Desde 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a advogada de direitos humanos e ativista Oleksandra Matviichuk começou a documentar 97 mil crimes de guerra cometidos pelas forças do presidente Vladimir Putin. Oito meses depois, a organização não governamental Centro para as Liberdades Civis, fundada e dirigida por Matviichuk, ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Em entrevista ao Correio, a ucraniana acusou Putin de planejar a restauração de um Império Russo, denunciou as atrocidades do Exército da Rússia e destacou que a paz não virá quando uma nação ocupada parar de resistir. "Isso não é paz, mas ocupação. A ocupação é a mesma guerra, apenas em uma forma diferente", advertiu. Matviichuk alertou sobre a situação de 1,6 milhão de crianças ucranianas vivendo em regiões ocupadas e denunciou um processo de aculturação. "A Rússia está criando uma nova geração de soldados de Putin a partir dessas crianças. Porque elas irão matar e morrer em qualquer país onde a Rússia lhes ordene que matem e morram", disse.
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Quatro anos se passaram desde a invasão da Rússia. O que é necessário para pôr fim à guerra?
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Este é o quarto inverno de uma invasão em larga escala. Está sendo muito difícil. Mísseis balísticos e drones russos deliberadamente alvejam a rede elétrica, a infraestrutura da qual os civis dependem para a sobrevivência. Em janeiro e fevereiro, as temperaturas despencam para 20 graus Celsius abaixo de zero no país. As cidades ucranianas estão, literalmente, congelando. Milhões de pessoas estão com acesso interrompido ou sem acesso a aquecimento, água ou eletricidade. A ONU classificou as ações da Rússia como crimes contra a humanidade. O fato é que Putin não quer a paz. Ele não lançou uma invasão em grande escala apenas para ocupar mais territórios ucranianos. Seria ingênuo pensar que centenas de milhares de soldados russos morreram para que Putin pudesse capturar Avdiivka ou Bakhmut, cidades que a maioria dos russos sequer consegue localizar em um mapa. Em primeiro lugar, deve haver um cessar-fogo. Depois, negociações sobre um acordo de paz. Caso contrário, trata-se de chantagem e pressão, não de negociações.
Então, por que Putin insiste com o conflito?
Putin lançou uma invasão em grande escala para capturar toda a Ucrânia e avançar ainda mais. Para ele, a Ucrânia é uma ponte para a Europa. Sua lógica é histórica. Putin sonha sobre seu legado e busca restaurar o Império Russo. As pessoas na União Europeia estão relativamente seguras, apenas porque o Exército ucraniano está conseguindo fazer com que o Exército russo retroceda. Putin pretende engajar-se em negociações de paz para reduzir o apoio internacional à Ucrânia, o que tornaria mais fácil que ele atingisse suas metas. Se Putin quisesse a paz, teria concordado, há muito tempo, com a proposta de Volodymyr Zelensky para um cessar-fogo completo, a fim de buscar uma solução diplomática para a situação. Em vez disso, ele continua sua ofensiva armada. Portanto, a sequência de eventos foi interrompida.
Como a senhora vê a possibilidade de a Ucrânia ganhar este conflito?
Eu trabalho com pessoas afetadas pela guerra. Posso garantir a você que o povo ucraniano sonha com a paz. Mas a paz não virá quando um país que for invadido parar de resistir. Isso não é paz, mas ocupação. A ocupação é a mesma guerra, apenas em uma forma diferente. Não se trata de trocar a bandeira de um país por outra. A ocupação russa significa desaparecimento forçado, tortura, estupro, negação da identidade, adoção forçada de crianças, campos de concentração e valas comuns. Por isso, o povo ucraniano sonha com a paz, mas simplesmente não quer ser ocupado.
O que é a paz, na sua concepção?
A paz é a liberdade de viver sem medo ou violência e ter uma perspectiva de longo prazo. Isso é o que milhões de ucranianos sob a ocupação da Rússia não têm. Eles vivem em uma zona cinzenta e não têm meios de proteger a própria liberdade, suas propriedades, suas vidas e seus filhos. Recentemente, os russos assassinaram um casal de idosos que tentava abandonar um vilarejo ocupado, na região de Sumy, por conta própria. O homem puxava a esposa em um trenó em direção a um local onde equipes de resgate ucranianas os aguardavam. Um drone lançou explosivos diretamente sobre a mulher. O homem chorou por uma hora, sem se afastar do corpo da esposa. Em seguida, um segundo drone o atingiu em cheio.
Na condição de laureada pelo Nobel, que mensagem a senhora gostaria de enviar ao mundo sobre o que ocorre em seu país?
Isso não é simplesmente uma guerra entre dois Estados — é uma guerra entre dois sistemas: autoritarismo e democracia. Putin busca provar que um país com capacidade militar poderosa e armamento nuclear pode violar a ordem internacional, ditar suas próprias regras para a comunidade global e até mudar à força fronteiras internacionalmente reconhecidas. Não existe justificativa para as ações russas. Não há propósito legítimo em forçar as pessoas a descerem até o porão, ordenar que indiquem vários voluntários e, muito menos, fuzilá-las. Não existe propósito em usar tanques para se divertir atirando em ciclistas, cujos corpos ficaram espalhados pelas ruas até a libertação. Não há propósito em invadir a casa de alguém, matar o proprietário e estuprar uma mãe, perto do filho de 9 anos. Não existe propósito em atirar à queima-roupa em um garoto de 14 anos que apenas brincava de bola no quintal. Não há nenhuma razão legítima para isso. Nem há qualquer necessidade militar. Os russos fizeram essas coisas terríveis simplesmente porque podiam.
Quais as piores violações dos direitos humanos documentadas por sua ONG desde fevereiro de 2022?
Desde o início da invasão em larga escala, unimos esforços com dezenas de organizações de diferentes regiões. Nós criamos uma rede nacional de documentaristas cobrindo todo o país, incluindo as regiões ocupadas. Trabalhando juntos, registramos mais de 97 mil episódios de crimes de guerra. Isso é apenas a ponta do iceberg, porque os russos usam crimes de guerra como método. Enquanto esta guerra transforma pessoas em números, nós estamos devolvendo os nomes às pessoas.
No âmbito internacional, praticamente não há menção à 1,6 milhão de crianças ucranianas vivendo sob ocupação russa. Elas enfrentam constante pressão e restrições. São proibidas de falar o idioma ucraniano. Têm que estudar com livros didáticos russos, onde a Ucrânia não existe como Estado. Além disso, estão sujeitas à militarização total. Crianças dos territórios ocupados são levadas para campos desportivos e de saúde, onde vestem uniformes militares, vivem em quartéis e aprendem a usar armas. E isto não é apenas uma questão de direitos humanos, é também uma questão de segurança. Após os 14 anos, as crianças ucranianas são obrigadas a obter um passaporte da Federação Russa. Aos 18, são submetidas ao alistamento obrigatório no Exército russo. A Rússia está criando uma nova geração de soldados de Putin a partir desses 1,6 milhão de crianças ucranianas. Porque elas irão matar e morrer em qualquer país onde a Rússia lhes ordene que matem e morram.
