Oriente Médio em convulsão

Trump exige escolher novo líder do Irã e acena com revolta curda

Presidente dos EUA avisa que terá poder de decisão sobre indicação do sucessor do aiatolá Ali Khamenei. Republicano acena com a mobilização de minoria no país persa para levante contra regime. Azerbaijão sofre ataque com drones

Colunas de fumaça se erguem após bombardeio israelense a Teerã: anúncio de nova fase e promessa de
Colunas de fumaça se erguem após bombardeio israelense a Teerã: anúncio de nova fase e promessa de "surpresas" - (crédito: Atta Kenare/AFP)

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acenou com o aval às forças do Curdistão iraniano para atacarem o regime teocrático islâmico. "É ótimo que queiram fazer isso, eu seria totalmente a favor", respondeu o republicano, ao ser questionado pela agência internacional de notícias Reuters. Sob bombardeio intenso dos EUA e de Israel e o espalhamento da guerra para além do Oriente Médio, o Irã tem atacado curdos iranianos na região autônoma do Curdistão no Iraque, com a justificativa de atender aos interesses ocidentais e israelenses. Trump exige poder de decisão sobre o nome do próximo líder supremo iraniano. Nesta quinta-feira (5/3), o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, prometeu responder a um ataque com drones em Nakhichevan, exclave azeri entre Armênia, Turquia e Irã. Teerã nega envolvimento com o ataque, o qual deixou quatro feridos em uma escola e em um aeroporto.

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Trump sinalizou que não aceitará o nome de Mojtab Khamenei, filho de Ali Khamenei, para suceder o pai, morto em um bombardeio no sábado (28/2). "O filho de Khamenei é peso leve. Eu tenho que participar da nomeação, como com a Delcy (Rodríguez)", declarou ao site Axios, ao fazer uma comparação entre Irã e Venezuela. Depois de capturar o ditador venezuelano Nicolás Maduro, os EUA criaram laços de cooperação com o governo interino de Delcy Rodríguez. 

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A Guarda Revolucionária Iraniana — força ideológica do regime dos aiatolás — anunciou que usou drones para atingir o porta-aviões norte-americano "USS Abraham Lincoln". Até o fechamento desta edição, não havia confirmação independente sobre o ataque. Em entrevista à rede NBC News, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, desmentiu a intenção de Teerã de aceitar um cessar-fogo ou de abrir negociações com EUA e Israel. 

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, alertou que os combates "apenas começaram". "O Irã espera que não consigamos sustentar essa situação, o que é um cálculo muito ruim. Nós apenas começamos a lutar, e de forma decisiva', anunciou. O Comando Central dos Estados Unidos informou que conseguiu degradar em 90% os ataques com mísseis balísticos iranianos e em 83% as ofensivas com drones.

"Nova fase"

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, os bombardeios israelo-americanos deixaram 1.230 mortos, segundo a agência oficial de notícias iraniana Irna. O chefe de Estado-Maior israelense avisou que seu país iniciou uma "nova fase da guerra" e prometeu "outras surpresas" para o Irã. Israel defendeu o assassinato de Khamenei como uma ação dentro do escopo do "direito internacional". "Segundo o direito internacional dos conflitos armados, os comandantes militares que dirigem forças armadas durante uma guerra podem constituir alvos militares legítimos", declarou Nadav Shoshani, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), na rede social X. No Líbano, outro front, as IDF exigiram que toda a população do subúrbio de Beirute abandonem a região às pressas e passaram a bombardear a área, considerada bastião do movimento fundamentalista xiita Hezbollah. 

Moradores de Qom participam de funeral de mortos em bombardeios americanos e israelenses
Moradores de Qom, no Irã, participam de funeral de mortos em bombardeios americanos e israelenses (foto: Mehdi Alavi/Isna/AFP)

Uma moradora de Teerã que não quis ter o nome revelado relatou ao Correio que cidadãos trocaram o medo pelo alívio com a possível mudança de regime. "Os bombardeios têm destruído instalações da Guarda Revolucionária e prédios do governo. Durante os protestos de janeiro passado, muitos manifestantes foram presos e torturados em prédios específicos. A maioria desses edifícios foi destruída", contou. Ela acusou a Guarda Revolucionária de usar crianças em escolas e jardins-de-infância como escudos humanos. A iraniana disse que o regime impôs um bloqueio total à internet para impedir o contato da população com o mundo exterior e para prevenir manifestações de rua. "A ideia é impossibilitar que as pessoas falem umas com as outras e se ajudem", opinou.

Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), admitiu ao Correio que existe grande preocupação com a transição no Irã. Um dos fatores para isso, segundo ela, está associado à diversidade de grupos internos, incluindo os curdos — que apoiam mais autonomia dentro do Irã. "O apoio da Casa Branca aos curdos pode elevar a importância deste grupo político, mas traz efeitos sobre a região, haja visto a relação sempre sensível de populações curdas com outros Estados, como Iraque e Turquia", observou. A estudiosa vê uma tentativa de Trump de tentar unir a oposição iraniana para mudar o regime. 

