GUERRA NO ORIENTE MÉDIO

Trump e chanceler iraniano descartam negociações para deter a guerra

Com a navegação virtualmente interditada no Estreito de Ormuz, Trump manifestou desprezo por acenos de acordo que alega ter recebido; Teerã adverte aliados dos EUA a não interferirem

Bombardeiro dos EUA é carregado em base no Reino Unido para atuar em missão contra o Irã: conflito se alastra dia após dia
 -  (crédito: Henry Nicholls/AFP)
Bombardeiro dos EUA é carregado em base no Reino Unido para atuar em missão contra o Irã: conflito se alastra dia após dia - (crédito: Henry Nicholls/AFP)

Na expectativa ansiosa pela abertura da semana nos mercados internacionais, sobretudo os de commodities, Estados Unidos e Irã sinalizaram ontem disposição para seguir com a troca de ataques na guerra que se alastra no Oriente Médio e afeta diretamente as cotações do petróleo. Com a navegação virtualmente interditada no Estreito de Ormuz, vital para o escoamento do óleo extraído na região do Golfo Pérsico, o presidente Donald Trump manifestou desprezo por acenos de acordo que alega ter recebido. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, não apenas desmentiu qualquer abertura ao diálogo, como advertiu aliados de Washington sobre os riscos de atenderem ao chamado da Casa Branca para que ajudem a restabelecer o tráfego de petroleiros.

"O Irã quer fechar um acordo, mas eu não quero fazê-lo, pois as condições ainda não são boas o suficiente", disse Trump em entrevista à emissora norte-americana NBC. O presidente reafirmou sua satisfação com o progresso das ações militares, e ressaltou em especial a alegada "destruição completa" das instalações de armazenamento e exportação de petróleo na estratégica ilha iraniana de Kharg, próxima ao estreito. "Se eu quiser, posso mandar bombardear de novo, só por diversão", provocou.

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A resposta veio pela voz do chefe da diplomacia de Teerã, em outra emissora dos EUA, a CBS. "Não vemos razão para conversar com os americanos, pois já estávamos conversando com eles quando decidiram nos atacar", disse Araghchi. O chanceler recordou que, dias antes do início da ofensiva coordenada entre Washington e o alidao Israel, ele mesmo participava de negociações com emissários de Trump sobre o programa nuclear iraniano — a exemplo do que ocorrera em meados do ano passado, quando instalações relacionadas à atividade foram bombardeadas pelos dois adversários. 

Antes, falando a um veículo de mídia em língua árabe, o Al-Araby Al-Jadid, Araghchi havia descartado qualquer hipótese de sequer uma suspensão das hostilidades sem que seu país recebesse "garantias" de que EUA e Israel não retomariam "a agressão". Incluiu nesse capítulo o pagamento ao Irã de "reparações" pelos danos sofridos, e renovou as advertências a outros países para que "se abstenham de qualquer ação que possa levar a uma escalada" no conflito. O chanceler alegou possuir "amplas evidências" de que bases dos EUA no Oriente Médio foram utilizadas para atacar seu país, e citou nominalmente os Emirados Árabes Unidos.

Fogo cruzado

O porto de Fujairah, nos Emirados, foi objeto de pesada represália iraniana aos ataques dos EUA contra a ilha de Kharg, no marco da "batalha do petróleo" aberta entre as duas partes. Novos ataques foram registrados ontem em instalações e bases norte-americanas em países como Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Bahrein, além do lançamento de mísseis contra Israel, que informou sobre ao menos oito feridos e afirmou ter iniciado a expansão de suas ações para alvos nas regiões central e ocidental do Irã.

O alastramento paulatino das ações militares, de parte a parte, e a virtual interdição do Estreito de Ormuz, em especial, levaram Trump, no sábado, a convocar "outros países afetados por essa restrição artificial" a enviarem forças-tarefas aeronavais para reforçar a presença militar norte-americana no Golfo. Mencionou China, França, Japão e Reino Unido.

Ontem, porém, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, relativizou o impacto do conflito sobre o mercado do petróleo, em prazo mais longo. "É verdade que estamos passando por este período de perturbação de curto prazo", ponderou, em entrevista ao programa This Week, da rede ABC News, embora tenha apoiado a ofensiva no Oriente Médio. "É melhor fazê-lo agora do que enfrentar um Irã com armas nucleares", afirmou Wright.

Ano-novo persa

Numa demonstração aparente de que a guerra entra pela terceira semana já parcialmente incorporada ao cotidiano dos países mais diretamente afetados, Teerã vivenciou um domingo (dia útil, no país) relativamente normal. O trânsito se mostrava mais intenso do que na semana anterior, e alguns cafés e restaurantes estavam abertos. No Bazar de Tajrish, na zona norte da capital iraniana, mais de um terço das lojas estavam abertas, a apenas cinco dias da celebração do Nowruz, o ano-novo persa.

O trânsito estava mais intenso do que na semana anterior, e alguns cafés e restaurantes estavam abertos. No Bazar de Tajrish, na zona norte da capital, mais de um terço das lojas estava aberto a apenas cinco dias do Nowruz, o ano-novo persa. Consumidores faziam filas para sacar dinheiro em caixas eletrônicos e também em paradas de ônibus, praticamente desertas nos primeiros dias do conflito.

Mais de 1.200 pessoas morreram no Irã desde 28 de fevereiro, segundo o Ministério da Saúde. A agência da ONU para refugiados afirma que mais de 3 milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas para outras regiões do país.

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postado em 16/03/2026 06:00
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