Ataque ao Irã divide congressistas dos EUA

Democratas e até alguns republicanos contestam poder de Donald Trump para ordenar ação sem consulta ou autorização do Parlamento. Constituição estipula que guerras só podem ser deflagradas com aval do Congresso

Trump, ao anunciar ataque coordenado com Israel contra o Irã, ontem (28/2): presidente não pediu autorização ao Congresso antes de ordenar a ação militar  -  (crédito: Reprodução vídeo/X)
Trump, ao anunciar ataque coordenado com Israel contra o Irã, ontem (28/2): presidente não pediu autorização ao Congresso antes de ordenar a ação militar - (crédito: Reprodução vídeo/X)

O ataque deflagrado pelos Estados Unidos e seu parceiro Israel ao Irã, sem consulta ao Congresso, explicitou a divisão entre políticos norte-americanos sobre os poderes de guerra do presidente. Democratas e até alguns parlamentares republicanos defendem a votação urgente de uma resolução que limita a atuação bélica de Donald Trump se não houver autorização explícita do Congresso.

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A ação militar no Irã ocorreu às vésperas do início das primárias no país, quando os eleitores escolherão os candidatos que disputarão as vagas na Câmara dos Representantes e no Senado nas eleições gerais de novembro. Embora a maioria dos congressistas republicanos tenha apoiado os bombardeios, Thomas Massie, do partido do presidente, criticou o ataque. "Eu me oponho a essa guerra. Isso não é 'Estados Unidos primeiro'", escreveu Massie, no X, em referência a um dos lemas de Trump. "A Constituição exige uma votação, e seu representante precisa se posicionar publicamente, seja a favor ou contra essa guerra."

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O democrata Jack Reed, principal membro do partido na Comissão de Forças Armadas no Senado, ressaltou que, além de não ter a aprovação do Congresso, Trump colocou o país "em uma guerra sem ter nenhum plano quanto ao seu desfecho". "Os norte-americanos não querem outra guerra custosa e interminável no Oriente Médio quando há tantos problemas em casa", declarou o líder da minoria, senador Chuck Schumer, democrata de Nova York. 

A Resolução sobre Poderes de Guerra foi apresentada, pela segunda vez, em 8 de janeiro deste ano, pelos deputados Jim McGovern (democrata de Massachussets), Thomas Massie (republicano de Kentucky) e Joaquin Castro (democrata do Texas), que buscavam evitar qualquer novo ataque dos Estados Unidos à Venezuela. A medida foi proposta logo após a incursão militar dos EUA que terminou com a deposição e prisão de Nicolás Maduro. No fim de 2025, a medida foi rejeitada no Congresso por apenas dois votos.

Quando os rumores de ataque norte-americano ao Irã se intensificaram, com o envio de muitas unidades da Marinha, do Exército e da Força Aérea, os congressistas anunciaram que a resolução seria votada na próxima semana. Não deu tempo. Trump ordenou a ação contra o regime dos aiatolás nesse sábado.

"Conta do açougueiro"

O republicano Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, divulgou um comunicado no X aplaudindo a ação bélica. "Hoje (ontem) o Irã enfrenta as graves consequências de seus atos funestos", escreveu. Tom Cotton, presidente do Subcomitê de Inteligência do Senado, também se manifestou a favor do ataque. "O Irã travou uma guerra contra os Estados Unidos durante 47 anos (...). A conta do açougueiro finalmente chegou para os aiatolás", disse. 

Para Katherine Thompson, pesquisadora do Instituto Cato, organização de análise política em Washington, a autorização do uso da força militar ofensiva contra o Irã por Donald Trump "representa um claro e flagrante abuso do Poder Executivo". A especialista destaca que, segundo a Constituição, cabe ao Congresso autorizar a entrada dos Estados Unidos a uma guerra, e a ação de ontem direciona o país a esse caminho. 

"A decisão do presidente coloca as forças e bases norte-americanas na região na mira de uma retaliação", argumenta Thompson. "A guerra não é abstrata. Ela custa vidas e recursos americanos. Os Fundadores atribuíram ao Congresso o poder de iniciá-la precisamente para garantir que esses custos sejam enfrentados e debatidos antes que o país entre em guerra", diz, referindo-se aos líderes políticos que participaram da redação da Constituição, no século 18.

Colheita

Por meio da assessoria de imprensa do instituto de análises Atlantic Council, na capital norte-americana, o ex-secretário adjunto para Política Antiterrorista do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos Thomas S. Warrick afirmou que "essa guerra terá uma frente interna". "O povo norte-americano, por uma ampla maioria, queria que Trump concentrasse seu segundo mandato em assuntos internos, sobretudo na economia. Como ele não buscou o apoio do Congresso e do povo antecipadamente, as consequências serão de sua responsabilidade", diz. O especialista acredita que, se a operação for bem-sucedida, culminando no fim do programa nuclear iraniano, o presidente poderá receber um impulso político. "Mas corre o risco de sofrer um revés significativo em sua agenda interna se fracassar."

 

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postado em 01/03/2026 05:03
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