Pecequilo entende que, ao anunciar que participará da escolha do próximo líder, Trump busca pressionar a transição e inflamar a oposição multifacetada. "O presidente americano subestima o desejo de soberania e o sentido de nacionalidade iraniana, ao supor que um líder estrangeiro poderia ter voz em processos internos", disse. 

Analista do Centro de Estudos Políticos-Estratégicos da Marinha, Mauricio Santoro afirmou à reportagem que a entrada dos curdos na guerra aponta para um cenário no qual o Irã pode perder o controle de partes expressivas de seu território para minorias étnicas. Ele não descarta uma guerra civil no país persa. "O risco existe, sobretudo pela questão curda e, em menor grau, por outras minorias étnico-religiosas, como árabes e azeris", advertiu.

"A Casa Branca está apelando para os curdos, pois começa a perceber que o regime iraniano não cairá, como ela imaginava. Por isso, os americanos tentarão desestabilizá-lo por dentro, não apenas com os curdos, mas também com outras minorias étnicas, como do Baluchistão, no leste do Irã", avalia Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM.

EU ACHO...

Mauricio Santoro
Mauricio Santoro, analista do Centro de Estudos Políticos-Estratégicos da Marinha (foto: Divulgação )

"Os EUA têm um papel muito importante no Oriente Médio, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial. O Irã é um país-chave na região. Entre 1940 e 1970, os americanos foram aliados cruciais do xá Reza Pahlevi e de seu programa de modernização social e econômica. A Revolução Islâmica de 1979 encerrou esse ciclo de aliança e iniciou um período turbulento de conflitos, tensões e guerras, que ainda está em plena explosão."

Mauricio Santoro, cientista político e e colaborador do Centro de Estudos Políticos-Estratégicos da Marinha 

Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) (foto: Arquivo pessoal)

"O Irã possui uma estrutura mais sólida de poder do que o Iraque e a Síria que, recentemente, passaram (e continuam passando) por conflitos internos. Ainda assim, não se pode descartar a hipótese de uma guerra civil dentro do país, à medida que existem cisões dentro da sociedade iraniana — entre os que defendem uma abertura do país ou a permanência de um Estado teocrático. Mesmo dentro de cada um destes grupos existem divergências."

Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM (foto: Arquivo Pessoal)
 

"Nesse momento, não vejo o risco de guerra civil generalizada, pois as forças de repressão do regime ainda estão intactas. Por esse motivo, Israel e os EUA bombardeiam delegacias de polícia e centros de comando da Guarda Revolucionária Iraniana, em cada cidade e região. O objetivo é tentar desestabilizar as forças Basij de repressão para as populações voltarem às ruas. Isso será muito difícil, porque não existe uma liderança única de oposição."

Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM

 

Imagens da guerra no Irã como se fossem o jogo Call of Duty publicadas pela Casa Branca
Imagens da guerra no Irã como se fossem o jogo Call of Duty publicadas pela Casa Branca (foto: Casa Branca)

O "videogame" real da Casa Branca

A Casa Branca sofreu críticas por publicar, em suas redes sociais, um vídeo com imagens da guerra no Irã como se fossem cenas do game "Call of Duty: Modern Warfare II". A montagem mostra bombardeios dos Estaods Unidos a caças iranianos, lançadores de mísseis e outros alvos. Não faltou também a perspectiva do atirador, com a mira à frente. Com a trilha sonora hip-hop de Childish Gambino, o vídeo começa uma tela do "Call of Duty"  e o jogador ativando uma recompensa por ter lançado uma "bomba guiada em massa". Para cada míssil que destrói um alvo iraniano, o governo de Trump editou as notificações para o placar e acrescentou o valor "+100".  

 

  • Moradores de Qom participam de funeral de mortos em bombardeios americanos e israelenses
    Moradores de Qom, no Irã, participam de funeral de mortos em bombardeios americanos e israelenses Foto: Mehdi Alavi/Isna/AFP
  • Mauricio Santoro
    Mauricio Santoro, analista do Centro de Estudos Políticos-Estratégicos da Marinha Foto: Divulgação
  • Cristina Soreanu Pecequilo

Professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo, de pós-graduação no PPGRI-San Tiago Dantas e EPI-UFRJ, pesquisadora do CNPq e NERINT-UFRGS
    Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Foto: Arquivo pessoal
  • Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM
    Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM Foto: Arquivo Pessoal
  • Imagens da guerra no Irã como se fossem o jogo Call of Duty publicadas pela Casa Branca
    Imagens da guerra no Irã como se fossem o jogo Call of Duty publicadas pela Casa Branca Foto: Casa Branca
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postado em 06/03/2026 05:50
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