O e-mail foi enviado na manhã desta sexta-feira (27/2) por Mike Huckabee, embaixador dos Estados Unidos em Israel, aos funcionários da representação diplomática. "Aqueles que desejarem sair deveriam fazê-lo hoje. Não há necessidade para pânico, mas é importante fazer planos para partir antes cedo do que tarde", escreveu, segundo cópia obtida pelo jornal The New York Times. Em mais um sinal de possível ataque iminente dos EUA ao Irã, Huckabee recomendou que os servidores encontrem passagens no Aeroporto Internacional Ben-Gurion, em Tel Aviv, para qualquer destino. Pouco depois, o Departamento de Estado emitiu um alerta parecido, no qual adverte que cidadãos americanos "devem considerar deixar Israel enquanto voos comerciais estão disponíveis". O governo do Reino Unido retirou sua equipe diplomática do Irã e transferiu parte dos funcionários de sua embaixada em Israel para fora de Tel Aviv. China, França, Polônia e Cazaquistão também exortaram seus cidadãos a deixarem a região imediatamente. A Alemanha desaconselhou viagens para Israel. A Turquia também cancelou vários voos para o território iraniano.
No início da noite desta sexta-feira, o sultanato de Omã — mediador nas negociações indiretas entre Irã e EUA — informou que o regime de Teerã aceitou não armazenar urânio enriquecido, o que considerou um "avanço". Antes do anúncio, o presidente Donald Trump declarou não desejar que o Irã tenha qualquer enriquecimento de urânio, até mesmo para fins civis. "Eu digo nenhum enriquecimento", afirmou a jornalistas, antes de embarcar para o Texas. "Nem 20% nem 30%. Eles sempre querem 20%, 30%, para uso civil, vocês sabem, uso civil. Eu acho que não é civil."
O republicano enfatizou sua insatisfação com o resultado da terceira rodada de diálogo, em Genebra. "Não estou contente com o fato de eles não estarem dispostos a nos dar o que precisamos", disse. "Não estou nada satisfeito com isso, vamos ver o que acontece, conversaremos mais tarde. Teremos algumas conversas adicionais hoje." O titular da Casa Branca garantiu que não tomou uma "decisão final" sobre uma ofensiva militar contra Teerã, mas deixou claro que o Irã não terá armas nucleares. O regime dos aiatolás defende uma suspensão limitada de seu programa nuclear.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse que viajará a Israel, na segunda-feira (2/3), em com a missão de discutir com as autoridades sobre as "prioridades regionais" — na pauta, também estará o Irã. Trump chegou a anunciar um ultimato de 10 a 15 dias para se chegar a um acordo com Teerã, sob pena de uma ação militar. A janela de Trump vence entre 1º a 6 de março. Os Estados Unidos mobilizaram o maior aparato militar no Oriente Médio desde 2003.
Probabilidade real
Professor da Universidade de Yale e autor de "What Iranians Want: Women, Life, Freedom" ("O que os iranianos querem: mulheres, vida, liberdade"), Arash Azizi afirmou ao Correio que "ninguém sabe se e quando haverá ataques". "Existe uma probabilidade muito real de que ocorram em breve. Possivelmente neste fim de semana. Os países tomam precauções para garantir que seus cidadãos não fiquem isolados ou feridos. Portanto, isso por si só não significa que os ataques sejam certos, apenas que são prováveis", comentou.
Segundo Azizi, Trump recebeu diferentes planos operacionais. "Pelo que sei, nenhum deles inclui 'derrubar o regime'. Não está claro como os EUA conseguiriam fazer isso apenas com ataques aéreos. Mesmo que houvesse uma colaboração, digamos, com milícias que entrassem pelas fronteiras do Irã com o Iraque e a República do Azerbaijão, seria uma tarefa incrivelmente difícil. Eles podem pensar que, se enfraquecerem os órgãos de segurança do regime, haverá mais levantes e, de alguma forma, as pessoas acabarão com o regime. Essa é uma aposta muito incerta e abrirá caminho para o poder de diferentes elementos militares atualmente dentro do regime, já que resta pouca oposição organizada fora dele", observou Ele não descartou, porém, planos para o assasssinato do aiatolá Ali Khamenei e de uma transição nos moldes da Venezuela. "Certamente, há muitos aspirantes a Delcy Rodríguez na elite da segurança iraniana", acrescentou, ao citar a presidente interina venezuelana.
Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, afirmou ao Correio que "é perfeitamente possível um ataque de Trump ao Irã". "Mas, Trump é manipulador. Pedir aos cidadãos americanos que deixem Israel pode muito bem ser apenas mais uma manobra tática para aumentar a pressão sobre o Irã", explicou. "O presidente republicanos prospera na imprevisibilidade e, dessa forma, mantém seu oponente apreensivo, sem saber o que pode acontecer em seguida. Às vezes, ele consegue obter concessões que, de outra forma, não teria conseguido."
EU ACHO...
"Qualquer acordo alcançado pelos EUA e pelo Irã não será baseado na confiança. Ambas partes estabelecerão mecanismos para verificar qualquer acordo, a fim de garantir que o Irã não o viole. É importante notar que o Irã não deseja nenhum conflito violento agora dentro dos Estados Unidos e é provável que eles cumpram qualquer acordo que firmarem com os Estados Unidos."
Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York
Mais pressão da Casa Branca
Os Estados Unidos designaram o Irã como um Estado que pratica "prisões arbitrárias", a primeira medida deste tipo no âmbito de uma nova lista que poderia derivar em restrições de viagem. "O regime iraniano deve deixar de fazer reféns e libertar todos os americanos detidos injustamente no Irã, medidas que poderiam pôr fim a esta designação e a ações associadas", disse o secretário de Estado Marco Rubio em comunicado.
