Entrevista | Carlos García de Alba | embaixador do México

"Compartilhamos desafios", diz embaixador do México no Brasil

Com a América Latina no centro das atenções — e das ofensivas — de Donald Trump, os dois gigantes da América Latina afinam a sintonia no cenário regional e buscam caminhos de aproximação bilateral

 23.01.2026 Guilherme Felix CB/DA Press. Embaixador do Mexico Carlos Garcia de Alba
     -  (crédito: Guilherme Felix CB/DA Press.)
23.01.2026 Guilherme Felix CB/DA Press. Embaixador do Mexico Carlos Garcia de Alba - (crédito: Guilherme Felix CB/DA Press.)

O embaixador Carlos García de Alba desembarcou em Brasília há dois meses para assumir a representação do México, um país que, faz questão de lembrar, tem relação especialmente próxima com o Brasil — que ficou evidente na conquista do tri pela Seleção Canarinho, em 1970, construída principalmente em Guadalajara, cidade natal do diplomata.

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Passado mais de meio século, os dois países compartilham desafios e aspirações, em um cenário regional e global marcado intensamente pelos primeiros 12 meses de Donald Trump em seu retorno à Casa Branca. Da deportação em massa de imigrantes à ofensiva militar anunciada contra as drogas — mas que teve o ponto crítico na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro —, o presidente Lula e a colega Claudia Sheinbaum manobram entre esforços para integrar a América Latina e cuidados para fazê-lo sem acirrar atritos com a superpotência.

Em visita ao Correio, o embaixador falou sobre temas internacionais e relações bilaterais. Confirmou os planos para simplificar a concessão de visto e multiplicar as visitas de brasileiros ao México. E antecipou planos para reforçar o intercâmbio "entre os povos", particularmente em Brasília.

Como o senhor vê o momento atual das relações bilaterais?

Entre a presidente Claudia Sheinbaum e o presidente Lula, há uma afinidade política e ideológica notável. Mas é preciso, também, uma relação econômica sólida e crescente. Entre México e Brasil, temos um fluxo de comércio anual de US$ 17 bilhões, favorável ao Brasil em uma proporção de mais que dois para um. Esse intercâmbio é muito baixo comparado ao tamanho das nossas economias — somos 65% do PIB da América Latina. A economia do México corresponde a 80% do PIB brasileiro. Portanto, não é o suficiente: temos que ao menos dobrar esse volume de comércio, chegar a US$ 30 bilhões. Depois, fazer o necessário para equilibrar essa balança. Chama muito a minha atenção que se fala muito pouco de investimentos. Eles são 10 vezes maiores que o fluxo de comércio. Temos mais de US$ 50 bilhões investidos no Brasil.

Que caminhos podem ser tentados para isso?

Temos de diversificar o diálogo bilateral, porque muitas vezes o comércio cria atritos nas relações, principalmente em tempos de Donald Trump. Falar de taxas e tarifas de importação foi irritante. Existe espaço para aumentarmos o comércio bilateral e os investimentos, mas temos de falar mais também sobre intercâmbios acadêmicos, científicos, tecnológicos. O Brasil é uma potência em matéria de saúde: vacinas, produção de medicamentos genéricos. Há ainda os biocombustíveis, uma experiência de 50 anos. No fim de fevereiro, vamos receber aqui uma missão mexicana de alto nível, que virá para aprender com a experiência brasileira. O turismo deixa muito a desejar, são apenas 170 mil brasileiros que visitam o México a cada ano. Vamos começar logo com a concessão do visto por via eletrônica, e acreditamos que a simplificação dos trâmites facilitará a ida de muitos brasileiros mais ao nosso país. A previsão é começarmos em fevereiro, possivelmente já a partir do dia 5. Faremos o anúncio oficial assim que tivermos todos os detalhes.

Como o senhor vê a posição de México e Brasil, da América Latina, nesses primeiros 12 meses de presidência de Donald Trump?

Somos uma região muito diversa, felizmente, na história, nas culturas, nos idiomas. No entanto, compartilhamos uma geografia, compartilhamos desafios. Temos muitos problemas sociais, desigualdade, pobreza. Questões ambientais. Nos últimos meses, também nos vimos com um desafio observado por óticas distintas. Não é segredo que o governo dos EUA vem dando muito mais atenção à América Latina. Temos manifestado nosso desacordo com as iniciativas que tomaram. Mas esse momento difícil uniu Brasil e México ainda mais. A comunicação entre nossos governos é frequente, entre os chanceleres e os presidentes, porque temos de estar muito coordenados. Somos os dois maiores países da América Latina, econômica e demograficamente. Observamos os fatos com muita atenção, entendemos as novas dinâmicas internacionais, vemos que o multilateralismo está passando por uma prova muito dura. Ainda assim, é importante que tenhamos clareza de que somos uma região que, por maiores que sejam as diversidades políticas, enfrenta desafios comuns.

