DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O nome das mulheres iranianas é "resiliência"

Três iranianas que perderam parte da visão durante manifestações pela liberdade falam ao Correio sobre o sonho de uma nova nação e contam o que é ser mulher sob o regime teocrático islâmico dos aiatolás

Ghazal Ranjkesh, 24 anos, ressalta a luta dos iranianos com as mãos vazias  -  (crédito: Fotos: Arquivo pessoal )
Ghazal Ranjkesh, 24 anos, ressalta a luta dos iranianos com as mãos vazias - (crédito: Fotos: Arquivo pessoal )

Durante décadas, iranianas não tiveram escolha, a não ser conviver com a chamada "Polícia da Moralidade", com a repressão provocada pela obrigação do uso da hijob (lenço islâmico) e com a imposição da sharia, a lei do islã. Algumas delas carregam, por toda a vida, marcas da violência provocada pelo regime. No sonho de liberdade, perderam parcial ou totalmente a visão. Quando a guerra para destituir os aiatolás começou, em 28 de fevereiro passado, as primeiras vítimas também foram as mulheres do Irã. Um míssil supostamente lançado pelos Estados Unidos atingiu em cheio uma escola para meninas, em Minab, no sul do Irã, matando pelo menos 156 pessoas — em sua maioria, alunas. 

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"Existe um paralelo doloroso. No Irã, mulheres jovens foram baleadas nos olhos por exigirem liberdade. Agora, meninas de uma escola em Minab são assassinadas em um ataque, enquanto simplesmente tentavam aprender", admitiu ao Correio Masih Alinejad, ativista iraniana que iniciou a onda de protestos contra o hijab. "Mas não vamos fingir que essa tragédia começou com esta guerra. Antes mesmo de qualquer bomba cair, o regime havia matado pelo menos 240 estudantes durante o levante, simplesmente por protestarem. Portanto, não, esta não é uma guerra que o povo iraniano pediu. O regime está em guerra com seu próprio povo há décadas", acrescentou. 

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Diretor da ONG Iran Human Rights (IHR), Mahmood Amiry-Moghaddam afirmou que milhares de iranianos e iranianas sofreram violência. "Em geral, as mulheres e garotas são sempre vítimas invisíveis das guerras e dos conflitos. Sob o regime islâmmico, as mulheres sempre foram consideradas cidadãs de segunda classe. Elas não têm os mesmos direitos, não estão protegidas contra a violência doméstica. Só porque são mulheres, não têm permissão para estarem em certas posições, não podem decidir como se vestem, nem viajar sem a permissão do pai e do irmão. Em geral, o regime islâmico coloca as mulheres em uma posição muito fraca", comentou, por telefone, o ativista, hoje exilado na Noruega. Amiry-Moghaddam esclarece que as as leis e as políticas de Estado são apenas uma parte do "apartheid de gênero" visto no Irã e no Afeganistão. "Outra parte é a discriminação e a pressão da sociedade. O povo iraniano quer mudanças fundamentais, e parte delas envolve direitos iguais e oportunidades para as mulheres." 

A iraniana Ghazal Ranjkesh, 24 anos, vive há 10 meses no exílio, nos Emirados Árabes Unidos. Em 2022, ela protestava contra o regime teocrático islâmico, em Bandar Abbas, a 1.280km ao sul de Teerã, quando um disparo mudou tudo. "Perdi meu olho direito durante a manifestação. Fui atingida por um tiro disparado pelas forças da República Islâmica a menos de um metro de distância", relatou ao Correio. "O aiatolá Ali Khamenei está morto. Por poucas horas, experimentamos alegria, ódio e tristeza, tudo ao mesmo tempo. Mas nosso povo ainda está lutando contra a Guarda Revolucionária Iraniana de mãos vazias. Até que ela seja completamente eliminada, não estaremos a salvo." Na última quarta-feira, Ranjeksh lembrou que uma menina iraniana de 11 anos foi morta por um míssil israelense, no Kuwait.

"Como uma iraniana que perdeu um olho e presenciou a morte de amigos, não vejo mais protestos com mãos vazias como um caminho bem-sucedido para a liberdade. Na minha opinião, os ataques dos Estados Unidos e de Israel são o modo mais eficiente de destruir a República Islâmica", acrescentou Ranjkesh. 

"Como um vulcão"

Em 2023, Mersedeh Shahinkar, 43, representou o Movimento Mulheres, Vida e Liberdade e ganhou o Prêmio Sakharov, concedido pelo Parlamento Europeu. "Ser mulher no Irã é como resistir com a força do Monte Damavand contra o frio e o gelo. É igualmente belo, digno, poderoso e forte. As mulheres resistiram a esse frio e a essas dificuldades. Elas não desistiram. Em vez disso, como um vulcão, entraram em erupção, durante o movimento pela liberdade, e demonstraram sua força", disse ao Correio, citando o vulcão no Irã.

Mersedeh Shahinkar: "Nós veremos igualdade de direitos para mulheres e homens"
Mersedeh Shahinkar: pela igualdade de direitos para as mulheres e os homens (foto: Arquivo pessoal )

Ela prevê um futuro "brilhante" para o Irã. "Nós veremos igualdade de direitos para mulheres e homens. Pessoas de todo o mundo viajarão ao meu país e verão a beleza de uma nação livre, feliz e moderna." De acordo com Shahinkar, hoje nos EUA, depois da eventual queda do regime, o papel e a posição das mulheres se fortalecerão. "Veremos muitas mulheres talentosas na música. Em minha nação, cantar é um crime para as mulheres." Ainda hoje, Shahinkar precisa lidar com infecções recorrentes e dor.

Kosar Eftekhari: sem espaço para o perdão e desejo de justiça
Kosar Eftekhari: desejo de justiça e nenhuma possibilidade de perdão (foto: IHR)

Exilada na Alemanha, Kosar Eftekhari, 26, perdeu o olho em 12 de outubro de 2022, pouco depois de ser libertada da prisão. "Voltei às ruas. Por mim, por meu povo e por meu país", lembrou à reportagem. Durante os protestos, ela estava perto da confeitaria Shirini France, em Teerã. "Soldados armados bloquearam a rua. Tirei meu hijab compulsório. Eles me atacaram, disseram que eu não estava vestida como queriam. Bateram em mim. Um deles sorriu e disparou no meu olho", relatou. Durante anos, Eftekhari tem se perguntado se deveria perdoar o agressor. "Sinto, com mais força, que um crime não pode ficar impune. Se alguém pode cegar uma pessoa com um sorriso e não sofrer consequências pelo crime, então a violência na sociedade nunca cessará", disse. O sonho dela: uma separação absoluta de religião e política no Irã, e um governo secular. Questionada sobre o que é ser mulher na república islâmica, ela respondeu: "Privação, opressão, voz silenciada, ser apagada". 

  • Ghazal Ranjkesh:
    Ghazal Ranjkesh, 24 anos, ressalta a luta dos iranianos com as mãos vazias Foto: Fotos: Arquivo pessoal
  • Mersedeh Shahinkar: pela igualdade de direitos para as mulheres e os homens
    Mersedeh Shahinkar: pela igualdade de direitos para as mulheres e os homens Foto: Arquivo pessoal
  • Kosar Eftekhari: desejo de justiça e nenhuma possibilidade de perdão
    Kosar Eftekhari: desejo de justiça e nenhuma possibilidade de perdão Foto: IHR
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postado em 08/03/2026 05:50
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