Oriente Médio em convulsão

Estados Unidos e Irã colocam as cartas sobre a mesa no Paquistão

Estados Unidos e Irã começam a negociar, em Islamabad, o acordo de cessar-fogo. Teerã exige o fim dos ataques no Líbano e o desbloqueio de ativos. Vice de Trump, J.D. Vance viaja ao Paquistão e adverte o regime teocrático a "não brincar" com Washington

Policiais mantêm vigilância perto do hotel onde será realizado o encontro entre americanos e iranianos, em Islamabad  -  (crédito: Aamir Quresh/AFP)
Policiais mantêm vigilância perto do hotel onde será realizado o encontro entre americanos e iranianos, em Islamabad - (crédito: Aamir Quresh/AFP)

Todos os olhos do mundo voltam-se, a partir deste sábado (11/4), para Islamabad. Na capital do Paquistão, autoridades do Irã e dos Estados Unidos estarão sentadas à mesa para negociar os termos de um cessar-fogo que seja capaz de abrir caminho para a paz no Oriente Médio. Na véspera das negociações, que ocorrerão em meio a forte esquema de segurança no luxuoso Islamabad Serena Hotel, o regime iraniano impôs condições para o diálogo: a suspensão dos ataques ao movimento fundamentalista islâmico xiita Hezbollah, no Líbano, e e o desbloqueio dos ativos de seu país.

Principal emissário da Casa Branca à Ásia, o vice-presidente J.D. Vance advertiu Teerã a "não brincar com Washington". "Vamos tentar manter uma negociação positiva. Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa-fé, nós, evidentemente, estamos dispostos a estender a mão aberta. Se tentarem nos enganar, verão que a equipe de negociação não é tão receptiva", avisou Vance, durante embarque para Islamabad, na Base Conjunta Andrews, em Washington.

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J.D. Vance, antes de embarcar para o Paquistão: "Vamos tentar manter uma negociação positiva"
J.D. Vance, antes de embarcar para o Paquistão: "Vamos tentar manter uma negociação positiva" (foto: Jacquelyn Marin/AFP)

Por sua vez, o presidente Donald Trump tornou a utilizar a própria plataforma Truth Social para enviar recados ao regime dos aiatolás. "Os iranianos não parecem perceber que não têm nenhuma carta na manga, a não ser uma extorsão de curto prazo do mundo, ao usar águas internacionais. A única razão pela qual estão vivos é para negociar", escreveu o republicano. "(Este é) O mais poderoso reset do mundo." O republicano assegurou ao jornal New York Post que o Exército americano está carregando "os navios com as melhores munições, as melhores armas construídas" para atacar o Irã se não houver acordo.

A emissora de tevê Al-Jazeera, do Catar, divulgou que a comitiva iraniana chegou nesta sexta-feira (10/4) a Islamabad, liderada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. Anfitrião do encontro, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, confirmou que os líderes dos EUA e do Irã participarão das conversas. "Em resposta ao meu sincero convite, dirigentes de ambos os países vêm a Islamabad. Ali serão realizadas negociações para o estabelecimento da paz", declarou, em pronunciamento à nação transmitido pela televisão. 

As Forças de Defesa de Israel (IDF) mantêm os bombardeios ao Hezbbollah e alegam ter matado 180 combatentes do grupo, na noite de sexta-feira, em ataques ao sul do Líbano. O Ministério da Saúde libanês anunciou 1.953 mortos — 357 na quarta-feira (8/4). As autoridades israelenses informaram que, em 40 dias de guerra, o Irã disparou 650 mísseis contra o território do Estado judeu, matando 24 pessoas e deixando 7 mil feridas. 

Pressão

Tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança, Talat Masood afirmou ao Correio acreditar que algum tipo de acordo possa ser alcançado. "Há pressão tanto sobre o Irã quanto sobre os EUA para que cessem as hostilidades, devido ao impacto prejudicial que o conflito causa na economia global, o que também afeta ambos os países", lembrou. "Os mais difíceis aspectos das conversações serão o arranjo de um acordo para a reabertura do Estreito de Ormuz e uma maneira de colocar um freio nas ambições nucleares de Teerã e no crescimento de seu programa de mísseis balísticos."