O senhor acha que se fez o suficiente a respeito do que aconteceu na Venezuela, com o presidente Nicolás Maduro?

Cada país se manifestou à sua maneira. O México condenou duramente os acontecimentos de 3 de janeiro. Dissemos claramente que foi uma violação do direito internacional, e isso não é aceitável. O Brasil e outros países da região fizeram o mesmo, outros tiveram acordo com os EUA. Somos uma região plural, com governos que pensam de maneiras distintas. Da nossa parte, estamos convencidos de que é preciso respeitar a soberania nacional, que cada governo deve ser livre para tomar suas decisões.

Como o governo mexicano vê possíveis operações militares diretas contra os cartéis da droga em território do país?

A presidente Sheinbaum foi muito clara. Estamos prontos para cooperar e coordenar ações, mas sem submissão. Não será uma intervenção militar que resolverá o problema complexo do crime organizado, no México ou em outras partes do mundo. Desgraçadamente, o crime organizado é hoje um tema mundial. A solução, a saída, não está em nenhum país sozinho. No âmbito bilateral, pedimos aos EUA, mais de uma vez, que nos ajudem com a sua parte, reduzindo o consumo interno de drogas. E temos também o tráfico de armas: os cartéis estão bem armados, e essas armas chegam de outros países. Isso exige cooperação internacional, não uma intervenção unilateral.

Temos em comum também a deportação em massa de imigrantes pelos EUA. E o México é especialmente afetado...

Esse é um tema complexo, triste. Temos visto as operações das autoridades migratórias de lá, que estão distantes do ideal. Antes de tudo, o imigrante é alguém que busca oportunidades, não um criminoso. E contribui com o país que o recebe. Os EUA têm o direito de tomar suas decisões soberanas, o novo governo tem adotado uma atitude muito mais agressiva quanto às deportações e à proteção das fronteiras. As consequências, vamos ver no longo prazo, os efeitos econômicos, sociais. Mas é importantíssimo o respeito aos direitos humanos.

Neste ano teremos eleições na Colômbia e o Brasil, cujos governos têm diferenças marcantes com os EUA. Podemos temer algum tipo de interferência externa nesses processos?

Tomara que haja respeito, porque são os eleitores de cada país que devem decidir quem os governa, de maneira democrática e soberana. Espero que não haja interferências no Brasil, na Colômbia ou em qualquer país, da América Latina ou do mundo.

Como a embaixada vê as possibilidades de um maior intercâmbio humano e cultural aqui em Brasília?

Nos tempos de hoje, é muito importantes exercermos a diplomacia cultural, esportiva, turística. Elas não apenas aproximam os governos, mas os povos. O primeiro presidente de algum país que visitou Brasília, três meses antes da inauguração, foi o do México — na época, Adolfo López Mateos. Neste ano se completam 50 anos da inauguração da nossa embaixada, com uma arquitetura única, que lembra as escadarias das pirâmides de nossas grandes civilizações. Queremos comemorar, e os arquivos do Correio podem nos ajudar a resgatar fotos, seria um grande presente. O México tem uma conexão especial com o Brasil e com Brasília. E neste ano teremos a Copa do Mundo: vamos nos tornar o primeiro país a receber o campeonato pela terceira vez.

No terreno acadêmico, como o senhor vê as possibilidades de intercâmbio com a UnB?

Já estive com a reitora, tivemos uma boa conversa. E fiquei surpreso de saber que na UnB temos só cinco estudantes mexicanos e só um professor. Isso não é suficiente. Nesse ponto, lamentavelmente, como se conhece muito pouco o idioma português, no México, isso dificulta a mobilidade acadêmica para cá. Infelizmente, hoje o inglês tem um papel preponderante em muitos campos. Na medida em que tenhamos mais programas de ensino dos idiomas, aqui e no México, isso deve favorecer o intercâmbio acadêmico entre nossos países.

 

  •  23.01.2026 Guilherme Felix CB/DA Press. Embaixador do Mexico Carlos Garcia de Alba
    23.01.2026 Guilherme Felix CB/DA Press. Embaixador do Mexico Carlos Garcia de Alba Foto: Guilherme Felix CB/DA Press.
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    23.01.2026 Guilherme Felix CB/DA Press. Embaixador do Mexico Carlos Garcia de Alba Foto: Guilherme Felix CB/DA Press.
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postado em 24/01/2026 06:00
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