Irã em convulsão

'Tomem as instituições', pede Donald Trump aos manifestantes no Irã

Presidente dos Estados Unidos avisa a manifestantes iranianos que a ajuda está a caminho e pede que protestos continuem. Repressão deixou pelo menos 3 mil mortos, mas emissora norte-americana cita 12 mil. Ativistas iranianos falam ao Correio

"Patriotas iranianos, continuem protestando. Tomem suas instituições!!! Guardem os nomes dos assassinos e dos abusadores. Eles pagarão um preço alto. Eu cancelei todas as reuniões com as autoridades iranianas até que o assassinato sem sentido de manifestantes acabe. A ajuda está a caminho. MIGA!!! (Iniciais de 'Tornem o Irã grande novamente)." A mensagem na plataforma Truth Social sinaliza que, pela primeira vez, o presidente dos Estados Unidos defende abertamente os protestos e a deposição do regime teocrático islâmico dos aiatolás. Chefe do Conselho de Segurança Nacional Supremo do Irã, Ali Larijani reagiu à publicação de Donald Trump. "Nós proferimos os nomes dos principais assassinos do povo do Irã: Trump e (Benjamin) Netanyahu (primeiro-ministro de Israel)", declarou. O regime também acusou Trump de buscar um "pretexto" para uma "intervenção militar". 

Ao visitar uma fábrica em Detroit (Michigan), Trump aconselhou cidadãos de países aliados dos Estados Unidos a abandonarem o Irã. "Não é uma má ideia", declarou. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA apoiou o discurso do presidente republicano e acusou o regime iraniano de "massacrar o próprio povo, transformar o rial na moeda mais fraca do mundo e desperdiçar os recursos de seu país". "Tornem a mudança de regime inevitável", pediu. 

Até a noite desta terça-feira (13/1), o número de manifestantes iranianos mortos chegava a 3 mil, de acordo com o jornal The New York Times. A emissora britânica BBC, por sua vez, citou uma autoridade do Irã e informou que seriam pelo menos 2 mil. No entanto, a rede de televisão americana CBS News conversou com duas fontes, uma delas dentro do Irã, e divulgou que entre 12 mil e 20 mil pessoas foram assassinadas. Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979 e figura opositora exilada nos EUA, instou as forças de segurança a "ficarem ao lado do povo".

Reprodução - Corpos de manifestantes no pátio do necrotério de Kahrizak, na província de Teerã

A violenta repressão aos protestos causou mal-estar diplomático. Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Finlândia e Dinamarca convocaram os representantes do Irã nos respectivos países para externar sua "condenação" à matança. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (órgão executivo da União Europeia), confirmou que o bloco discutirá a adoção de sanções "rápidas" para conter o balanço "aterrorizante" de mortos. 

O Itamaraty informou que "o governo do Brasil acompanha, com preocupação, a evolução das manifestações" no Irã. "O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo", afirma a nota do Ministério das Relações Exteriores, segundo a qual não há registro de brasileiros entre mortos e feridos.

"Estou horrorizado com a crescente violência perpetrada pelas forças de segurança contra manifestantes, com relatos indicando que centenas foram mortas e milhares presas. O povo iraniano e suas reivindicações por justiça, igualdade e equidade devem ser ouvidas", escreveu, em nota, Volker Turk,. alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Segundo ele, rotular manifestes de "terroristas" para justificar a violência é "inaceitável". 

Protetor 

Arang Keshavarzian — professor de estudos islâmicos e do Oriente Médio da Universidade de Nova York — admitiu ao Correio que Trump claramente tenta se colocar como líder e protetor dos manifestantes. "Todos os manifestantes precisam de ajuda e estão sendo violentamente reprimidos; mas duvido que todos o vejam como seu líder ou protetor", disse. O estudioso lembrou que os iranianos têm se engajado em uma relação conturbada com os Estados Unidos. "Não está claro quais medidas Trump tomará. Pode ser um ataque militar, o auxílio em comunicações e tecnologia, a imposição de mais sanções, ou mesmo a negociação com facções dentro do establishment iraniano", previu. 

Reprodução - Imagem de vídeo mostra protesto em Mashhad, no nordeste do Irã

Integrante da ONG Hengaw, o ativista político e de direitos humanos curdo iraniano Kamran Teymouri, hoje exilado em Trondheim (Noruega), afirmou ao Correio que a mensagem de Trump levou alegria e esperança ao povo do Irã. "Eles sentem que não estão sozinhos. Mas tudo dependerá do tipo de ajuda. Espero um ataque militar para alvejar os centros do regime que oprimem a população", comentou. "Outra possibilidade é um bombardeio a lideranças iranianas. Um ataque ao líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, representaria um ponto de guinada."

Diretor da ONG Iran Human Rights (IHR), o iraniano Mahmood Amiry-Mohgaddam explicou à reportagem que os iranianos protestam por um motivo claro. "Eles o fazem porque não querem um regime incompetente, corrupto e repressivo, não porque outros lhes pedem para fazê-lo. Os EUA e a comunidade internacional têm a responsabilidade de proteger os civis iranianos contra os massacres cometidos pela República Islâmica", disse. Questionado se apoiaria um ataque dos EUA contra o Irã, o ativista foi categórico: "Não, o povo iraniano, eventualmente, vai depor o regime".

