Venezuela em transe

Forças dos EUA perseguem dois petroleiros sancionados em alto-mar

Forças especiais dos Estados Unidos invadem petroleiro de bandeira russa no Atlântico Norte. Um segundo navio é abordado perto da costa venezuelana. Casa Branca anuncia que pretende comandar a comercialização do petróleo de Caracas de forma "indefinida"

Depois da captura de Nicolás Maduro, no último sábado (3/1), os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre o regime chavista e abriram caminho para o controle do petróleo venezuelano. Dois petroleiros ligados a negócios com Caracas e sancionados por Washington foram abordados em alto-mar. Um deles, que levava a bandeira da Rússia, chegou a ser invadido por forças especiais dos Estados Unidos no Atlântico Norte, na costa da Islândia.

A interceptação foi o desfecho de duas semanas de perseguição e acirrou os ânimos entre Washington e Moscou. A Rússia enviou um submarino para escoltar o petroleiro Marinera, cujo nome original era MV Bella 1, aparentemente sem sucesso. A Casa Branca anunciou que a embarcação era "apátrida" e apresentava uma "bandeira falsa". O petroleiro teria mudado de nome e de bandeira. No entanto, o Kremlin acusou os Estados Unidos de violarem o direito marítimo e alertou para a falta de "jurisdição para o uso da força". Os EUA também conseguiram irritar a China, que comprava a maior parte do petróleo venezuelano. Pequim demonstrou irritação com o bloqueio e as operações marítimas.

"O bloqueio ao petróleo venezuelano sancionado e ilícito continua em pleno vigor — em qualquer parte do mundo", declarou o secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth. O Reino Unido confirmou que ajudou os Estados Unidos na operação de captura do Marinera (MV Bella 1). O navio estava sob sanções desde 2024 por supostos vínculos com o movimento xiita libanês Hezbollah e o Irã e seguia para a Venezuela. Enquanto fugia de embarcações militares dos EUA no Caribe, mudou de rumo e ganhou o nome Marinera.

Os Estados Unidos começaram a bloquear o petróleo venezuelano em dezembro, em um gesto visto pela Venezuela como "interferência" e "ato de pirataria". "Os norte-americanos estão fazendo valer o controle sobre o território venezuelano. Existem sanções que impedem a exportação e a compra de petróleo da Venezuela. Os petroleiros insistiam em burlar esse tipo de restrições. O presidente Donald Trump pretende, com essas operações, mostrar que não é uma boa ideia se opor às decisões de Washington", disse ao Correio José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (USB), em Caracas.

Depois de o governo Trump anunciar que comandará a comercialização da commodity de forma "indefinida", Caracas admitiu que negocia comWashington"a venda de volumes de petróleo". "Está em curso uma negociação com os Estados Unidos para a venda de volumes de petróleo, no âmbito das relações comerciais que existem entre ambos os países", afirmou, em comunicado oficial, a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). "Esse processo se desenvolve sob esquemas semelhantes aos vigentes com empresas internacionais."

A empresa mantém acordos de extração e venda de petróleo com a multinacional americana Chevron.A Venezuela possui reservas de petróleo estimadas em 303 bilhões de barris — em cifras, o "ouro negro" venezuelano pode custar cerca de US$ 18,4 trilhões (ou R$ 99,1 trilhões).

Negócios

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, divulgou que, nesta sexta-feira (9/1), Trump se reunirá com os CEOs das companhias petroleiras americanas para debater as chances de negócios na Venezuela. "A reunião será na sexta-feira e é apenas para discutir, obviamente, a imensa oportunidade que se apresenta a essas empresas petroleiras neste momento", disse Leavitt. A Casa Branca exigiu que Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, libere o acesso completo à exploração das reservas do país. Mais cedo, Chris Wright, secretário de Energia do governo Trump, tinha dito que os EUA controlarão as vendas de petróleo venezuelano "indefinidamente".

O presidente americano anunciou que a Venezuela comprará somente produtos fabricados nos Estados Unidos com o dinheiro obtido da venda de petróleo supervisionada por Washington. "Acabo de ser informado de que a Venezuela vai comprar, única e exclusivamente, produtos fabricados nos Estados Unidos com o dinheiro que receber de nosso novo acordo petrolífero", publicou Trump em sua rede Truth Social. "Essas compras incluirão, entre outras coisas, produtos agrícolas americanos e medicamentos, dispositivos médicos e equipamentos fabricados nos EUA para melhorar a rede elétrica e as instalações energéticas da Venezuela."

"O petróleo é, praticamente, o único motor que a Venezuela possui neste momento para seguir adiante. O fato de Caracas receber a ajuda dos EUA, em termos de investimentos e desenvolvimento em uma indústria praticamente morta, é uma notícia boa", afirmou Aumaitre. De acordo com ele, os EUA não precisam do petróleo venezuelano. "Mas é certo dizer que o petróleo muda a geopolítica da região, no que diz respeito à importância do bloco energético formado com Guiana e Brasil. Ele faz com que se crie uma independência com relação a países do Golfo Pérsico", disse Carrasquero.

O estudioso classifica como "inteligente" a aposta dos EUA pelo petróleo e coerente com os princípios da política "America First" ("A América em primeiro lugar"). "Com isso, os preços da commodity e da energia elétrica serão mantidos mais baixos nos Estados Unidos. Isso traz um maior desenvolvimento econômico. A Venezuela não tem outra saída, que não seja negociar o petróleo com os americanos. Delcy Rodríguez entregou o poder aos EUA. Ela é uma presidente delegada por Washington para dirigir o país nos termos desejados pelos EUA", comentou Aumaitre.

Exportação

Segundo o ex-diplomata turco Imdat Oner, cientista político da Universidade Internacional da Flórida, a intenção de Trump é supervisionar a venda do petróleo venezuelano e a administração da receita proveniente do comércio. "A ideia é que a Venezuela continue a exportar petróleo bruto para os Estados Unidos, que, por sua vez, terá controle sobre o fluxo de dinheiro. Isso faz parte da estratégia de Washington para estabilizar a economia e obter influência política", disse à reportagem.

Oner destacou que o governo de Donald Trump começou a liberar o mercado petrolífero venezuelano, até então bloqueado por sanções econômicas. "A Casa Branca planeja fazer o mesmo com a produção futura, mantendo essas receitas sob controle dos Estados Unidos. Isso marca uma mudança muito brusca e bastante forte na posição do governo venezuelano. É um sinal claro de que existe um acordo entre o governo Trump e Delcy Rodríguez, a presidente interina da Venezuela", avaliou Oner, que morou na Venezuela entre 2014 e 2016.

O ex-diplomata entende que a principal questão é como o establishment militar da Venezuela reagirá a essa "normalização acelerada" na relação com os Estados Unidos. "Nem todos dentro do chavismo se sentirão cômodos com acordos sobre o petróleo tão rápidos,especialmente tão pouco tempo depois da prisão de Maduro." 

 

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