
O alerta foi feito pelo ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, enquanto a repressão aos protestos que se espalharam pelo país deixou mais de 600 mortos: "Não estamos buscando a guerra, mas estamos preparados para ela — ainda mais preparados do que a guerra anterior". Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu o tom em relação ao regime teocrático islâmico dos aiatolás e prometeu uma resposta "muito forte" contra a matança de manifestantes. "O Irã está vislumbrando a liberdade, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!", escreveu o republicano na plataforma Truth Social, no último sábado (10/1).
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A Casa Branca anunciou, nesta segunda-feira (12/1), que não descarta ataques aéreos contra Teerã, mas que prefere a via diplomática. Trump anunciou que pretende impor tarifas de 25% a qualquer país que comercialize com os iranianos Os novos protestos no Irã começaram em 28 de dezembro, ancorados na demanda contra o aumento do custo de vida. Com o passar dos dias, ganharam o caráter de movimento de oposição aos aiatolás, que governam a nação desde 1979.
Apesar do bloqueio à internet imposto pelas autoridades, vídeos vazados de Teerã e de outras cidades mostraram grandes manifestações. Em outra gravação, cuja autenticidade foi comprovada pela agência de notícias France-Presse, dezenas de corpos cobertos com lençóis aparecem no pátio do Centro de Diagnóstico Forense e Laboratório da Província de Teerã, em Kahrizak.
Na contraofensiva, o aiatolá Ali Khamenei, guia supremo iraniano, elogiou o "grande trabalho" dos participantes de um suposto protesto pró-regime, ontem. "Essas grandes manifestações, repletas de determinação, frustraram o plano de inimigos estrangeiros, que seria executado por mercenários nacionais", afirmou, em publicação na rede social X. "Isso foi um aviso aos políticos norte-americanos para que interrompam suas falsidades e não confiem em mercenários traidores."
"Terroristas"
Os contraprotestos teriam reunido milhares de pessoas na Praça Enghelab ("Revolução"), no coração de Teerã. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, assegurou que o país enfrenta uma "guerra contra terroristas" em "quatro frentes": econômica, psicológica, militar e antiterrorismo — uma alusão aos manifestantes. Apesar da retórica belicista, a chancelaria do Irã abriu a comunicação entre Teerã e o enviado dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff.
Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da organização não governamental Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, admitiu ao Correio que o regime iraniano organizou manifestações de poder ontem. "Foram atos para uso interno, com o objetivo de propaganda. A acusação de que os Estados Unidos estariam por trás dos protestos contra o regime é algo completamente falso", disse. "O povo iraniano saiu às ruas. Principalmente os mais jovens, que apenas querem uma vida normal e não desejam uma república islâmica, e o regime sabe disso. Nenhum país está por trás dessas manifestações. Elas nada mais são do que as exigências de direitos fundamentais dos iranianos."
Amiry-Moghaddam explicou que a internet está completamente desativada no Irã. "As redes de dados de celulares também foram fechadas em muitos locais. Por isso, é muito difícil uma verificação de fatos. Com base no que publicamos hoje, pelo menos 648 pessoas foram assassinadas, a maior parte depois de quinta-feira, quando começou o bloqueio da internet", afirmou o ativista. "Também há informações de que os números podem chegar a vários milhares. Não temos um cenário claro sobre o total de mortos, mas são ao menos 648."
Ainda segundo o diretor da IHR, a Guarda Revolucionária Iraniana usou armamento pesado contra civis. "De um lado, temos civis desarmados; de outro, a Guarda Revolucionária, que derrubou a internet e tem assassinado o máximo possível de manifestantes", observou Amiry-Moghaddam. "A menos que uma grande mudança ocorra, interna ou externamente, não é impossível que os protestos sejam controlados dessa vez. Mas, certamente, eles voltarão. A Guarda Revolucionária foi quem salvou Bashar Al-Assad, em 2011, matando milhares de pessoas. No entanto, mais tarde, vimos o que ocorreu. É questão de tempo até que a república islâmica deixe de existir."
Um sarcófago em ruínas
Na madrugada desta segunda-feira (12/1), pelo horário local, o aiatolá Ali Khamenei publicou em seu perfil na rede social X a imagem de Donald Trump como se fosse um sarcófago se despedaçando. "Aquele que ali se senta com arrogância e orgulho, julgando o mundo inteiro, deveria saber também que, geralmente, tiranos e arroganes, como o faraó, Nimrod (bisneto de Noé), Reza Khan (xá Reza Pahlevi) e outros semelhantes, foram depostos enquanto estavam no auge de seu orgulho. Este também será deposto", escreveu o guia espiritual supremo iraniano.
PALAVRA DE ESPECIALISTA
Desequilíbrio político
"Os protestos que eclodiram nas ruas das principais cidades do Irã são, em realidade, o resultado de um severo desequilíbrio na organização política do país, causado pelas intervenções militares dos Estados Unidos e de Israel, em junho de 2025. A intensidade e a escalada no uso da força pelo governo iraniano contra a população civil é o terrível sintoma de uma crescente dificuldade em manter a imagem de força e respeito, que o regime dos aiatolás necessita para justificar e legitimar seu poder.
Do ponto de vista do direito internacional, vale ressaltar que o Irã não ratificou uma série de convenções das Nações Unidas para a proteção dos direitos humanos. Há pouco o que se possa fazer para mitigar a escalada da violência. Independentemente das violações aos direitos humanos em confrontos no passado recente do Irã, a Carta das Nações Unidas ainda reconhece a soberania do país." (Isabella Almeida)
Igor Navarro, advogado especialista em direito internacional e negócios internacionais

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