Um grupo de nove especialistas independentes da Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que os arquivos do caso envolvendo o pedófilo e traficante sexual norte-americano Jeffrey Epstein "contêm evidências perturbadoras e credíveis de abuso sexual sistemático e em larga escala, tráfico e exploração de mulheres e meninas". "Esses crimes foram cometidos em um contexto de crenças supremacistas, racismo, corrupção, misoginia extrema e mercantilização e desumanização de mulheres e meninas de diferentes partes do mundo", advertiram os peritos, que associaram Epstein à escravidão sexual, violência reprodutiva, desaparecimento forçado, tortura, tratamento humano e degradante, e feminicídio. "A escala, a natureza, o caráter sistemático e o alcance transnacional dessas atrocidades contra mulheres e meninas são tão graves que várias delas podem, razoavelmente, atingir o limiar legal de crimes contra a humanidade", acrescentaram.
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Com a ajuda da namorada Ghislaine Maxwell, Epstein foi acusado de montar uma rede de tráfico sexual para abusar de centenas de garotas e colocá-las à disposição para a sevícia de poderosos nos Estados Unidos e no exterior. Os especialistas da ONU consideram que os chamados "Arquivos Epstein, que sugerem a existência de uma organização criminosa global, chocaram a consciência da humanidade e levantaram implicações aterradoras sobre o nível de impunidade para tais crimes". Mais de 3 milhões de páginas, 2 mil vídeos e 180 mil fotografias compõem o último conjunto de arquivos, divulgado em 30 de janeiro passado.
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Os especialistas constataram graves "falhas de conformidade" e "censuras malfeitas", que expuseram informações sensíveis sobre as vítimas. Segundo os peritos, a responsabilização pelos crimes da rede de tráfico montada por Epstein tem sido limitada — apenas Maxwell foi condenada a 20 anos de prisão, apesar de recrutadoras de menores para os abusos estarem livres. Os peritos reforçam que "a falta de proteção da privacidade das vítimas as coloca sob risco de retaliação e estigma". "Os graves erros no processo de divulgação ressaltam a necessidade urgente de procedimentos operacionais centrados nas vítimas." Eles reforçam que os prazos de prescrição que impedem a punição a crimes atribuídos à organização de Epstein devem ser revogados.
Abusada por Epstein entre 2000 e 2003, Lisa Phillips classificou o alerta da ONU como "reconfortante". "Ele reconhece que não foram abusos isolados, mas um padrão sistemático de exploração protegida pelo poder e pelo silêncio", admitiu ao Correio. "Quando especialistas dizem que esses atos podem configurar crimes contra a humanidade, isso confirma a dimensão e a gravidade do sofrimento de muitas meninas." O pedófilo foi encontrado morto, na prisão, em 10 de agosto de 2019.
O advogado Alan Dershowitz, 87 anos, conheceu Epstein em agosto de 1996. "Fui apresentado a ele por Lynn Rothschild. Na época, eu o achei muito esperto", explicou ao Correio o homem que estabeleceu um vínculo profissional com o financista e trabalhou em sua equipe de defesa em 2007. Dershowitz ajudou Epstein a obter um acordo com o Estado para que escapasse de um processo criminal na Flórida. "Eu apoio a completa divulgação de tudo o que diz respeito ao caso, exceto os nomes das menores", acrescentou. Ao ser questionado se hoje considera que Epstein foi culpado de pedofilia, ele respondeu: "Sim". Em julho de 2019, quando Epstein foi formalmente acusado pelo crime federal de tráfico sexual de menores, Alan Dershowitz não mais fazia parte de seu conselho de defesa. "Eu me voluntariei a testemunhar sobre o caso, mas o Congresso não quis escutar a verdade", disse.
Filhas de Andrew
A mais recente remessa de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça traz menções sobre a família do ex-príncipe britânico Andrew, irmão do rei Charles III. De acordo com os arquivos, Sarah Ferguson, ex-duquesa de York e ex-mulher de Andrew, trocou e-mails com Epstein e levou as filhas, as princesas Beatrice e Eugene, para almoçarem com o pedófilo, depois de ele cumprir pena de 13 meses. Em um dos e-mails, Epstein perguntou a Ferguson sobre uma possível viagem da ex-duquesa a Nova York. "Não estou certa. Ainda esperando que Eugene retorne de um fim de semana de sexo", escreveu Sarah.
EU ACHO...
"Acredito na plena responsabilização criminal de todos que contribuíram, facilitaram ou participaram dessa rede de tráfico humano. Nenhuma renúncia ou saída discreta deve substituir a punição quando há evidências. Seguir em frente, sem uma investigação completa, proteção às vítimas e consequências reais, somente agravaria o dano e demonstraria que riqueza e influência ainda se sobrepõem à justiça."
Lisa Phillips, sobrevivente dos abusos cometidos por Jeffrey Epstein
PODER, INTERESSE E PROTEÇÃO
Relações com o ex-príncipe Andrew
Jeffrey Epstein e o ex-principe britânico Andrew se conheceram no início dos anos 1990. O irmão do rei Charles III chegou a frequentar a mansão do pedófilo nas Ilhas Virgens Americanas. Uma das vítimas de Epstein, Virginia Giuffre contou ter sido abusada por Andrew quando tinha 17 anos. Nos últimos arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça, e-mails revelam o interesse de Epstein pelas filhas de Andrew.
Apoio ao juiz Kavanaugh
O criminoso sexual manifestou apoio ao juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos Brett Kavanaugh (foto), durante o processo de indicação do magistrado, em 2018. Ele sugeriu que os senadores republicanos deveriam ter sido mais rigorosos com Christine Blasey Ford, que acusou Kavanaugh de abuso sexual.
Laços com Steve Bannon
Estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon aconselhou Epstein sobre como lidar com as acusações de que ele era um pedófilo em série. O aliado-chave de Donald Trump e ideólogo do movimento MAGA ("Tornar a América grande novamente") recomendou advogados para o financista e agendou para ele um "treinamento de mídia", revelaram os últimos arquivos.
Financiamento acadêmico
Epstein manteve reuniões com cientistas laureados pelo Nobel, professores e escritores norte-americanos. Muitas dessas figuras afirmaram que uma relação de amizade com o financista seria uma oportunidade de garantir financiamento privado para suas pesquisas e projetos.
