O filósofo Jürgen Habermas morreu, neste sábado (14/3), aos 96 anos em sua residência em Starnberg, na Alemanha. Testemunha do horror do nazismo, o intelectual foi obstinado em teorizar sobre a racionalidade comunicativa voltada para o consenso e o entendimento mútuo.
O alemão nasceu em 18 de junho de 1929, na vila Gummersbach, em Düsseldorf. Ainda na infância, passou por várias intervenções cirúrgicas por causa do lábio leporino, má-formação congênita caracterizada pela abertura do lábio superior. Marcado por dificuldades de fala durante a infância e o período escolar, Jürgen Habermas transformou sua limitação pessoal em um projeto intelectual sofisticado, fazendo da comunicação e da linguagem a grande busca de sua vida.
Para ele, a ação comunicativa é o alicerce para a emancipação humana e para a proteção da vida em sociedade contra a colonização burocrática e mercantil.
Habermas propôs um diálogo constante com os teóricos da Escola de Frankfurt, Theodor Adorno e Max Horkheimer, de quem herdou a veia crítica, mas se diferenciou ao buscar uma saída para interação social através da linguagem.
As obras do filósofo sempre foram multidisciplinares. Cursou universidades em Zurich, Göttingen e Bonn, além de realizar pesquisas empíricas sobre comunicação de massa, sociologia política e marxismo.
No fim da vida, revisitou toda a obra diante do neoliberalismo, do retorno da guerra e das redes sociais, e surpreendeu seus seguidores ao defender o bombardeiro em Kosovo sem autorização da ONU e a dura resposta de Israel contra Gaza, em outubro de 2023.
O Correio conversou com o professor Francisco Tavares, doutor em Ciência Política pela UFMG. Com área de atuação em Teoria Política e Materialismo Histórico, o professor explica como a teoria habermasiana moldou o pensamento social do século XX.
Como a experiência com o nazismo moldou a convicção de Habermas de que a democracia e o consenso são o caminho da sociedade?
Para Habermas, a primeira noção é de que os seres humanos dependem muito profundamente uns dos outros. O ser humano não é apenas a sua individualidade, apenas o seu desejo, apenas a sua conformação dentro do seu universo interior. A segunda noção é um horror e uma recusa muito profunda aos autoritarismos, aos totalitarismos e, muito especialmente, ao nazifascismo, porque ele viu esse horror muito de perto. Aos 13 anos de idade, Habermas foi recrutado para a juventude nazista. Ele conheceu isso em um momento em que estava se formando como sujeito. Essa é uma marca muito significativa.
Com a ideia de emancipação do indivíduo é construída na obra do filósofo?
Habermas aceita a noção de emancipação social do marxismo, que é a libertação em relação ao mundo do trabalho, em que o ser humano se realiza como espécie, como coletividade. Mas ele não para por aí. Ele também aceita o que chamamos de um diagnóstico sociológico weberiano, e isso muda tudo. Ele joga um terceiro elemento nessa história: Habermas está na Alemanha do século XX e começa a despertar para a chamada virada linguística que acontece na Inglaterra, nos Estados Unidos e em alguma medida na Áustria.
O elemento discursivo do debate — a linguagem, a comunicação — é mais relevante na constituição da sociedade e dos sujeitos do que simplesmente o elemento material, estritamente econômico, ou a simples máquina de força bruta da dominação estatal.
Ele quer, portanto, misturar uma tradição linguística forte na Inglaterra e nos Estados Unidos com um certo diagnóstico cínico e cético weberiano e, finalmente, com a ideia de emancipação de Marx. Habermas visita o século XIX e o século XX inteiro, tentando compor o que enxerga de melhor nessas inteligências para construir sua própria filosofia. Por isso, talvez seja o grande pensador do século XX. Por ter influenciado tanto a comunicação, a ciência política ou o direito, e obviamente a filosofia, ele navega por tradições, por regiões e por ideias muito diferentes entre si e tenta transformar isso em algo coerente.
Em 1981, Habermas publica a Teoria da Ação Comunicativa. Por que esse livro é considerado o mais importante da obra?
O próprio Habermas não achava isso. Quando chega a década de 60, ele se fez a seguinte pergunta: onde é que, em condições de modernidade — portanto, com dinheiro, Estado unificado e racionalidade científica —, a humanidade consegue agir de maneira emancipada naquele sentido de Marx?
Ele vai buscar isso sociologicamente, não filosoficamente. E encontra a resposta nos salões parisienses do século XVIII, na sociedade dos comensais na Alemanha e, principalmente, na cafeteria inglesa do século XVII. Ele questiona: 'Como eu transformo a sociedade inteira em uma prática equivalente à que vi?'
Ali, estavam pessoas que se consideram iguais e submetidas apenas à força do melhor argumento. Ele vai obsessivamente tentar descobrir como isso pode dar certo até chegar à publicação da Teoria da Ação Comunicativa.
No fim da vida, Habermas fez um balanço da obra?
Habermas viveu os últimos anos questionando a própria obra. Ele lançou um livro em 2024, que saiu em inglês agora, no qual diz: 'Olha, aquele mundo do século XX parece ter acabado. Esta realidade das grandes plataformas, do triunfo do neoliberalismo e do retorno da guerra parece colocar cada vez mais distante a possibilidade de uma esfera pública emancipada. Eu não sei em quais funções o meu projeto filosófico ainda pode se manter válido para interpretar este mundo. No final da vida, Habermas estava muito melancólico em perceber que até aquele mínimo do consenso, do debate, da legitimidade discursiva, começava a acabar nesse mundo de senhores da guerra.
Nos dias atuais, estamos mais distantes do conceito de esfera pública?
No mundo das plataformas, das bolhas, do direcionamento algorítmico, dos senhores da guerra e do chamado neoliberalismo, em que indivíduos autointeressados não estão dispostos a mediar seu desejo com o mundo, essa esfera pública habermasiana, como proposta, torna-se cada vez mais distante e improvável. O próprio autor admitiu isso em seus últimos anos.
Tem uma lição de Habermas que considera mais importante?
Habermas é um autor que, como nenhum outro no século XX, esteve disposto a dialogar e transitar por tradições geográficas, ideológicas e filosóficas muitas vezes rivais. Habermas foi um filósofo que soube ouvir. Não conheço outro pensador que tenha dialogado com marxistas, liberais e republicanos, levando todas essas vertentes tão a sério.
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