Juan Pablo Guanipa, um dos principaís dirigentes da oposição e aliado de María Corina Machado, tornou a ser preso depois de 12 horas de liberdade, no domingo (8/2). A captura teria sido motivada pelo fato de ele ter falado sobre eleições, percorrido Caracas de motocicleta e se reunido com familiares de presos políticos. "Acredito que isso tem que terminar com o respeito à vontade do povo venezuelano", declarou Guanipa à agência de notícias France-Presse (AFP) após deixar a prisão. "Em 28 de julho de 2024, o povo se manifestou, houve uma decisão popular. Queremos respeitá-la? Vamos respeitá-la, isso é o básico, isso é o lógico. Ah, não quer respeitá-la? Então, vamos a um processo eleitoral", acrescentou, ao fazer alusão à vitória do ex-diplomata Edmundo González Urrutia nas urnas, em uma votação contestada pelo regime do então presidente Nicolás Maduro, capturado pelos EUA em 3 de janeiro passado.
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Guanipa estava preso desde 23 de maio de 2025, após ser acusado de conspirar para impedir a eleição de governadores e deputados do chavismo. O Ministério Público solicitou ao Tribunal de Justiça a mudança do regime de prisão de fechado para domiciliar. "As medidas cautelares acordadas pelos tribunais estão condicionadas ao cumprimento estrito das obrigações impostas", indicou o MP. Diosdado Cabello, ministro do Interior e número dois do regime chavista, confirmou que ordenou a nova prisão de Guanipa sob a justificativa de descumprimento das medidas cautelares.
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A líder opositora María Corina Machado, laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2025, denunciou o "sequestro" de seu aliado e exigiu eleições democráticas. "É a demonstração de que estamos enfrentando não apenas um regime criminoso, mas um regime que tem medo da verdade, que tem medo do cidadão", disse a jornalistas em Washington. Machado reafirmou a intenção de retornar à Venezuela, apesar do risco de ser presa. "Isso não afeta em nada o meu retorno. Muito pelo contrário. (...) Tenho sido muito clara quanto ao meu propósito de voltar à Venezuela o quanto antes e acompanhar os venezuelanos no avanço rumo à transição democrática", assegurou. Por sua vez, Urrutia cobrou uma "prova de vida imediata" de Guanipa. "A falta de informações sobre o paradeiro dele configura um desaparecimento forçado", advertiu.
Para o cientista político venezuelano Jesús Castellanos Vásquez, a prisão de Juan Pablo Guanipa é "grave, porém, ilustrativa". "Ela deixa claro que o regime mantém o viés autoritário, com o agravante de que, agora, existe a tutela do governo dos Estados Unidos", afirmou ao Correio. "É um regime onde seguem existindo detenções arbitrárias, desconhecimento do devido processo e do Estado de Direito, o que abre margem para as violações dos direitos humanos", acrescentou. O estudioso assegura que a figura de presos políticos é mantida por meio da prisão domiciliar e da proibição a qualquer tipo de expressão, reunião ou manifestações políticas.
Esperança
Castellanos admite, no entanto, que a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas sinalizou a esperança de mudanças na Venezuela. "O regime de Delcy Rodríguez continua a exibir um caráter autoritário. Mas, teve que ceder às pressões dos EUA e da sociedade venezuelana, o que criou uma janela de oportunidade para vencer o medo", explicou.
Por sua vez, José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), vê um "grave erro" do Ministério Público venezuelano. "O juiz libertou Guanipa, com a única condição de que se apresente depois de um certo período e não abandone o país. Trata-se de uma decisão antidemocrática de um promotor, que é membro do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV). Guanipa teria que cumprir prisão domiciliar e, portanto, deveria estar viajando a Maracaibo, onde vive", disse ao Correio. De acordo com ele, a Venezuela é uma nação tutelada. "Ela perdeu uma guerra contra os Estados Unidos, a qual se arrastou de setembro a janeiro. As ordens vêm claramente dos EUA."
EU ACHO...
"Temos visto familiares de presos políticos, estudantes universitários, representantes da Igreja Católica e líderes se expressarem ou saírem da clandestinidade. É um movimento que não para de crescer, inclusive em meios de comunicação, como o Venevisión. Isso ocorre em todo o país. A prisão de Guanipa deterá esse fenômeno? Não acredito. Há uma força que está ali, presente desde 3 de janeiro."
Jesús Castellanos Vásquez, cientista político venezuelano da Universidad Central de Venezuela
"É uma situação preocupante, pois desnuda o desejo do regime chavista de manter o terror como mecanismo de dominação da população. O que mais preocupou o regime foi a capacidade de Guanipa convocar pequenas manifestações. A postura do promotor é absolutamente passível de crítica. Não se comporta como garantidor dos direitos humanos, mas como uma pessoa disposta a forçar comportamentos inadequados da ditadura."
José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas)
Crise de combustível desacelera rotina em Cuba
O governo de Cuba começou a aplicar novas medidas de emergência destinadas a economizar combustível para enfrentar o estrangulamento energético imposto pelos Estados Unidos, que afeta duramente o cotidiano da população. Nas ruas de Havana, o trânsito estava menor do que o habitual. No bairro central de El Vedado, as calçadas, normalmente cheias de moradores que saem para resolver pendências, ficaram praticamente desertas. Rosa Ramos, enfermeira de 37 anos, esperava havia mais de uma hora na rua por um transporte que lhe permitisse chegar ao trabalho, um hospital situado a oeste da capital, a cerca de 10 quilômetros dali.
De acordo com ela, as medidas anunciadas pelo governo na sexta-feira são "de resistência" e destinam-se a impedir o colapso do país. Entre as ações tomadas pelas autoridades, estão a semana de trabalho de quatro dias para economizar eletricidade, o teletrabalho e o racionamento da venda de combustível a particulares. "Mas, ao mesmo tempo, geram muita incerteza na população, porque a gente se pergunta por quanto tempo um país consegue viver nessas condições", lamentou.
Desde segunda-feira (9/2), usuários de táxis privados notaram aumento no preço do serviço, que em alguns trajetos passou de 200 pesos (R$ 2,09) para 350 pesos cubanos (R$ 3,66). A ilha comunista, com 9,6 milhões de habitantes, encontra-se em situação particularmente vulnerável após o fim do envio de petróleo da Venezuela, depois da derrubada de Nicolás Maduro em uma incursão armada dos Estados Unidos. Além disso, Washington ameaçou impor tarifas aos países que forneçam petróleo a Havana.
"Muito injusto"
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, classificou como "muito injusto" que os Estados Unidos ameacem impor tarifas a quem forneça petróleo a Cuba. "Não se pode sufocar um povo dessa maneira, é muito injusto", denunciou a presidente de esquerda. Na véspera, o México anunciou o envio de dois navios da Marinha carregados com 814t de alimentos para os cubanos. Principal aliada de Havana, a Rússia denunciou as "medidas asfixiantes" dos Estados Unidos. "A situação em Cuba é realmente crítica", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, ao informar que Moscou mantém conversas com as autoridades cubanas para oferecer assistência.