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

Um presidente no exílio

Reza Pahlavi foi criado e moldado para suceder o pai, Mohammad Reza Pahlavi, mas viu-se forçado ao exílio desde a Revolução Islâmica de 1979. Quase cinco décadas depois da deposição do pai, ele ressurge como uma figura de unidade nos protestos que sacodem o Irã. O grito "Pahlavi voltará!" tornou-se um mantra das manifestações, e o homem de 65 anos, radicado nos Estados Unidos, envia mensagens frequentes em vídeo nas redes sociais convocando a população a protestar. Ele chega a oferecer aos manifestantes conselhos sobre estratégia e os momentos adequados para ir às ruas. 

No domingo, em entrevista à Fox News, Pahlavi afirmou estar "preparado para voltar ao Irã na primeira oportunidade". Durante a revolução, em 1979, ele estava fora do território iraniano — deixou o país em 1978, aos 17 anos, para se formar como piloto militar dos EUA. Seu pai morreu em 1980, no Egito. Sua mãe, de 87 anos, está viva. Pahlavi insiste que não quer ser coroado monarca do Irã, mas que está pronto para liderar uma transição rumo a um país livre e democrático.

Reza Pahlavi/AFP - Imagem de vídeo mostra Reza Pahlavi, filho do xá Mohammad Reza Pahlavi e principal nome da oposição no Irã

Ainda assim, é uma figura que divide opiniões, inclusive entre a oposição iraniana. Ele condenou a repressão que marcou a história da República Islâmica, mas nunca criticou o governo autocrático de seu pai, imposto com o apoio da temida polícia secreta Savak. Pahlavi defende um Irã laico, com maiores liberdades sociais, especialmente para as mulheres, além de espaço para os apoiadores da República Islâmica. Porém, seu estilo comedido contrasta com o de alguns aliados que defendem punir adversários. 

Reza Pahlavi também enfrentou tragédias familiares, como em junho de 2001, quando sua irmã mais nova, Leila, foi encontrada morta em um quarto de hotel em Londres. Uma investigação concluiu que ela ingeriu uma mistura de medicamentos e cocaína. Em janeiro de 2011, seu irmão mais novo, Ali Reza, suicidou-se com um tiro em Boston, o que, segundo a família, ocorreu após "anos de luta para superar a tristeza" pela perda da pátria, do pai e da irmã.

MEMÓRIA

Da fita cassete às redes sociais

SILVIO QUEIROZ

Nos primeiros meses de 1978, a arma dos opositores do xá Reza Pahlavi eram os gravadores e as fitas cassete. Soa quase pré-histórico, hoje, mas foi com esses recursos que se fez, em boa parte, a isurreição popular que viria a derrubar a monarquia milenar, em fevereiro de 1979. Eles cumpriram, na época, o papel cumprido hoje pelas redes sociais.

As fitas contrabandeadas para o Irã registravam sermões do aiatolá Ruhollah Khomeini, líder inconteste dos muçulmanos xiitas iranianos, então exilado em Paris — depois de um período no Iraque, de onde fora expulso como parte de um acordo entre o xá e o ditador Saddam Hussein. Em suas mensagens, Khomeini chamava os iranianos a se insurgir contra a monarquia, que tinha na repressão sistemática dos opositores o alicerce de sua sobrevivência.

Bastou um ano, talvez pouco menos, para as palavras do imã se traduzirem em atos. Nos primeiros dias de 1979, o xá autorizou o retorno de Khomeini ao país. Recebido em Teerã por uma multidão avaliada em 5 milhões de seguidores, em 1º de fevereiro, Khomeini precisou de apenas 10 dias para proclamar a República Islâmica.

Não apenas pôs fim ao reinado da dinastia Pahlavi. Deu a partida a um período no qual, não apenas no Irã — e não apenas entre os muçulmanos xiitas —, a fé islâmica emergiu como viga-mestra para forças que, em diferentes países do Oriente Médio, buscavam caminhos para a emancipação de séculos de dominação colonial.

TRÊS PERGUNTAS PARA...

KAMRAN TEYMOUR, curdo-iraniano, ativista político e de direitos humanos, membro da organização não governamental Hengaw

Os protestos no Irã têm diminuido de intensidade?

Protestos generalizados e contínuos ainda persistem em todo o Irã. Há estimativas conflitantes, mas relatos extremamente graves de vítimas da repressão do governo. Grupos independentes e ativistas relatam que o total de mortos chegue a milhares (alguns citam mais de 2 mil). As agências do governo iraniano e fontes pró-regime tendem a citar números mais baixos. Nós, da ONG Hengaw, estimamos que entre 2 mil e 3 mil pessoas possam ter sido assassinadas. Documentamos e identificamos 80 delas. Devido às restrições de comunicação resultantes do bloqueio da internet pelo regime, é difícil acessar informações confiáveis. 

Arquivo pessoal - Kamran Teymour, curdo-iraniano, ativista político e de direitos humanos, membro da ONG Hengaw

O Irã enfrenta, hoje, um ponto de virada crucial?

Acho que é um momento sério, mas depende de alguns fatores, como o apoio internacional e a unidade dos grupos de oposição e dos partidos políticos. Não existe um líder único deses protestos. As forças de segurança permanecem leais e o regime reprime a população o máximo que pode.

O senhor defende um ataque militar americano?

Sim, porque estamos lidando com um regime brutal e ideológico que não hesita em matar pessoas e justifica isso com argumentos religiosos e ideológicos. Portanto, um ataque dos EUA facilita o trabalho do povo para derrubar o regime. (RC)

 

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