NOSSOS MESTRES

Gloria Moura: professora emérita da UnB e defensora dos quilombos do Brasil

Professora emérita da UnB, Gloria Moura levou à academia a história e a realidade das comunidades quilombolas. Conhecer a própria origem foi o que motivou a escolha do tema de toda a carreira

Mariana Niederauer
postado em 18/10/2026 06:06
 15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A memória de um povo depende de registros que nem sempre estamos prontos para traduzir em conhecimento, nem abertos a compreender em suas complexidades. Foi a partir de vivências pessoais e de uma inquietação que Maria Gloria Moura, 90 anos, construiu a trajetória acadêmica. Aposentada do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB) e reconhecida com o título de professora emérita no último mês, ela mostrou para a academia a história e a realidade dos quilombos no Brasil.

Hoje, ela define a própria trajetória como uma luta constante para abrir portas. E, em muitos desses momentos, ela não só conseguiu como foi pioneira. Marcou a educação brasileira com o pioneirismo em defesa da educação antirracista e pela implantação da política de cotas na UnB, onde ajudou a fundar o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab).

O trabalho da vida — e sua própria vida — ela resumiu no livro Festa dos Quilombos, publicado pela Editora UnB e fruto do seu trabalho de doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Gloria se lembra, até hoje, que a sala onde defendeu a tese ficou lotada de colegas que queriam conhecer aquele tema até então ignorado pela quase totalidade da universidade. Foi o momento de mostrar a invisibilidade da história da cultura afro-brasileira, e em especial dos quilombos, nos currículos das escolas brasileiras. “É uma vida completamente diferente. Quando vamos ao interior do Brasil, vemos que há um país que o povo não conhece”, atesta.

Gloria se declara uma mulher mestiça, filha de uma descente de italianos e de um descendente de negro e indígenas. Tem a pele mais clara entre os irmãos, mas isso não a livrou do racismo e da exclusão em diferentes espaços, inclusive na escola. Quando se apaixonou por um homem negro, o preconceito também mostrou sua face mais cruel. Mas entender o motivo de tanta violência num país onde todos os habitantes têm ao menos “uma gota de sangue africano (escravo), indígena (nativo) e branco europeu (o colonizador)”, como ela descreve no livro resultado de sua tese, foi o que a moveu a concluir o seu trabalho.

No Dia do Professor, celebrado na última semana, ela ganhou o maior presente que poderia pedir. A neta mais nova, Serena, chegou pertinho e disse que não queria mais ir para a escola. “Agora eu quero estudar na sua escola vovó.” A escola a que a menina de 7 anos se refere é a UnB que, num auditório cheio, reconheceu a trajetória acadêmica da pioneira com o título de professora emérita.

 15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

E essa história teve início há mais de 40 anos. Gloria começou a dar aulas na educação básica, num município próximo à cidade de Niterói (RJ), onde nasceu e foi criada. O grande amor da vida aconteceu já na juventude. “Nos apaixonamos no primeiro olhar”, recorda-se, sorrindo, do encontro com o companheiro da vida toda, o advogado Carlos Alves Moura, 86 anos, um dos fundadores e primeiro presidente da Fundação Palmares. São mais de 60 anos casados.

A vinda para Brasília, em 1976, com as filhas Cristina, Debora e Luciana foi justamente para acompanhar o marido. Aqui nasceu a caçula, Carla. À época, Gloria lecionava na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde se formou em pedagogia. Assim que conseguiu a transferência para a UnB, partiu rumo ao Planalto Central com as crianças. Na UnB, Gloria concluiu o mestrado, quando Carla era recém-nascida. “É um desafio, você sair da sua cidade, distante da sua família. Mas eu fiz isso com muito amor. Aliás, como tudo na vida. E cada hora era uma porta se abrindo”, resume.

 Gloria Moura ao centro, com as filhas Luciana (E), Cristina, Debora e Carla
A professora, ao centro, com as filhas Luciana (E), Cristina, Debora e Carla (foto: Arquivo pessoal)

Um dos ensinamentos que ela fortificou ao longo da carreira é sobre a importância da educação não apenas como espaço formal de aquisição de conhecimento. “Às vezes, as pessoas veem a educação como uma coisa separada, mas a vida toda é educação.”

