América Latina

Após derrota no Senado, Alberto Fernández abre diálogo com a centro-direita

Presidente da Argentina conclama negociação para garantir governabilidade e fala em "oposição responsável". Ultradireita chega ao Congresso

Rodrigo Craveiro
postado em 16/11/2021 06:00
 (crédito: Juan Mabromata/AFP)
(crédito: Juan Mabromata/AFP)

Eleita deputada pela coalizão governista Frente de Todos, Victoria Tolosa Paz tentou negar o desastre político para o presidente Alberto Fernández — a perda da maioria no Senado, nas eleições de domingo, foi a principal derrota do peronismo em 38 anos. "Nós perdemos ganhando, eles (oposição) podem ter ganhado perdendo", declarou Victoria.

O revés nas urnas forçou Fernández a conclamar a coalizão opositora Juntos por el Cambio (centro-direita) ao diálogo. "Na maior brevidade possível, vou me dirigir aos representantes da vontade popular e das forças políticas que representam para acordarmos uma agenda tão compartilhada quanto possível. Uma oposição responsável e aberta ao diálogo é uma oposição patriótica", disse Fernández à nação. 

Até o fechamento desta edição, com a apuração de mais de 90% dos votos, o governo peronista de centro-esquerda perderia seis senadores, passando de 41, de um total de 72, para 35. O Juntos por el Cambio terá 31. Com isso, o governo terá que cortejar seis senadores que correspondem a diferentes forças provinciais.

Projeções apontam que, em 10 de dezembro, data da posse do Legislativo, a Câmara dos Deputados estará fortemente polarizada: 118 cadeiras para  o bloco opositor e 116 para o governista. Pela primeira vez, o partido ultradireitista Avanza Libertad, do economista Javier Milei, terá representatividade na Câmara dos Deputados, ao conquistar cinco dos 257 assentos. 

Professor de ciência política da Universidad de Buenos Aires (UBA), da Universidad del Salvador e da Universidad Católica Argentina, Facundo Gabriel Galván afirmou ao Correio que as eleições legislativas de domingo demonstraram a possibilidade de realizar diferentes leituras dos resultados. "Todas as forças políticas festejaram. O governo de Fernández por ter melhorado a performance eleitoral na província de Buenos Aires; e a Juntos por el Cambio por entender que se consolida como a opção eleitoral mais votada em 2023", disse.

"Pela primeira vez, o controle do Senado não ficará nas mãos da Casa Rosada. Ante a paridade das bancadas das coalizões Frente de Todos e  Juntos por el Cambio, a negociação e o fortalecimento de poder dos governadores serão a chave da dinâmica na Câmara Alta (Senado)."

De acordo com Galván, negociar com a oposição nunca foi fácil. "A mensagem de unidade de Fernández e o apelo em prol de consenso legislativo em torno das 'políticas de Estado' não foram recebidos de modo claro pela oposição", observou. Para vender a imagem de vitória nas urnas, Fernández convidou os governadores para uma celebração na Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, amanhã.

Sensibilização

O especialista adverte que a ascensão da ultradireita complica a tarefa da coalizão Juntos por el Cambio. "Nessa aliança, coexistem duas visões diferentes, uma que tende a aliar-se a Milei e outra que busca deixá-lo para trás. Trata-se de um líder cujo discurso anti-establishment, antipolítica e antipartidos tradicionais penetrou fundo as mentes dos eleitores mais jovens", comentou Galván. 

Colega de Galván na UBA, Miguel De Luca admitiu à reportagem que a perda do controle governista do Congresso terá impacto efetivo sobre a gestão de Fernández. "Desde 1983, o peronismo sempre teve maioria no Senado. Fernández é o primeiro presidente peronista minoritário em ambas as Câmaras. Ele precisará abandonar as iniciativas mais confrontativas e promover negociação com a oposição. Isso pode provocar atrito com o setor mais radicalizado da Frente de Todos (a vice Cristina Kircher e sua organização Câmpora).

Para De Luca, será muito difícil que o diálogo prospere. "O presidente e líderes peronistas criticaram duramente a oposição durante a campanha. Além disso, a oposição discorda veementemente das medidas econômicas adotadas pelo governo. Por fim, ela pensa nas eleições presidenciais de 2023 e não quer se comprometer em acordos com um governo de baixa popularidade", explicou.

 


Sob repressão, ativistas adotam gestos simbólicos em Cuba

 (crédito: Arquivo pessoal )
crédito: Arquivo pessoal

Vestido de branco, David Alejandro Espinosa cantou o Hino Nacional de Cuba, em Cienfuegos (a 280km de Havana). "Ao combate correi, bayameses/que a pátria vos contempla, orgulhosa./Não temais uma morte gloriosa, que morrer pela pátria é viver!", entoou. Depois, recitou o poema Cultivo uma rosa branca, de José Martí: "Cultivo uma rosa branca, em junho como em janeiro, para o amigo sincero, que me dá sua mão franca. E, para o cruel que me arranca o coração com o qual vivo, não cultivo cardo nem urtiga; cultivo a rosa branca". O ato foi registrado em vídeo.

Ontem, dia da marcha cívica pela democracia, dissidentes foram presos em Havana e em outras partes da ilha socialista. Entre eles, estão Manuel Cuesta Morua, vice-presidente do Conselho de Transição Democrática; Berta Soler, líder das Damas de Branco; e Guillermo Fariñas, vencedor do Prêmio Sakharov, concedido pelo Parlamento Europeu, em 2013.

Procurado pelo Correio, David disse que não daria entrevistas. Por nota, denunciou que membros da plataforma Archipiélago foram "sequestrados e detidos pelo regime". "Sou consciente de que, ao regressar à minha casa, poderão me deter e me processar. Se o fizerem, demonstrarão o caráter tirânico do regime", escreveu o organizador dos protestos em Cinefuegos.  

Em Santa Clara, a 48km dali, Saily González, 30 anos, contou à reportagem que sua casa estava cercada por simpatizantes do governo desde 5h30 (7h30 em Brasília). "Três dessas pessoas são vizinhas minhas, mas há outras que chegaram para impedir que eu proteste. Seriam representantes da Federação de Mulheres Cubanas", disse a responsável por organizar a marcha na cidade. Em vídeo, ela aparece estendendo lençóis brancos no varal.

Diretor-executivo da ONG Human Rights Watch para Américas, José Miguel Vivanco classificou como "desoladores" os relatos recebidos de Cuba. "O regime mobilizou forças de segurança de modo massivo. Muitos jornalistas e críticos estão sitiados em suas casas. Alguns foram detidos. A intenção é clara: suprimir qualquer tentativa de protesto", comentou. (RC)

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