Diretor do Centro de Estudos da Diversidade e da Democracia da Northwestern University (Illinois) e professor de ciência política, Alvin B. Tillery Jr. conheceu o reverendo Jesse Jackson quando era um jovem organizador na faculdade. Depois que se tornou professor, teve a oportunidade de encontrar o líder dos direitos civis em várias ocasiões. "Era um homem carismático, brilhante e cativante", lembra-se. Em entrevista exclusiva ao Correio, Tillery avaliou a importância e o legado de Jesse Jackson para a comunidade afroamericana e a sociedade dos Estados Unidos. "Sem Jackson normalizando a ambição presidencial negra e conquistando delegados em todo o país, é difícil imaginar a trajetória que levou a Barack Obama", observou. Ele também falou sobre a proximidade do reverendo com Martin Luther King Jr., símbolo maior da luta dos direitos civis e contra a segregação racial nos Estados Unidos.
- Morre o ativista Jesse Jackson, aos 84 anos
- Morre Jesse Jackson: quem foi o protegido de Martin Luther King que abriu caminho para figuras como Barack Obama na política dos EUA
Qual é o principal legado de Jesse Jackson? Como acha que ele deve ser lembrado?
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Falando francamente como estudioso do desenvolvimento político americano, eu diria que o principal legado de Jesse Jackson é ter institucionalizado as reformas do movimento pelos direitos civis dos negros. A maioria dos americanos se lembra dele como pregador, candidato à presidência ou figura carismática no cenário nacional. Mas, historicamente, sua contribuição mais importante foi estrutural. Após o assassinato de Martin Luther King Jr., o movimento enfrentou uma encruzilhada: recuar para protestos simbólicos ou avançar em direção às instituições partidárias. Jackson escolheu a segunda opção. Ele ajudou a consolidar as reformas iniciadas após a Convenção Democrata de 1968 e pressionou o Partido Democrata a adotar integralmente um sistema de primárias com delegados diversos, que abriu o processo de nomeação para afro-americanos, mulheres e ativistas de base.
E como o senhor avalia o fato de ele ter tentado chegar à Casa Branca por duas vezes?
Suas campanhas de 1984 e 1988 não foram projetos de vaidade. Foram demonstrações conceituais de que uma coalizão democrática multirracial poderia competir pelo poder nacional. Sem Jackson normalizando a ambição presidencial negra e conquistando delegados em todo o país, é difícil imaginar a trajetória que levou a Barack Obama.
Como ele conseguiu ajudar a remodelar a sociedade americana e lutar pela justiça racial?
Do meu ponto de vista, Jackson remodelou a sociedade americana de três maneiras cruciais. Em primeiro lugar, ele compreendeu algo que muitos ativistas não perceberam: mudanças duradouras exigem controle sobre as instituições. Por meio de seu trabalho com a Operação PUSH e suas campanhas nacionais, ele construiu redes organizacionais sólidas que traduziram a energia dos protestos em número de delegados, propostas de plataforma e nomeações. Ele forçou o Partido Democrata a internalizar a inclusão racial como um princípio fundamental, e não apenas como um gesto retórico.
Em segundo lugar, ele criou a Coalizão Arco-Íris, que representou uma profunda inovação política na esquerda. Os eleitores negros eram o pilar central, mas a coalizão incluía intencionalmente sindicatos, pequenos agricultores, latinos, brancos progressistas e ativistas pela paz. Essa estrutura expandiu a definição de justiça racial para incluir justiça econômica e inclusão democrática.
A terceira inovação de Jackson foi expandir a imaginação política. Como cientista político, estou atento ao que chamo de "choques de imaginação" na política americana — momentos em que o leque do que parece possível se expande. A campanha de Jackson em 1988, em particular, foi um desses momentos. Milhões de americanos viram um candidato negro competir seriamente em diversas regiões. Essa visibilidade alterou as expectativas cívicas e inspirou uma geração de organizadores, acadêmicos e candidatos.
Como o senhor vê a influência que Martin Luther King Jr. sobre Jesse Jackson?
A formação política de Jackson ocorreu dentro da órbita de King. Através da Operação Breadbasket e da Conferência de Liderança Cristã do Sul, ele absorveu três lições essenciais. King fundamentou a luta política na linguagem da justiça e da dignidade humana. Jackson levou essa cadência para a política eleitoral. Mesmo em debates presidenciais, ele se expressava em termos morais proféticos. A guinada de King, no fim de sua carreira, em direção à Campanha dos Pobres deixou uma profunda marca em Jackson. A Coalizão Arco-Íris expandiu o argumento de King de que pobreza, militarismo e racismo eram sistemas interconectados. King pregava a "comunidade amada". Jackson a operacionalizou dentro do Partido Democrata. Onde King marchava, Jackson organizava as chapas de delegados. Onde King idealizava a democracia multirracial, Jackson a construía dentro das eleições primárias. Em suma, King forneceu a arquitetura moral. Jackson projetou a infraestrutura política.