A professora Gloria Moura com o marido e advogado, Carlos Moura
Com o marido e advogado, Carlos Alves Moura: "Paixão no primeiro olhar" (foto: Fotos: Arquivo pessoal)

Política de cotas

A participação de Gloria foi decisiva na implantação da política de cotas da UnB, como reforçam colegas como a relatora da política de cotas da universidade, Dione Moura, e a própria reitora, Rozana Naves (veja depoimentos abaixo). “Foi uma glória, porque realmente não tinha negro na UnB. E as pessoas não queriam mesmo, diziam que não precisava, que estava tudo igual”, relembra a professora.

Nelson Inocêncio, professor do Instituto de Artes da universidade que acompanhou todo o processo de implementação das cotas raciais, recorda-se até hoje do momento em que conheceu Gloria e Carlos, numa reunião na casa deles. ”A professora Gloria sempre teve um olhar muito atento com a educação. Eu também venho de uma família em que a educação sempre foi algo muito valorizado, e percebia nela essa mesma postura”, afirma Nelson, que chegou a visitar quilombos ao lado de Gloria. “Os alunos me agradeciam por eu ter mostrado a eles um outro Brasil, que pouca gente paga, mas todo mundo explora”, destaca a professora.

O trabalho incansável também resultou na inauguração dosprimeiros cursos de formação emhistória e cultura afro-brasileira.Além de levar os quilombos paraa educação, Gloria fez o caminhocontrário, e apresentou a literatura para muitos quilombolas. Criou o primeiro livro didático voltado a crianças dessas comunidades e editou a coleção Caminho das Pedras, que fala de direitos e cidadania.

Uma das preocupações queela carrega até hoje é com a demarcação das terras quilombolas. Ela foi a única representante negra no Centro de Estudose Acompanhamento da Constituinte da UnB, e apresentou propostas que contribuíram para aconstrução de um artigo do Ato das Disposições ConstitucionaisTransitórias (ADCT) que reconheceu o direito à propriedadedefinitiva das terras ocupadaspor comunidades remanescentes de quilombos. “Temos que pensar um pouco no desenvolvimento urbano, no desenvolvimentoda sociedade”, observa.

Alegria de viver

Disposta e ativa aos 90 anosde idade, Gloria carrega consigo um outro aprendizado quilombola: o da alegria e da dança. “Eu gosto muito de dançar. Acho que devemos fazer tudo com alegria. Essa é uma mensagem de Deus para o universo”, ensina. Suas festas ficaram famosas e até hoje são lembradas entre amigos.

O segredo, na avaliação dela, era a espontaneidade. “Sem pensar queestava fazendo uma festa, eu fiz”, diverte-se. O reconhecimento na UnB, como professora emérita, veio após aprovação da indicação no Conselho Universitário (Consuni), em maio. “Eu não me vejo como dign adessa comenda. Mas, quando começo a pensar no que já fiz ness aárea, de qualquer maneira foi uma abertura de portas. Se as crianças aprendessem isso desde pequenas, seria mais fácil”, reforça.

Professora Maria da Glória
Gloria recebe o diploma de professora emérita das mãos da reitora, Rozana Naves (foto: Júlio Minasi (secom/unb))

"Eu faço minha obrigação, com muito amor, muito trabalho, porque não é brincadeira esse mundo do interior. É só gente indo lá, vendo um pouquinho, como eu vi. Eu nunca contei quantos, mas foram muitos quilombos. E, na hora que você seidentifica com eles, é uma coisa linda, porque eles se sentem valorizados, e a gente se sente muito amado. Nós somos isso. Somos fruto dessa miscigenação.”

Antes de nos despedirmos, Gloria pediu para deixar uma mensagem aos leitores: “É a mensagem do amor para mudar o mundo. Porque nós não temos nada que impeça isso. Só a razão. E a razão não basta. O que importa é a razão mais o amor; a alegria deviver; a alegria de ver as coisas econhecê-las”.

 15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Depoimentos

 15/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília 2026. Entrevista com a reitora da UNB Rozana Naves.
15/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília 2026. Entrevista com a reitora da UNB Rozana Naves. (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

"É uma alegria e uma honra para a Universidade de Brasília conceder o título de professora emérita à professora Glória. Ela foi pioneira no desenvolvimento das política de cotas que deram origem a uma nova estrutura, mais diversa, mais plural, do segmento estudantil na nossa universidae, e que se tornou política pública em todo o país."

