasileiro mantém uma dose de esperança: 56% acreditam que os jovens terão uma vida melhor do que a de seus pais, superando a média global de 48%. No entanto, essa melhora parece, para muitos, depender de uma passagem de ida: 61% dos entrevistados avaliam que a juventude teria melhores oportunidades se emigrasse do Brasil.
Em um cenário diferente do de Sarah, a aluna do ensino médio da Escola Eleva Brasília, Olivia Gentil, atrai-se por mercados internacionais. A jovem quer estudar Fashion Business nos Estados Unidos ou na Europa, em uma cidade com uma indústria de moda forte. A ideia é passar aproximadamente quatro anos fora durante a faculdade, vivendo a experiência completa de estudar em outro país. “Eu acredito que ter contato com grandes centros da moda e com uma indústria mais internacional pode ampliar minha visão e minhas oportunidades profissionais”, argumenta. Seu plano de carreira se inicia com a graduação internacional, a qual a jovem vê como um investimento em sua formação e no seu futuro profissional: “Apesar de ser um investimento alto, acredito que estudar fora pode proporcionar experiências que vão além do conteúdo acadêmico.”
O professor Roberto Anunciação analisa que, de fato, o valor social e simbólico do diploma decaiu muito. “Os novos tempos exigem objetividade, fazer mais em menos tempo, e a obtenção de um diploma parece requerer muito tempo para eles — elementos de uma sociedade onde tudo é processado instantaneamente”, pontua. Ademais, ele também afirma que as baixas remunerações de diversas profissões corroboram para essa percepção de que o diploma não é tão importante: “Por não garantir mais um emprego bem remunerado, perde-se em oportunidade e qualificação.
Esse descompasso ganha contornos mais complexos quando analisada a adequação do ensino básico. Apenas 42% dos brasileiros sentem que o currículo escolar atual prepara os estudantes de forma adequada para as carreiras do futuro. A segurança, tanto física quanto digital, é um ponto crítico no país. Apenas 30% consideram o Brasil um lugar seguro para os jovens, e somente 32% avaliam os ambientes virtuais como seguros.
A reação da população brasileira em relação às tecnologias no cotidiano infantojuvenil é de extrema cautela e divisão, conforme apontam os dados sobre o tema. No cenário das redes sociais, 67% dos brasileiros apoiam o banimento do uso para menores de 14 anos, tanto dentro quanto fora das escolas. Já em relação à Inteligência Artificial nas salas de aula, a opinião pública se mostra fragmentada: 30% defendem a proibição de ferramentas como o ChatGPT, enquanto 42% são contra o banimento e 28% não sabem opinar.
A percepção geral sobre a qualidade da educação no Brasil ainda é majoritariamente negativa. Embora o índice de aprovação (“bom”) tenha subido para 32%, mostrando recuperação frente aos 28% de 2025 e 26% de 2024, a maior parcela dos brasileiros (43%) ainda classifica o sistema educacional do país como “ruim”. O patamar nacional fica distante de referências globais como Singapura, onde a aprovação da educação atinge 74%.
A internacionalista Vanessa Caixeta estudou grande parte da vida em escola pública e, no ensino médio, formou-se em um colégio particular por intermédio de uma bolsa de estudos. Depois, por meio do ProUni, cursou relações internacionais. “Quando estudava em escola pública, muitas vezes não tínhamos aulas porque o professor faltava, ou tinha greve, ou não conseguia prestar atenção porque era uma bagunça a sala de aula, ou o material estava em péssimas condições”, relata.
Como bolsista, Vanessa tinha acesso ao ensino básico, mas observava que os colegas tinham cursos de idiomas, preparatórios para o vestibular e aulas de suporte: “Sempre me perguntei que chance uma pessoa que só pôde estudar a vida inteira em escola pública tem no mercado de trabalho contra esses jovens privilegiados que pagam fortunas por educação.”
O professor Roberto Anunciação conclui que todos os países que são hoje referência em educação têm um grande ponto em comum: “Só evoluíram no momento no qual tornaram a educação uma efetiva prioridade em seu desenvolvimento enquanto nação.”
Os dados do Education Monitor 2026 deixam claro que o debate sobre o futuro dos jovens brasileiros não pode ser dissociado de reformas estruturais que garantam segurança, equidade e uma atualização curricular profunda, capaz de conectar as salas de aula às exigências do século 21.
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá