Ignorando o risco de novos bombardeios, milhares de pessoas acompanharam o funeral coletivo das estudantes mortas no sábado, após um ataque aéreo dos Estados Unidos e de Israel que atingiu em cheio uma escola primária para meninas em Minab, no sul do Irã. Pelo menos 165 crianças morreram e dezenas ficaram feridas. Vídeos compartilhados pela imprensa iraniana mostram a procissão de pequenos caixões cobertos pela bandeira do país, seguidos pela multidão. Ontem, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ONU), Volker Turk, exigiu uma investigação imparcial da investida.
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Em uma coletiva de imprensa, a porta-voz de Turk, Ravina Shamdasani, afirmou que o alto comissário está "profundamente chocado com os impactos" sobre civis. "Exigimos que as forças que realizaram o ataque divulguem as conclusões e garantam a responsabilização e a reparação para as vítimas", disse. Questionado por jornalistas em Washington, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse que o país "não atacaria uma escola deliberadamente". "Se o ataque fosse nosso, o Departamento de Guerra investigaria", acrescentou.
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Em nota, o Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos (Centcom) afirmou ter conhecimento da morte de civis, sem citar o caso específico da escola primária. "Estamos cientes de relatos sobre danos a civis resultantes de operações militares em andamento. Levamos esses relatos a sério e estamos investigando-os. A proteção de civis é de suma importância e continuaremos a tomar todas as precauções disponíveis para minimizar o risco de danos não intencionais."
"A sangue frio"
No X, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, comentou uma foto das covas sendo abertas. "Essas são covas sendo cavadas para mais de 160 meninas inocentes, mortas no bombardeio conjunto EUA-Israel a uma escola primária. Seus corpos foram dilacerados", escreveu Araghchi. "É assim que o 'resgate' prometido pelo Sr. Trump se parece na realidade. De Gaza a Minab, inocentes assassinados a sangue frio." Segundo a organização civil Crescente Vermelho, ao menos 787 civis foram mortos desde sábado no Irã. Desses, 176 seriam crianças.
Identificada como mãe de uma das vítimas do bombardeio à escola, uma mulher exibiu fotos da filha, que se chamaria Atena, e afirmou que aquela era a documentação dos "crimes norte-americanos". "Elas morreram no caminho de Deus." A todo momento, a multidão gritava frases contra os Estados Unidos e Israel, e garantia que o Irã não se entregará.
A essência do desespero
As imagens divulgadas da escola mostram livros, cadernos e mochilas sob os escombros. "Crianças, meninas, logo no começo da aula, sendo mortas dessa maneira, mochilas com manchas de sangue, isso é absolutamente horrível", recordou, ontem, Ravina Shamdasani. "Se existe alguma imagem que capture a essência da destruição, do desespero, da insensatez e da crueldade deste conflito, são essas imagens."
Em nota, o Monitor de Direitos Humanos Euro-Med, uma organização da sociedade civil, considerou que o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã é "um ato de agressão que viola a Carta da ONU". A ONG pediu uma investigação internacional do bombardeio à escola primária. "Os ataques a escolas resultam não apenas em mortes e ferimentos imediatos, mas também na interrupção da educação, na erosão da sensação de segurança das crianças e na imposição de medo e trauma coletivo, afetando diretamente os direitos à vida, à educação e à segurança pessoal", diz o comunicado.
Michael Schmit, especialista em normas de direito internacional que regem a guerra, vinculado à Universidade de Reading, no Reino Unido, concorda que as ações norte-americanas no Irã ferem as leis internacionais. "A administração dos Estados Unidos demonstrou, por meio de repetidas ações que direcionaram a força militar, que suas políticas e práticas são incompatíveis com as regras mais fundamentais que regem a paz e a segurança internacionais, regras concebidas para evitar outra guerra mundial e que estão em vigor há mais de 80 anos."