Rozana Naves, reitora da UnB

Débora Morais, pedagoga formada pela UnB
Débora Morais, pedagoga formada pela UnB (foto: Flora Egécia/Arquivo pessoal)

"Para nós, que fomos estudantes de pedagogia da UnB, a professora Glória representou imersões num universo até então pouco explorado. Ela nos apresentou aos saberes presentes na ancestralidade viva: as comunidades de quilombos. Proporcionou, por meio de recursos literários, dentre eles, de sua autoria, e dos projetos de campo, o conhecimento pedagógico presente na geografia, na arquitetura, nos cânticos, nos saberes tradicionais e nas pessoas que vivem nas comunidades quilombolas. Isso foi essencial para a compreensão de nossa identidade e história negra."

Débora Morais, pedagoga graduada pela UnB

 10/11/2023,. Trabalho e Formaçao Profissional. Professora Dione Oliveira Moura
10/11/2023,. Trabalho e Formaçao Profissional. Professora Dione Oliveira Moura (foto: Kayo Magalhaes/CB)

"Temos a querida professora Glória Moura como uma referência. Ela abriu caminhos para que hoje nós, tanto as professoras negras quanto as não negras da UnB, tenhamos um ambiente acadêmico mais culto sobre o que significa a história e a potência da cultura afro-brasileira. Glória também foi um cajado de luz perene que nos guiou diretamente nas árduas batalhas pela implantação das cotas para negros e acesso de indígenas na UnB."

Dione Moura, relatora da política de cotas da UnB e Diretora da Faculdade de Comunicação (FAC-UnB)

Professor que acompanhou o processo de implementação das cotas raciais na UnB e no país, Nelson Inocêncio conta como a luta contra o racismo guiou sua carreira e produção artística
Professor que acompanhou o processo de implementação das cotas raciais na UnB e no país, Nelson Inocêncio conta como a luta contra o racismo guiou sua carreira e produção artística (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

“Eu admiro muito a professora pela disposição, pelo protagonismo de nos fazer entender as culturas negras rurais e compreender o valor da pesquisa sobre essas populações. Ela organizou seminários, eventos, deu cursos, é uma pessoa muito ativa e determinada em levar adiante esse propósito. E sempre me tratou com muito afeto e carinho”

Nelson Inocêncio, professor do Departamento de Artes Visuais da UnB

  •  15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
    15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Professor que acompanhou o processo de implementação das cotas raciais na UnB e no país, Nelson Inocêncio conta como a luta contra o racismo guiou sua carreira e produção artística
    Professor que acompanhou o processo de implementação das cotas raciais na UnB e no país, Nelson Inocêncio conta como a luta contra o racismo guiou sua carreira e produção artística Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  10/11/2023,. Trabalho e Formaçao Profissional. Professora Dione Oliveira Moura
    10/11/2023,. Trabalho e Formaçao Profissional. Professora Dione Oliveira Moura Foto: Kayo Magalhaes/CB
  • Débora Morais, pedagoga formada pela UnB
    Débora Morais, pedagoga formada pela UnB Foto: Flora Egécia/Arquivo pessoal
  •  15/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília 2026. Entrevista com a reitora da UNB Rozana Naves.
    15/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Caderno aniversário de Brasília 2026. Entrevista com a reitora da UNB Rozana Naves. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
    15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
    15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
    15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Gloria recebe o diploma de professora emérita das mãos da reitora, Rozana Naves
    Gloria recebe o diploma de professora emérita das mãos da reitora, Rozana Naves Foto: Júlio Minasi (secom/unb)
  •  15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília
    15/10/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Maria Glória Moura fundadora do núcleo de estudos afro Brasileiros na Universidade de Brasília Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • A professora, ao centro, com as filhas Luciana (E), Cristina, Debora e Carla
    A professora, ao centro, com as filhas Luciana (E), Cristina, Debora e Carla Foto: Arquivo pessoal
  • Com o marido e advogado, Carlos Alves Moura:
    Com o marido e advogado, Carlos Alves Moura: "Paixão no primeiro olhar" Foto: Fotos: Arquivo pessoal
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