Uma "morte quieta" foi o termo usado pelo secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, para descrever o ataque, no Oceano Índico, de um submarino norte-americano à fragata iraniana Iris Dena. O incidente — o primeiro do tipo envolvendo os EUA em 81 anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial — ocorreu na costa do Sri Lanka e expandiu o conflito para além do Oriente Médio. Pelo menos 87 marinheiros do Irã morreram e dezenas estão desaparecidos. "Nós estamos apenas começando. Estamos acelerando, não desacelerando. O regime iraniano está acabado, e eles sabem disso, ou pelo menos saberão em breve", afirmou Hegseth. Os corpos dos marinheiros foram resgatados e levados para o necrotério do hospital de Karapitiya, na cidade cingalesa de Galle. Outro sinal de expansão da guerra foi a derrubada de um míssil iraniano, que supostamente se dirigia à Turquia, por parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Enquanto escala os esforços diplomáticos para costurar um cessar-fogo, o Paquistão admite a hipótese de honrar um pacto de defesa com a Arábia Saudita e entrar na guerra.
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu a sua decisão de ir à guerra. "Acho que se não tivéssemos feito isso primeiro, eles teriam feito com Israel e nos dariam uma chance, se fosse possível", disse o republicano. Trump classificou o conflito no Oriente Médio como "algo incrível que está acontecendo diante dos nossos olhos". A Casa Branca descarta, por enquanto, o envio de tropas para o Irã e começa a planejar o pós-guerra. "Acho que é algo que o presidente está considerando ativamente e debatendo com seus assessores e sua equipe de segurança nacional", respondeu a porta-voz Karoline Leavitt, ao ser questionada sobre a possibilidade de os Estados Unidos terem um papel no país.
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Sob intensos bombardeios de Israel e dos EUA, Teerã assiste a um êxodo em massa: de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 100 mil pessoas deixaram a capital iraniana somente entre sábado (28/2) e domingo (1º/3). O conflito também se intensificou no Líbano, com novos ataques aéreos por parte da aviação israelense e a incursão de tropas para além da fronteira entre os dois países. O movimento fundamentalista islâmico xiita libanês Hezbollah anunciou que, pela primeira vez neste conflito, travou combates homem a homem contra soldados do Exército judeu. Em discurso inédito desde o início da guerra, Naim Qassem — líder máximo do Hezbollah que sucedeu ao xeque Hassan Nasrallah — descartou rendição. "Estamos enfrentando uma agressão (...) Nossa opção é confrontá-la até o sacrifício máximo, e não nos renderemos", declarou o líder do Hezbollah, Naim Qassem, em seu primeiro discurso desde que estourou a última rodada de combates.
Aliado do Hezbollah, o Irã prometeu alvejar "embaixadas israelenses em todo o mundo", caso a sua representação diplomática em Beirute seja atingida. Teerã também ameaça atacar a usina nuclear de Dimona, no sul de Israel, na hipótese de uma tentativa de derrubada do regime teocrático islâmico. Israel prometeu matar o próximo líder supremo do Irã. "Qualquer dirigente eleito pelo regime terrorista iraniano para continuar comandando o plano de destruição de Israel, ameaçando os Estados Unidos, o mundo livre e os países da região, e reprimindo o povo iraniano, será um alvo de assassinato, não importa seu nome nem onde se esconda", avisou o ministro da Defesa, Israel Katz.
Especialista do Carnegie Middle East Center, em Beirute, Yezid Sayigh lembrou ao Correio que muitos cidadãos americanos e membros do Congresso acreditam que Trump iniciou essa guerra sem obedecer a um processo constitucional adequado e sem a aprovação do Legislativo. "Há uma enorme dúvida sobre o que o presidente Donald Trump tem feito em termos de política internacional. Como as forças dos EUA buscam destruir os ativos militares do Irã e está claro que tentam obliterar a Marinha iraniana, é lógico que os americanos alvejariam a fragata de Teerã em águas internacionais", explicou. "O incidente é horrível, sob o ponto de vista de perdas humanas, mas faz parte de um confronto militar."
Sayigh acredita que a estratégia do Irã é de fazer com que as nações do Oriente Médio sintam-se ameaçadas, a fim de pressionarem os Estados Unidos a deter a ação militar. "Essa pressão é exercida sobre membros dos países do Golfo Pérsico que têm sido alvos de drones e de mísseis iranianos. Teerã pretende ameaçar os interesses dos Estados Unidos por todos os lugares. A ideia do regime é remover todas as limitações e contenções possíveis e provocar o maior dano que puderem no inimigo", avaliou.
"Guerra existencial"
Para o paquistanês Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Fasal para Estudos e Pesquisas Islâmicas (em Riad), o Irã adotou a tática de atacar qualquer instalação regional ligada a Israel. "O regime não se importa mais em deixar de atacar um ou outro país. Porque esta é uma guerra existencial para o Estado iraniano e para a República Islâmica. Por isso, eles jogarão todas as suas cartas. A mensagem é: 'se vocês não pararem, podemos atingi-los lá fora e interromper o fluxo econômico'", disse ao Correio. "Vejo isso como uma estratégia holística para tentar criar pressão sobre os vizinhos. A guerra está regionalizada e pode se espalhar ainda mais", alertou.
Karim avalia que a Guarda Revolucionária Iraniana decidiu enviar parte de sua frota para águas internacionais. "O incidente na costa do Sri Lanka, envolvendo o torpedeamento da fragata Iris Dena mostra que os Estados Unidos não tem interesse algum em permitir que alguns ativos da Marinha iraniana escapem. A intenção das forças americanas é destruir por completo a Marinha do Irã e anular a capacidade ofensiva marítima de Teeerã", afirmou. Para o especialista, o risco de o conflito se espalhar para fora do Oriente Médio aumentou. "O Irã não interromperá os bombardeios a outros países e a alvos israelenses. Quanto maior o caos, maior o impacto sobre a economia regional e maior o custo para a continuação do conflito."
Sobre a eventual entrada do Paquistão na guerra, em apoio à Arábia Saudita, Karim acredita que o ministro das Relações Exteriores paquistanês, Ishaq Dar, adotou um tom cauteloso ao abordar o tema. "Ele disse que os sauditas se aproximaram do Paquistão, no contexto do pacto de defesa, e que seu país deu garantias a Teerã em nome de Riad. Enfim, usou uma linguagem muito diplomática."
EU ACHO...
"A estratégia israelense no Irã é de levar ao completo colapso do regime. Neste cenáro, é improvável que qualquer força política no Irã ou fora seja capaz de remover o governo e restaurar a paz, além de fornecer segurança à população. Se o regime colapsar, é mais provável que vejamos mais fragmentação e mais violência entre diferentes comunidades, além de minorias no Baluquistão (leste) e no Curdistão (noroeste). Veremos mais atividades violentas, por parte do povo, em todos os lugars do país."
Yezid Sayigh, especialista do Carnegie Middle East Center, em Beirute
SENADO DOS EUA AVALIZA AÇÃO MILITAR
Os senadores do Partido Republicano rejeitaram uma resolução apresentada pelos democratas exigindo que o presidente Donald Trump buscasse a aprovação do Congresso para uma ação militar contra o Irã. Por 53 votos a 47, o Senado derrubou a medida. O democrata John Fetterman votou com os republicanos para bloquear a resolução.
