
Pouco depois de Donald Trump anunciar a ampliação, em cinco dias, do prazo para o Irã reabrir do Estreito de Ormuz, sob a justificativa de manter "conversas muito boas" com um alto representante do regime iraniano, Teerã desmentiu o presidente dos Estados Unidos. "Não houve negociações com os Estados Unidos, e fake news são usadas para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do atoleiro em que os EUA e Israel estão presos", escreveu, na rede social X, Mohammed-Bagher Ghalibaf, líder do Parlamento do Irã. "O povo iraniano exige punição completa e o repleto arrependimento dos agressores. Todas as autoridades iranianas apoiam firmemente seu líder supremo e seu povo até que esse objetivo seja alcançado", acrescentou.
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Teerã ameaçou espalhar minas navais pelo Golfo Pérsico, caso os EUA e Israel ataquem suas ilhas. "Qualquer tentativa do inimigo de atacar as costas ou ilhas iranianas provocará, naturalmente e de acordo com a prática militar estabelecida, que em todas as rotas de acesso e nas linhas de comunicação no Golfo Pérsico e nas zonas costeiras sejam instalados diversos tipos de minas navais, incluindo minas à deriva que podem ser lançadas a partir das costas", afirmou o Conselho de Defesa.
No início da manhã desta segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos utilizou a sua plataforma Truth Social para anunciar o suposto progresso na diplomacia e ordenar a suspensão dos bombardeios a instalações energéticas do Irã. "Com base no teor e no tom dessas conversas aprofundadas, detalhadas e construtivas, que continuarão ao longo da semana, instruí o Departamento de Guerra a adiar todos e quaisquer ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura energética iranianas por um período de cinco dias", acrescentou.
O presidente americano assegurou que as negociações focam-se em 15 pontos — os três primeiros tratam da desistência de Teerã de fabricar armas nucleares. "Não queremos que o Irã enriqueça seu urânio, (...) mas também queremos o urânio enriquecido (de Teerã)", avisou Trump. Ele disse que dialoga com "o homem" que considera "o mais respeitado e líder do país", mas descarta envolvimento do aiatolá Mojtaba Khamenei. Segundo o republicano, Mojtaba estaria "indisponível".
Apesar de a mensagem da Casa Branca sinalizar um recuo, Israel, seu principal aliado na região, avisou que manterá os ataques ao Irã. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu conversou com Trump e disse que o republicano acredita que avanços militares conjuntos podem resultar em acordo negociado para proteger os interesses de Israel. "O presidente Trump acredita que existe uma oportunidade de aproveitar as enormes conquistas que alcançamos em conjunto com as Forças Armadas dos EUA para concretizar os objetivos da guerra por meio de um acordo que salvaguarde nossos interesses vitais", declarou Netanyahu, por meio de vídeo.
Fatores conjugados
Pesquisador do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton, o iraniano Seyed Hossein Mousavian entende que a decisão de Trump de adiar um potencial ataque à infraestrutura energética do Irã pode ter sido influenciada por uma combinação de fatores diplomáticos, regionais e domésticos. "A troca de mensagens entre Washington e Teerã, por meio dos chanceleres de Turquia, Egito, Omã e Paquistão pode ter criado uma boa oportunidade para o presidente dos EUA recuar de escalar as tensões e se mover em direção ao fim da guerra", explicou ao Correio. "Além disso, a unidade do povo iraniano e a continuação dos bombardeios do Irã contra bases israelenses e americanas na região levaram Washington e Tel Aviv a concluírem que um plano para derrubar o regime iraniano não é realista."
Ainda segundo Mousavian, os aliados árabes dos EUA no Golfo estão "profundamente preocupados" com as consequências de uma guerra em larga escala, especialmente o risco de uma instabilidade nos mercados financeiros e de interrupção dos suprimentos de energia. Por fim, ele citou a crescente pressão pública nos EUA contra a guerra e as chances cada vez menores de vitória dos republicanos nas eleições de meio de mandato, em novembro.
Para Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute), não está claro o que Trump pretende fazer. "Muitos estão sugerindo que isso tem a ver com acalmar os mercados de energia globais, ante a escassez de petróleo e gás no Vietnã, em Bangladesh e nas Filipinas. Outros sugerem que se trata de uma manobra para ganhar alguns dias até que um contingente de fuzileiros navais chegue ao Golfo e Trump possa enviá-los tanto para o Estreito de Ormuz quanto para a ilha de Kharj. Alguns também veem nessa ação uma pressão sobre a liderança iraniana para que apresente negociadores confiáveis, visto que muitos de seus principais líderes foram eliminados", afirmou ao Correio.
EU ACHO...
"Espero que dessa vez os EUA atuarão com honestidade na diplomacia e que essa guerra sangrenta chegue ao fim. Alguns acreditam que essa decisão de Trump é tática, visando permitir que milhares de soldados americanos cheguem ao Golfo Pérsico nos próximos cinco dias. Depois disso, os Estados Unidos atacariam usinas de energia no sul do Irã e abririam caminho para a ocupação da Ilha de Khark. Se tais objetivos estão de fato sendo perseguidos, então a diplomacia deve ser considerada efetivamente morta — e os próprios Estados Unidos ficariam presos em um atoleiro ainda pior.”
Seyed Hossein Mousavian, pesquisador do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton
"A menos que Trump consiga que os iranianos concordem com os três zeros: zero enriquecimento de urânio e entrega do estoque enriquecido aos EUA; zero mísseis balísticos; e zero ajuda aos seus aliados na região, o regime terá vencido. Não acredito que este regime aceite termos tão duros. Simplesmente fazê-los entregar o urânio que possuem e abrir o Estreito de Ormuz não será suficiente para uma vitória de Trump."
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)

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