
"Durmo mal à noite mesmo com medicamentos", diz o aposentado Hamid. Ele não é o único; muitos moradores de Teerã têm dificuldade para conciliar o sono desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começou a ventilar publicamente a possibilidade de um ataque contra o Irã, como já realizou em junho de 2025.
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Na noite de 12 para 13 de junho do ano passado, um ataque de Israel, posteriormente respaldado por Washington, surpreendeu os iranianos quando o país se preparava para novas negociações sobre o programa nuclear com os Estados Unidos.
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Oito meses depois, as conversas foram retomadas, mas os iranianos observam com preocupação o grande deslocamento militar americano no Oriente Médio. O presidente americano declarou na quinta-feira (19/2) que acreditava poder, em um período de "10 a 15 dias", decidir se é possível alcançar um acordo ou se, ao contrário, recorrerá à força.
Na sexta-feira, como para acentuar a pressão sobre o governo iraniano, Trump afirmou que considerava a possibilidade de um ataque "limitado" contra o país.
Ontem, em discurso transmitido ao vivo pela TV estatal, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, retrucou, sustentando que o país "não cederá diante de nenhuma provação, mesmo que as potências mundiais se levantem contra nós com injustiça e tentem nos submeter".
"Inevitável"
"Acho que uma guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel é inevitável", declarou à agência de notícias AFP Mina Ahmadvand, que trabalha com tecnologia da informação na capital, Teerã. Muitos iranianos compartilham essa opinião. Desde o frágil cessar-fogo de junho, concluído após 12 dias de conflito bélico, vivem em uma incerteza permanente e seguem traumatizados.
"Já não durmo à noite. Tenho pesadelos em que me perseguem, nos quais eu morro. Vou dormir tarde, acordo tarde e estou deprimida", descreve Hanieh, que não quis dar o nome completo.
Sinal da extrema tensão, uma tempestade noturna em Teerã na semana passada foi suficiente para assustar os moradores, que acreditaram ser o início da guerra, contaram vários deles à AFP. O mesmo ocorreu com fogos de artifício por ocasião do 47º aniversário da Revolução Islâmica.
O Irã advertiu que, em caso de ataque, Israel, seu inimigo declarado e aliado dos Estados Unidos, seria um alvo legítimo, assim como as bases americanas no Oriente Médio.
A possibilidade de uma guerra surge em cada conversa, com sua carga de rumores e especulações de todo tipo.
"Montanha-russa"
"É uma montanha-russa: de repente guerra, de repente um acordo. Tudo muda de uma hora para outra", descreve um morador de Teerã, que prefere manter o anonimato. Esse contexto explosivo é um fator adicional de ansiedade no Irã, já abalado após a morte de milhares de pessoas em janeiro durante manifestações antigovernamentais e o bloqueio da internet imposto pelas autoridades por quase três semanas.
"Minha vida está como que suspensa" desde as manifestações, resume Hanieh. "Agora, com esta situação, estamos esperando para ver o que vai acontecer", acrescenta essa ceramista de 31 anos, que acredita que "a guerra vai estourar dentro de 10 dias".
Ontem, nada ou quase nada deixava transparecer a preocupação em Teerã, uma metrópole movimentada de 10 milhões de habitantes. Mas, por trás da aparente rotina, os moradores tomam precauções. "Comprei uma dezena de enlatados, especialmente atum e feijão, além de biscoitos, água engarrafada e pilhas de reposição", enumera Mina Ahmadvand, ao falar da preparação para "o pior".
Saiba Mais
Vídeos mostram tensão em protesto
Estudantes entoaram slogans contra o governo do Irã durante manifestações em memória das vítimas da repressão à última onda de protestos, segundo relatos da mídia local e da diáspora iraniana divulgados ontem. Durante o ato de ontem, grupos de oposição à liderança religiosa entraram em confronto com coletivos pró-governo.
Vídeos geolocalizados pela agência de notícias AFP em uma importante universidade de engenharia em Teerã mostram confrontos entre a multidão, com pessoas gritando "bi sharaf" — "vergonha", em farsi, termo comumente usado por manifestantes contra a teocracia — e outras agitando bandeiras do país, em apoio ao regime.
Imagens transmitidas pela rede de televisão em língua persa Iran International, sediada fora do país, mostraram uma multidão entoando slogans contra o governo na Universidade de Tecnologia Sharif.
Os iranianos retomaram suas manifestações esta semana para marcar, de acordo com a tradição de luto xiita, o 40º dia desde a morte de milhares de pessoas durante a última onda de protestos, que atingiu seu ápice nos dias 8 e 9 de janeiro.
Manifestantes se reuniram novamente em diversas universidades da capital nesse sábado, segundo relatos da mídia local.
Os distúrbios começaram em dezembro, em meio a uma prolongada crise financeira, mas se transformaram em uma onda massiva de protestos contra o regime, que foram violentamente reprimidos pelas forças de segurança, deixando milhares de mortos, segundo grupos de direitos humanos.

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