Hasan-Askari Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore), não espera um fracasso nas negociações. "Iranianos e americanos provavelmente concordarão sobre alguns assuntos e decidirão assentar os detalhes de outros temas mais tarde. Ambos não desejam retornar a um novo conflito armado, pelo menos por agora", admitiu ao Correio, por e-mail. "Se o Irã e os EUA demonstrarem acomodação mútua e compreenderem que ambos precisam satisfazer suas respectivas populações internas, poderão chegar a um entendimento justificável internamente."

De acordo com Rizvi, as questões mais problemáticas envolvem a verificação da promessa de Teerã de que não fabricará armas nucleares; a livre circulação de embarcações no Estreito de Ormuz, com algum tipo de controle; a retirada das sanções dos EUA e da ONU sobre o Irã; e a política israelense em relação ao Líbano. "Os EUA gostariam de levantar a questão do programa de mísseis do Irã, mas o Irã prefere mantê-la fora das discussões atuais."

Por sua vez, Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad), afirmou à reportagem ver um hiato em relação ao Estreito de Ormuz. Ele considera "bem possível" que o Irã reabra o canal depois de obter concessões — como o levantamento das sanções e o descongelamento parcial de seus bilhões de dólares em ativos congelados na Coreia do Sul e nos EUA. "Teerã poderá ter que abrir mão do urânio enriquecido, mas provavelmente negociará o Estreito de Ormuz como direito legal. Resta saber qual será o acordo entre as partes, pois ambos precisam de uma solução que lhes permita manter as aparências."

EU ACHO...

Talat Masood, tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança
Talat Masood, tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança (foto: Arquivo pessoal )

"As concessões que os EUA teriam que fazer seriam permitir que o Irã continuasse a desenvolver seu programa de armas nucleares e mísseis balísticos civis. Enquanto isso, o Irã teria que encontrar uma maneira de fazer algumas concessões em relação ao seu programa de armas e ao financiamento de grupos aliados, sem abandoná-los completamente, pois deseja manter certo nível de autonomia. Seria muito injusto para o Irã ter que restringir seus programas civis enquanto os EUA permitem que Israel desenvolva suas capacidades nucleares e de mísseis."

Talat Masood, tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança 

 Crédito: Arquivo Pessoal. Hasan Askari-Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore).
Hasan Askari-Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore) (foto: Arquivo Pessoal)

"O Paquistão se empenhará em pressionar os dois lados para que as negociações tenham um resultado positivo. Existe um otimismo cauteloso em Islamabad quanto ao resultado dessas negociações. Contudo, ninguém se dispõe a fazer uma declaração definitiva sobre o desfecho das conversas."

Hasan-Askari Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore)

Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad),
Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad) (foto: Arquivo pessoal )

"Há boas chances de sucesso nas negociações em Islamabad, pois os EUA não conseguiram abrir o Estreito de Ormuz militarmente. Tampouco conseguiram provocar uma mudança total de regime no Irã. Portanto, Trump busca uma saída honrosa para o conflito. O Irã demonstrou grande resiliência; e os iranianos mostraram grande coesão. No entanto, também desejam o fim da guerra, depois de sofrerem grandes danos à infraestrutura e as perdas de importantes líderes."

Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad)

 

  • J.D. Vance, vice de Trump:
    J.D. Vance, antes de embarcar para o Paquistão: "Vamos tentar manter uma negociação positiva" Foto: Jacquelyn Marin/AFP
  • Talat Masood, tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança
    Talat Masood, tenente-general aposentado do Exército do Paquistão e especialista em assuntos de segurança Foto: Arquivo pessoal
  •  Crédito: Arquivo Pessoal. Hasan Askari-Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore).
    Hasan Askari-Rizvi, estrategista militar da Universidade do Punjab (em Lahore) Foto: Arquivo Pessoal
  • Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad),
    Imtiaz Gul, diretor do Centro para Pesquisas e Estudos sobre Segurança (em Islamabad) Foto: Arquivo pessoal
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postado em 11/04/2026 05:50
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