A advogada Virginia Giuffre, símbolo da luta pelas vítimas do tráfico sexual e sobrevivente dos abusos cometidos pelo financista norte-americano Jeffrey Epstein, se matou em 25 de abril de 2025. Nove meses e 16 dias depois de sua morte, o Congresso norte-americano apresentou a Lei de Virginia — o texto elimina limites de prazo para que os sobreviventes de predadores sexuais apresentem ações civis. O senador democrata Chuck Schumer explicou que a legislação abrirá "novas vias legais" para as vítimas buscarem uma reparação. "A justiça não deveria prescrever, pois, para os sobreviventes, a cura não segue o ritmo do governo. Durante anos, os sobreviventes dos abusos de (Jeffrey) Epstein foram ignorados... Mesmo quando o mundo finalmente os escutou, muitos deles ainda ouviram da lei: 'É tarde demais, sua justiça prescreveu'. A Lei de Virginia muda isso", observou o congressista.
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O projeto de lei foi apresentado, durante entrevista coletiva no Capitólio, que contou com a presença de Sky Roberts, irmão de Giuffre. Emocionado, ele leu um comunicado da família no qual destacou que a lei prometerá às vítimas "o direito de buscarem justiça, não importando o status social, a riqueza ou o poder dos agressores, nem quando o abuso ocorreu". "O sonho de Virginia era de inspirar e encorajar as vítimas a denunciarem (seus algozes)", declarou Roberts.
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Para se tornar lei de fato, o texto tem de passar pelo crivo da Câmara dos Representantes e do Senado e pela sanção do presidente Donald Trump. Nesta terça-feira (10/2), o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, admitiu ter visitado a ilha do pedófilo e traficante sexual, mas negou qualquer vínculo com o financista, encontrado morto em sua cela de prisão, em Nova York. Três sobreviventes dos abusos de Epstein destacaram a importância da proposta apresentada por Schumer.
"Conheci Epstein quando eu tinha 16 anos. Fui sexualmente abusada por Jeffrey e estive em sua órbita por dois anos", desabafou ao Correio Haley Alexa, hoje com 39 anos e atuante no ramo da hotelaria em West Palm Beach, na Flórida. "O abuso sexual e os atos hediondos que sofri me levaram a mais abusos. Destruíram minha capacidade de confiar, de ter relacionamentos saudáveis e de estabelecer limites. Jeffrey roubou minha infância e minha inocência", acrescentou. Ela defende que não deveriam existir restrições em relação ao momento em que crianças e mulheres escolherem denunciar um episódio de violência sexual. Alexa fez questão de enviar um recado a outras potenciais vítimas de Epstein, que temem falar sobre os abusos. "Por favor, na condição de sobrevivente, se você se manifestar, procure um terapeuta. É muito difícil lidar com a toxicidade da divulgação desses arquivos do caso Epstein. Cerque-se de pessoas que estão ativamente em recuperação", aconselhou a hoje membro da diretoria da ONG Survivorsinc.org e defensora dos direitos humanos.
A ex-modelo norte-americana Lisa Phillips foi abusada pela primeira vez por Epstein durante uma massagem. Tinha 20 anos. A violência sexual se estendeu por cerca de 36 meses. Ao Correio, ela admitiu que "a nova legislação é muito importante por permitir que as vítimas processem seus agressores". "Muitas sobreviventes de predadores são manipuladas por meio de controle coercitivo e levam muitos anos para compreender o abuso que sofreram", destacou. "Apesar de termos leis contra a pedofilia e o abuso sexual, elas não são aplicadas quando os agressores são extremamente ricos. Eles conseguem viver segundo regras diferentes."
De acordo com Phillips, ainda existe, nos Estados Unidos, uma falta de compreensão da complexidade do abuso sexual, o que torna a responsabilização mais difícil. "Além disso, a pedofilia é, frequentemente, um assunto sobre o qual a maioria das pessoas não se sente confortável para falar", disse. A brasileira Marina Lacerda, 37 anos, sofreu repetidos abusos de Epstein dos 14 aos 17. "Considero a Lei Virginia muito importante para as futuras vítimas. Ela fará com que as pessoas pensem duas vezes antes de cometer abusos, pois permitirá que as mulheres persigam seus abusadores e os levem aos tribunais", afirmou ao Correio, também por telefone.
Lacerda também vê uma falta de determinação do governo em lidar com os abusos. "Acho que os homens poderosos nos Estados Unidos estão tomando controle do caso e escapando de uma punição. Nós veremos alguns nomes que tinham sido censurados, gente muito poderosa. Falta responsabilização nos Estados Unidos."
VOZES DAS VÍTIMAS
"A verdadeira cura ocorre quando você começa a falar e a expressar em voz alta o que aconteceu com você. Isso faz com que você se liberte da vergonha. Você não precisa mais de carregar esse peso."
Lisa Phillips, ex-modelo americana, abusada por Epstein aos 20 anos, entre 2000 e 2003
"Há uma falta de compromisso dos EUA em punir pedófilos e proteger vítimas.Nossa sociedade tenta normalizar o estupro de crianças. Ser sobrevivente dos abusos de Epsteinsignifica enfrentar o sistema demoníaco e unilateral em benefício detodos os sobreviventes. Significa dar luz àqueles que estão na escuridão."
Haley Alexa, 39 anos, abusada por Epstein dos 16 aos 18 anos, entre 2002 e 2004
"Estou muito feliz que possamos ter dado esse passo, graças a Deus e à Virginia Giuffre. Ela tornou isso possível. Também destaco o trabalho de seu irmão Robert Sky, que lutou por isso. Tivemos um grande dia nos Estados Unidos. Isso, definitivamente, dá mais suporte às vítimas e sobreviventes."
Marina Lacerda, brasileira, 37 anos, sofreu repetidos abusos de Epstein dos 14 aos 17
